A verdade como a conhecemos acabou. A verdade factual, verdadeira, deixou de ser a oferta primeira nos meios que temos à mão para saber do mundo. A capacidade para a subverter e manipular a gosto é quasi total – fazer um deepfake está ao dispor de um nativo digital de 10 anos. Mas a tecnologia está apenas ao serviço do seu (ainda) Senhor. Fomos nós, inteligências naturais, que escolhemos dar à verdade a roupagem que nos convém. O facto já não é nuclear, a verdade é a versão de uma pessoa ou grupo, e os nossos sentidos, os verificadores de factos que utilizamos desde sempre, já não conseguem separar verdade efetiva de verdade fabricada. Fazer das coisas a verdade que quisermos polarizou o mundo e tornou-o muito, extremamente ruidoso. No meio desta gritaria toda, sinaliza-se o perigo para a democracia. Mas antes dela, não estará a nossa saúde mental em perigo? Se os sentidos não nos valem, como é que o nosso cérebro navega o quotidiano? A verdade, verdadeira e factual, morreu? Viva a verdade verdadeira! Não podemos fechar os olhos ao império da desinformação. Precisamos de media credíveis que transmitem factos e não efabulações algorítmicas ao serviço de alguma verdade – como a VISÃO. E de compreender o inimigo, porque ele sabe-nos de cor.
Como é que a desinformação nos apanha? Diz-nos a Ordem dos Psicólogos Portugueses que 1 em cada 3 portuguesas/es vê fake news quase diariamente, e que 81% estão preocupadas/os com a sua capacidade para distinguir verdade e falsidade online. As fake news são deliberadamente manipuladas e manipuladoras, têm os algoritmos como aliados – cuja preocupação exclusiva é o engagment e não o rigor – e contam com o incauto humano como distribuidor em massa, porque são criadas com o intuito de ativar respostas emocionais intensas – medo, raiva, excitação –, usando uma estratégia oportunista que combina a nossa parca capacidade cerebral de processamento com a própria arquitetura do cérebro.
Vejamos: (i) o cérebro recebe 11 milhões de informações por segundo, e nesse microintervalo só consegue processar conscientemente 40; (ii) destas, o cérebro vai priorizar as informações negativas, pesadas, stressantes, porque a sua principal preocupação é a nossa sobrevivência – o que explica tanto a curiosidade mórbida aos acidentes rodoviários como o doomscrolling; (iii) a seguir, a mesma prioridade à sobrevivência ativa o sistema de recompensas, pois sobrevivemos melhor tendo prazer nas nossas vidas: o cérebro procura estímulos ativadores do sistema, que provocam a libertação de neuroquímicos como a dopamina, endorfinas, serotonina, oxitocina – e a desinformação estimula-a através dos nossos próprios mecanismos cognitivos, como os viés de confirmação (preferimos informação que valida as nossas crenças, mesmo que falsa, e quando o cérebro a encontra liberta dopamina, sentindo prazer e “verdade”), de afiliação (partilhar informação que defende o nosso grupo ou ataca o oposto reforça-nos a pertença) e de repetição (a falsidade repetida dá-lhe familiaridade, que o cérebro confunde com veracidade, aceitando-a).
Qual é o impacto no nosso bem-estar e saúde-mental deste modo desinformado de viver? Estamos habituados a ouvir falar dos seus custos sociais, mas antecedem-lhes custos brutais individuais, pagos em mal-estar e doença mental. A exposição constante a conflito, sensacionalismo e fake news pode levar à Headline Stress Disorder. Da mesma forma, pode gerar uma fadiga emocional tal que provoque Cognitive Disengagement Syndrom, caracterizada por níveis persistentes de processamento atencional lento, hipoatividade (movimentos lentos, falta de energia, letargia) e nevoeiro mental, deixando de questionar a informação recebida – particularmente grave quando afeta a tomada de decisão, sobretudo no confronto com desinformação sobre saúde mental (ou física) e seu tratamento. Não são doenças mentais, são consideradas estados, conjuntos de sintomas, mas têm enorme impacto no bem-estar e saúde mental e são percursoras de Depressão, Ansiedade, Perturbação de Stress Pós-Traumático e de uma vasta panóplia de problemas de saúde física.
A nova desordem mundial parece ter chegado: a era da desinformação e inverdade, versões a gosto e criadores de verdades digitais. Temos de encher as trincheiras de mediadores facto-consumidor rigorosos e credíveis, temos de reprogramar o cérebro: sobreviver não é endeusar os algoritmos, é voltar a por a verdade no centro do altar. É ter visão própria – e não fechar os olhos à VISÃO.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.