No ponto mais ocidental da Europa, sinto que vivemos à distância algumas das grandes tensões que dominam a época atual. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia é um caso paradigmático. Os países mais próximos da Rússia estão a reforçar as suas defesas militares, perante as provocações e ameaças russas. Se a realidade de uma escalada de guerra parece longínqua para Portugal, outras crises não só já estão instaladas, como pioram a cada dia que passam.
Em Espanha, decorreu no último sábado uma gigantesca manifestação pela crise da habitação que está a abalar os alicerces do poder regional e nacional. Tudo começou quando se deu o chocante despejo de Maricarmen Abascal, uma idosa de 87 anos com incapacidade, da casa onde vivia há cerca de sete décadas. Maricarmen tornou-se o símbolo de um vasto protesto que está a subir de tom em Espanha contra os fundos imobiliários que despejam a população. O caso levou à própria intervenção das Nações Unidas, mas sem sucesso. Pedro Sánchez está agora em contrarrelógio para apresentar soluções para resolver uma crise que se tornou como um cancro a infiltrar as principais cidades europeias. Os espanhóis permanecem acampados na praça central de Madrid com faixas em que se leem mensagens como “Eles por dinheiro, nós por amor”. É sobretudo a solidariedade e o amor de todos os locais que sustenta Maricarmen e denuncia uma situação inaceitável.
Em Portugal, Lisboa entrou para a lista de cidades com risco acrescido de uma bolha imobiliária. A capital tornou-se um dos mercados de habitação menos acessíveis da Europa, com um claro aumento de desequilíbrios. Não sem alguma ironia, Portugal é um dos mercados mais procurados devido também à sua aura de refúgio e proteção contra a instabilidade global, mas qual a probabilidade de essa bolha rebentar, quando sabemos que a habitação em Portugal se tornou um ativo financeiro global disputado e negociado por fundos internacionais? Na realidade, é como se as nossas casas se tivessem tornado ações a serem compradas e vendidas todos os dias nas bolsas, totalmente indiferentes à realidade da população portuguesa. Nenhum governo nos últimos 15 anos, seja qual for a sua cor política, teve a coragem de atacar a raiz do problema e travar a gradual transformação do mercado da habitação numa praça financeira. Em parte graças aos fundos PRR, houve uma tentativa de aumentar o parque habitacional público, mas é uma medida tardia e insuficiente que não resolve o verdadeiro problema.
Face a esta situação, não deixa de ser extraordinário como os autarcas do distrito de Lisboa nos iludem com casinhos para desviar a atenção da sua própria incúria. Refiro-me aos ataques ao sistema de depósito e reembolso de embalagens Volta e de como os municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML), liderados por Carlos Moedas, denunciam os “efeitos sociais e ambientais nefastos” e fala-se de “drama social sem precedentes”, no habitual tom exagerado do edil de Lisboa. Sim, o sistema precisa de melhorias, mas teve de ser a ministra do Ambiente a responder que o processo não iria ser cancelado e que “o drama social é independente do Volta. É um drama social que está relacionado com a pobreza, com os sem-abrigo que vão buscar alguma forma de ter algum rendimento utilizando estas garrafas”.
Num contexto social de crescente miséria e vulnerabilidade, enquanto uma fatia da população fica obscenamente rica e uma grande parte da população mal consegue chegar ao final do mês sem a corda ao pescoço, é o Volta que encheu durante alguns dias as manchetes dos jornais. É caso para dizer estão a gozar connosco? A natureza do meu trabalho faz-me ter acesso todas as semanas a relatos como os de Maricarmen Abascal a acontecer em Lisboa. São casos chocantes, e que não incluem apenas a população idosa, mas frequentemente mulheres com filhos menores e que imploram ajuda à governação da cidade. A fúria explodiu em Madrid, mas não se julgue que o rastilho não vai pegar fogo em muitas outras cidades europeias. A caridade só consegue ir até certo ponto e não pode substituir direitos e políticas públicas. Enquanto continuarem a atirar areia aos olhos das pessoas, criam no terreno uma enorme situação social de rutura. Estará a classe política e empresarial disposta a quebrar a paz social? As rachas já estão em todo o lado.
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