Eemili Peltonen, deputado finlandês de 30 anos, morreu por suicídio no edifício do Parlamento, em Helsínquia. Não conhecia o seu percurso, por razões manifestas, mas as nossas histórias “cruzam-se” com 16 anos de intervalo: no verão de 2009 eu tinha 31 anos, era deputada à Assembleia da República em final de mandato – eu tentei, ele consumou. Podia ter sido eu. À época lidava com uma depressão crónica e síndrome de ansiedade generalizada. Peltonen terá desenvolvido ansiedade severa, ideação e depois comportamento suicida ao longo dos últimos meses – a sua família acredita que as alterações do humor foram efeito secundário raro de um medicamento corticoide receitado para uma doença renal grave. Podia ter sido eu, e as semelhanças são-me, 16 anos depois, ainda assustadoras.
Não fui, mas a cada 40 segundos alguém morre por suicídio, 25 pessoas tentam – e destas, a ampla maioria voltará a tentar. Pelo menos 95% de todas estas pessoas tem doença mental, sobretudo depressão e dependência de substância, diagnosticada ou por diagnosticar. A OMS diz-nos que cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio anualmente, números que têm o habitual atraso temporário (são de 2021) e subestima as estatísticas em saúde mental – com maior realismo, colocaria aquele número num assustador milhão de pessoas que, todos os anos, não suportam continuar a viver. Em Portugal, dizem-nos, há anos e anos, que diariamente morrem 3 pessoas por suicídio, sem revisão desta estimativa e existindo o entendimento “tácito” de que este cálculo é escasso no confronto com a realidade. O suicídio é a segunda causa de morte da Geração Z, mundo afora e entre nós. O suicídio não mingua, cresce. E perante tudo isto, que dura há tanto, demasiado tempo, continuamos plenos de estigma a calar esta palavra, a perpetuar o mitológico silêncio evitante, a entender que não há como ser preventivo ao falar de suicídio em casa, socialmente, nos media. Continuamos cheios de preconceitos com a saúde e pavor da doença mental. E tudo isto redunda sempre, exatamente, no mesmo: a surpresa perante um suicídio, “mas ele parecia tão bem”, “o que é que podíamos fazer?”. Muita coisa. Vamos mudar esta narrativa e mirrar esta numerologia intolerável?
O que é que podemos fazer? Comecemos por ultrapassar os mitos sobre suicídio, que nos assustam e inibem de abordar a questão. Para tal precisamos de conhecimento e literacia:
(1) falar sobre suicídio aumenta a probabilidade da pessoa passar à ação – o mais perigoso dos mitos: falar sobre suicídio com alguém que tenha ideação é preventivo, oferece apoio, perspetiva, pode abrir caminhos que a pessoa não consegue ver sozinha, encaminhá-la para ajuda especializada;
(2) quem fala sobre suicidar-se não concretizará ou está apenas a chamar a atenção – erro crasso: a maioria das pessoas que morrem por suicídio ou tentaram comunicam intenções, emitem sinais diretos ou subtis, e tudo isto corresponde a um derradeiro pedido de ajuda pré-consumação. Se alguém próximo está a viver dificuldades psicológicas ou de outra ordem, há que estar atento aos sinais e disponível para falar e ajudar;
(3) o suicídio é impulsivo – a mais das vezes, é antecedido de ideação suicida passiva, depois ativa, e planeamento. É um processo que pode – deve – ser interrompido;
(4) quem pensa em suicídio tem sempre a intenção de morrer – há todo um período de crise, em que a intensidade da ideação varia, o plano vai sendo criado, enquanto a pessoa sinaliza o seu desespero e pode, provavelmente quer, ser ajudada. Muitas vezes, a intenção não é morrer, é não continuar a viver com carga de sofrimento ou naquela situação;
(5) as pessoas que morrem por suicídio ou tentam são fracas e egoístas – a única característica presente e comum a (95%) das pessoas é estarem doentes, a viver com uma dor insuportável. O suicídio não conhece fronteiras de género, etárias, socioeconómicas, culturais, não é um ato de cobardia ou coragem – tal como as doenças mentais, é extremamente democrático;
(6) a tentativa sem sucesso termina ou diminui o risco – de modo algum, tentativas prévias de suicídio são sempre um dos maiores fatores de risco para uma nova tentativa.
Como abordar a questão, o que dizer, o que fazer?
(1) Em primeiro lugar, aceitar e reconhecer, mesmo que não consiga compreender, a dor insuportável daquela pessoa. Não se trata de nos colocarmos nos sapatos do outro, mas de aceitar que estão a provocar um sofrimento inexorável mesmo que nos pareçam os sapatos mais bonitos e confortáveis do mundo;
(2) não invalidar o seu sofrimento: simplificar a situação ao ponto do “vai ficar tudo bem” quando aquela pessoas está prestes a chegar ao suicídio por não entender como e onde haverá melhoria; desvalorizar/relativizar os problemas que está a enfrentar, tentando de imediato dar perspetiva a quem está a sentir o problema inultrapassável ao ponto de só ter solução através do suicídio; comparar a situação à de outras pessoas, cujas vidas são “piores” ou que, ainda assim, “conseguiram ultrapassar” – diz o povo, sábio, que com o mal dos outros podemos bem. A invalidação emocional, advinda da melhor das intenções, arrisca aumentar a sensação de isolamento, incompreensão e ausência de solução, deixando de ser preventiva para ser contributiva;
(3) “Estou aqui”, “vamos procurar ajuda já”, e passar à ação sem hiatos temporais. A ajuda necessária é especializada, temos capacidade de apoio, mas não competência resolutiva;
(4) Estar presente no processo – porque se chegar à ideação e planeamento suicida é um processo, sair deste ponto até à saúde é outro. Pode, provavelmente será, longo.
E os media? Devem esconder ou reportar? Devem abordar a questão com responsabilidade, sensibilidade – leia-se sem sensacionalismo –, sem detalhar pormenores (local, método, imagens, links de facilitação), sublinhando a solução e ferramentas disponíveis: as linhas de apoio, os centros de encaminhamento, a literacia em saúde mental. A OMS criou um conjunto de guidelines para os profissionais de media, que podem ser simultaneamente agentes de prevenção do suicídio e de informação. Ei-las aqui.
A resposta do SNS ao suicídio e à pandemia de doença mental é incompetente e muitas vezes inexistente. As dificuldades de acesso tornaram-se um fator de risco, e temos de exigir respostas. Hoje entrou em funcionamento, com anos de muito atraso, a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio. Façamos da prevenção um compromisso social – a sociedade somos nós.
Linhas de Prevenção e Apoio
Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico – 1411
Atendimento 24 horas por dia
SOS Voz Amiga – 213 544 545 — 912 802 669 — 963 524 660
Das 15h30 às 00h30
Conversa Amiga – 808 237 327 – 210 027 159
Das 15h às 22h
Vozes Amigas de Esperança de Portugal – 222 030 707
Das 16h às 22h
Telefone da Amizade – 228 323 535
Das 16h às 23h
Voz de Apoio – 225 506 070
Das 21h às 24h
SOS Estudante – 915246060 (Yorn) — 969554545 (Moche) — 239484020 (Fixo)
Todos os dias das 20h à 1h (exceto férias escolares)
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.