1.O PS volta a enfrentar os seus fantasmas. No momento em que José Luís Carneiro começava a afirmar-se, nas sondagens, como uma real alternativa para a chefia de um futuro governo, cai-lhe em cima a notícia da Operação Imergente, que envolve dezenas de arguidos e quatro detidos, a maioria dos quais ligados ao poder autárquico socialista, sob suspeita de crimes como prevaricação, burla qualificada, fraude fiscal qualificada, recebimento indevido de vantagem, entre outros. Suprema ironia, as buscas estenderam-se à sede do Largo do Rato, tendo sido detido um assessor, Duarte Moral, que trabalhava numa das salas contíguas ao gabinete do líder – numa inquietante repetição do que sucedeu a António Costa, na Operação Influencer. O caso merece ser esmiuçado em sete pontos fundamentais.
Primeiro: O timing da “bomba”. É certo que já havia notícias, com vários anos, de investigações a envolver, entre outros dos agora arguidos, o histórico socialista Miguel Coelho. E que, portanto, o caso, aparentemente, não teria de esperar por este momento de afirmação do PS, a liderar sondagens. Esta é a teoria da cabala, reforçada por precedentes suspeitos: o Ministério Público (MP) estaria a gerir politicamente as suas investigações. Neste caso, a tese é demasiado rebuscada. O momento para que este tipo de casos saia à luz do dia nunca é o mais adequado. Se não fosse agora, seria noutra altura, antes ou depois – e o mesmo tipo de argumentos seria sempre invocado. Pelo contrário, o MP não deve ter qualquer preocupação com os timings políticos, mas sim fazer, como parece ser o caso, o seu trabalho.
Segundo: O “trabalhador” (terminologia oficial do PS…) detido, Duarte Mural, apesar de ser apresentado como assessor de José Luís Carneiro, não será um dos seus mais próximos nem tem qualquer relevância estritamente política no partido. Ex-jornalista, especialista em comunicação e assessoria política, faz parte da mobília e foi herdado das equipas de António Costa, ainda do tempo da Câmara de Lisboa.
Terceiro: A argumentação inicial do PS – e, em parte, reiterada pela reação de viva voz de José Luís Carneiro – de que o partido “não é visado” nesta investigação não tem pés nem cabeça. Claro que o PS, como pessoa jurídica coletiva, não é visado – só faltava essa! Mas o PS é, do ponto de vista político, completamente visado. A maior parte dos envolvidos no caso foram eleitos em listas do partido, para o exercício de cargos públicos. Foram, portanto, selecionados e sufragados pelos órgãos do PS. Através deles, o partido é comprometido, nas suas entranhas autárquicas. Sim, o PS é visado.
Quarto: Tirando a parte referente ao ponto anterior, a primeira reação pública do secretário-geral socialista foi correta e adequada. Pouco mais podia dizer, além de dar a garantia de cooperação com as autoridades – sem vitimizações, muito menos, do tipo “cabalístico”… − e de uma segunda garantia de rigoroso escrutínio da conduta legal do seu pessoal político em cargos públicos.
Quinto: Não obstante, estando o PS a competir com o Chega para se afirmar como partido liderante da oposição e alternativa de governo, o caso é particularmente embaraçoso, visto que a temática do crime económico e da corrupção é uma das principais bandeiras do rival populista. Este é um presente magnífico para André Ventura e para a sua narrativa. Nota: sejamos, apesar de tudo, pedagógicos. Entre os crimes sob suspeita, não consta o de corrupção, nem ativa, nem passiva.
Sexto: O caso é típico de partidos de poder e de grandes partidos autárquicos. Só incorre nestas suspeitas ou crimes quem detém poder. Não sabemos como se comportaria o pessoal político autárquico de partidos como o Chega ou a IL se tivessem uma máquina autárquica, mas é quase certo que estes partidos teriam dificuldades similares. Claro que, não tendo essa máquina, será mais fácil atirar pedras aos telhados circundantes…
Sétimo: Ainda assim, o PS precisa, de uma vez por todas, de assumir que tem um problema, primeiro, e, depois, tem de enfrentar esse problema. São já demasiados os casos e casinhos que envolvem dirigentes seus – ou os casos e casões, como o que corporiza o Processo Marquês. Não devemos concluir que estamos perante um padrão – mas compete aos socialistas garantir que não podemos vir a tirar essa conclusão.
2. Pedro Passos Coelho atacou de novo. Na apresentação de um livro, em Lisboa, o antigo primeiro-ministro fez bizarras declarações sobre os políticos que, “querendo agradar a toda a gente, para combater o populismo, acabam por ser ainda mais populistas, tornam-se postiços e passam a comportar-se como prostitutos políticos”. Os termos são fortes e de gosto duvidoso, sendo que, ainda por cima, não condizem com o estilo cordato e prudente do ex-líder do PSD. Mas o mais inusitado é o nome do espectador que, na primeira fila, o aplaudia. André Ventura é mesmo o protótipo do político “postiço” que construiu um boneco e uma narrativa destinada a explorar sentimentos emocionais negativos e a ganhar votos. Dizer que os políticos querem agradar a toda a gente para combater o populismo é contraditório. E parece uma tirada metida a martelo, dentro de uma tese com mérito – a que identifica alguns políticos como superficiais e com falta de convicções –, exatamente para ilibar André Ventura dessa caracterização. Ao trazer à colação os populistas, para dizer que os outros querem agradar, Passos descredibilizou o próprio discurso que proferia. A sua antiga ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, inteligentemente, num comentário numa rádio, fez-se desentendida e sacou da sua melhor ironia: “Os jornalistas e comentadores interpretaram mal o que Passos queria dizer; ele não se referia a Luís Montenegro, mas sim a André Ventura.” Sim, só pode…
Mas podemos acrescentar algumas perplexidades: sabemos que Passos quis atingir Montenegro com o “postiço”. Mas, quando se refere a políticos que defendem convicções e cortam a direito, estará a ter como modelo quem? Ele próprio? Podia ser. Como primeiro-ministro, goste-se ou não, foi corajoso e não temeu ser impopular. A Mário Soares? Podia ser. Era um político igualmente corajoso, tendo-o demonstrado antes e depois do 25 de Abril, fosse na luta pela liberdade, na ditadura ou contra o radicalismo revolucionário, fosse na austeridade, dando a cara pelas más notícias e poupando os seus ministros das Finanças à exposição pública. Infelizmente, a crítica dirigia-se a Luís Montenegro – sim, ela até pode ter algum cabimento – mas o elogio destinava-se a André Ventura. As reações do PSD surgiram em cadeia e quase todas foram negativas. Com os termos de mau gosto que usou, Passos terá ultrapassado uma determinada linha vermelha e terá mais dificuldade em voltar a ser identificado como “homem providencial”.
Mas talvez seja mesmo verdade que Passos Coelho não faz tenções de voltar. Talvez se esteja nas tintas. Talvez faça tudo isto para se divertir. Tomou o gosto da iconoclastia e adora ser politicamente incorreto. Os jornalistas, os comentadores e a bolha agradecem.