Se os efeitos da intervenção militar norte-americana na Venezuela não alterarem completamente as relações internacionais, os presidentes da China e dos Estados Unidos da América deverão encontrar-se três ou quatro vezes ao longo deste ano. A primeira será em abril, em Pequim, numa visita de Estado que Xi Jinping retribuirá até ao final de 2026. Entretanto, estão também agendadas duas cimeiras em que ambos em princípio participarão: a da APEC (Cooperação Económica Asia-Pacifico), em Shenzhen, no sul da China, e a do G-20, na Florida. É o prenúncio de uma nova ordem internacional? A emergência de um “mundo bipolar” e a consagração do “G-2” anunciado no final de outubro por Donald Trump?
Desde que os dois países estabeleceram relações diplomáticas, em 1979, o antecessor de Trump foi o único presidente dos EUA que não visitou a China durante o seu mandato. Sob a liderança de Joe Biden, o segundo país mais populoso do mundo passou mesmo a ser considerado “um desafio aos interesses e valores” da NATO. Altos funcionários da administração Biden já concluíram que “a contenção da China é um objetivo impossível”. “Pela primeira vez na sua história moderna – escreveram Kurt Campbell e Rush Doshi no jornal The New York Times – os Estados Unidos enfrentam um rival que possui maior dimensão na maioria das áreas críticas de poder, e a capacidade nacional americana sozinha pode não ser suficiente para enfrentar o desafio”.
Para tentar equilibrar a balança comercial bilateral, o novo governo ameaçou impor pesadas tarifas sobre os produtos importados da China. Pequim respondeu com idênticas medidas. Apos várias rondas de negociação ministerial, Trump e Xi encontraram-se no dia 30 de outubro na Coreia do Sul. Em vez de uma guerra comercial entre as duas maiores economias do planeta, com consequências potencialmente dramáticas para o resto do mundo, houve uma trégua. “A relação entre os Estados Unidos e a China nunca foi melhor”, disse o secretário norte-americano da Guerra, Pete Hegseth, depois de “uma produtiva reunião” com o ministro chinês da Defesa, almirante Dong Jun. “O Almirante e eu concordamos que paz, estabilidade e boas relações são o melhor caminho para os nossos grande e fortes países (…) Que Deus abençoe a China e os Estados Unidos da América”, acrescentou.
Também na nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA – um documento de 30 páginas muito critico da União Europeia, divulgado em novembro pela Casa Branca – as referências à China são mais apaziguadoras. Muitos comunistas chineses sentir-se-ão até orgulhosos por os EUA tratarem agora o seu país como “um concorrente quase igual” ou com poder equivalente – estatuto que Washington nunca atribuiu a qualquer outro membro do G-7 (Franca, Reino Unido, Canadá, Itália, Japão ou Alemanha). Nos meios académicos, porém, a desconfiança mantém-se e as mudanças enunciadas são vistas como “um recuo tático”. “Claro que devemos levar este documento a sério, mas não precisamos interpretá-lo em excesso, porque ele apenas representa a orientação política do governo dos EUA para os próximos quatro anos.”, comentou Jin Canrong, professor da Universidade Popular de Pequim (Renmin Daxue). O calendário do Partido Comunista Chines é mais dilatado: em 2035 o processo de “modernização socialista”, que tornará a China “um líder global no domínio da inovação”, ficará “basicamente concluído” e em 2049, no primeiro centenário da fundação da República Popular, o país estará no “centro do palco mundial”.
Apesar da sua crescente pujança económica, a China continua a assumir-se como “um membro do Sul Global” que “pertencerá sempre à família dos países em vias de desenvolvimento”. A expressão G-2 não faz parte do vocabulário oficial. “A China nunca promoveu nenhum quadro de governança mundial que seja dominada por uma ou algumas grandes potencias” e depois do que aconteceu no início do ano na Venezuela, estará ainda “menos disposta” a aceitar essa ideia, salientou um investigador de Hong Kong, Tony Zhao Xiuye, citado esta semana por um jornal local. Num “mundo globalizado” – argumentou – o próprio conceito de esfera de influência “está ultrapassado” e “contraria os interesses de um Sul Global em rápida ascensão”.
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