Acabámos de sair de um verdadeiro TGV de tempestades, e já nos falam na edição 2026 dos incêndios de verão – somos um hotspot europeu. O centro de Portugal ficou devastado, e a saúde mental dos seus habitantes vai continuar a experimentar desafios extremos – e novos. Ainda que alguns neguem as alterações climáticas (sofredores de outro tipo de perturbações mentais), elas estão, indubitavelmente, a alterar-nos o clima – o meteorológico, e também o económico, social e mental. Além da novidade das síndromes emergentes, a exposição a fenómenos climáticos extremados é um poderoso stressor e fator de risco agravado para doenças mentais já nossas conhecidas.
Estima-se que 40 a 45% da população mundial esteja já diretamente exposta aos efeitos das alterações climáticas: ondas de calor, secas, cheias e tempestades, subida do nível do mar, insegurança alimentar e energética – à volta de 3,5 mil milhões de pessoas vivem em contextos altamente vulneráveis. Indiretamente, todos os terráqueos sofrem o impacto da crise climática. Em Portugal, que está a aquecer mais rápido do que a média global e está entre os países europeus mais expostos ao aquecimento, 70% da população já sofreu impactos diretos episódicos, e 30% dos portugueses vivem em zonas de risco climático elevado. Portanto, apanhados do clima, somos todos. Mas nesta nova versão da história, não seremos só dinossauros, somos o meteoro destruidor.
O impacto direto das alterações climáticas na saúde mental acontece sobretudo por duas vias: (1) A via traumática: a exposição a fenómenos meteorológicos extremos causa 40 vezes mais trauma psicológico do que lesões físicas (segundo o Observatório Europeu para o Clima e Saúde), levando a um aumento imediato de 20 a 50% nas taxas de depressão, ansiedade, perturbação de stress pós-traumático e ideação suicida; (2) A via fisiológica, a exposição a ondas de calor, provocam um agravamento das perturbações do humor e do comportamento e o aumento do risco de suicídio – o calor extremo interfere com o sono, a regulação emocional, os níveis de serotonina e de inflamação, agravando quadros preexistentes e/ou provocando crises agudas. Na maior parte dos casos, este impacto direto na saúde mental é de longa duração e pouco democrático: os grupos socioeconómicos mais vulneráveis são mais afetados.
Impacto indireto. Provavelmente já ouviu falar de ecoansiedade. Mas sabe o que é solastalgia ou ecoluto? A amplitude temporal dos efeitos da crise climática está a criar mais e específico sofrimento psicológico.
A ecoansiedade, conceito criado pelo filósofo ambiental australiano Glenn Albrecht em 2007, e formalizado pela Associação Americana de Psicologia em 2017, é o “medo crónico de sofrer uma catástrofe ambiental decorrente da observação do impacto, aparentemente irrevogável, das alterações climáticas, gerador de preocupação com o futuro próprio e das gerações seguintes”. Considerada uma resposta emocional compreensível a riscos reais, tem sintomas reconhecidos – emocionais, cognitivos, comportamentais e somáticos – e acomete sobretudo adolescentes e jovens adultos: de acordo a Lancet Planetary Health, 45% dos jovens relata que as preocupações ambientais têm impacto negativo quotidiano. Mas não só: 36% dos adultos sentem ecoansiedade, e 12% reportam sintomas severos.
A solastalgia, também formulada por Glenn Albrecht em 2003, é uma resposta psicológica de sofrimento causado pela alteração do ambiente local, em que a pessoa vive e onde se mantém. Albrecht usou-a para descrever a “dor pela perda de consolo ambiental” sentida nas comunidades afetadas pela mineração a céu aberto na Austrália. Ainda não é um diagnóstico clínico formal, mas é reconhecida em psicologia ambiental, tem sintomatologia específica (stress crónico, dificuldades de concentração, insónia, ruminação sobre o futuro, diminuição do bem-estar) e é fator de risco para agravamento ou desenvolvimento de doenças mentais (sobretudo depressão e ansiedade).
Por fim, o ecoluto, menos estudado, é uma resposta emocional de sofrimento, tristeza ou desesperança profunda à perda ambiental, desencadeada pela destruição de ecossistemas, espécies ou espaços naturais com significado para dada pessoa ou para uma comunidade. Este sofrimento pode ser extremo e incapacitante, coexistindo ou dando lugar a doença mental.
Os dinossauros não deram pelo meteoro, mas nós sabemos que somos o meteoro e também os dinossauros. Até sabemos que o ponto de não retorno está a 4 anos, ali em 2030, e para as gentes do centro do país, parece já ter chegado. Mas continuando no business as usual, não há clima ou mente que se salve.
LINHAS DE PREVENÇÃO E APOIO
Serviço de Aconselhamento Psicológico SNS24
808 24 24 24 (opção 4)
Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico
1411
SOS Voz Amiga
Lisboa
Das 15h30 às 00h30
213 544 545 — 912 802 669 — 963 524 660
Conversa Amiga
Inatel
Das 15h às 22h
808 237 327
210 027 159
Vozes Amigas de Esperança de Portugal
Voades-Portugal
Das 16h às 22h
222 030 707
Telefone da Amizade
Porto
Das 16h às 23h
228 323 535
Voz de Apoio
Porto
Das 21h às 24h
225 506 070
SOS Estudante
Linha de apoio emocional e prevenção do suicídio.
Todos os dias das 20h à 1h (exceto férias escolares)
915246060 (Yorn) — 969554545 (Moche) — 239484020 (Fixo)
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.