É certo que os foguetões continuam a viajar para o Espaço, que há milhares de satélites em órbita e que os aviões e os drones rodopiam, azafamados. Eu próprio ando nas nuvens, de vez em quando. Quando era criança, imaginava um aeroporto na Lua e que lá fôssemos passar férias com capacetes de vidro. “Senhores passageiros, apertem os cintos e endireitem as costas das cadeiras: a nossa viagem rumo à Lua está prestes a começar.” Mas hoje as coisas estão um pouco diferentes do que se esperaria: o mundo está uma espelunca espacial psicopatologicamente irreconhecível.
Enquanto se comemorava o regresso à órbita da Lua, o líder senil e em descompensação narcisística do outrora conhecido como o país mais desenvolvido do planeta fazia um discurso atabalhoado contra a Europa, a NATO e a maioria dos países civilizados, manipulando as bolsas de valores e o preço do petróleo, em favor do próprio bolso, e mantendo (mais) uma guerra incompreensível em nome pessoal. É difícil conceber semelhante aberração, enquanto é lançada para o Espaço a cápsula Artemis II, num trajeto com quatro astronautas, rumo à Lua, como se a mesma Humanidade que mata também esteja apta a salvar-se num ato heroico.
No passado, sobretudo com a missão Apollo 11, a exploração espacial emitiu um sinal de perseverança e de pioneirismo. Pisar a Lua começou com o célebre discurso de John F. Kennedy a 25 de maio de 1961, que uniu a Humanidade em torno de um objetivo comum − apesar de o próprio não ter sobrevivido para o testemunhar. Hoje, sentimos um misto de satisfação e estranheza por estarmos a caminhar na direção oposta, em busca de um inimigo comum. Somos caranguejos a recuar perante estrelas-do-mar que parecem decadentes do céu.
Há poucos dias, descobri que, em 1969, o Presidente Nixon tinha em sua posse um discurso alternativo para o caso fatídico de os astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin não conseguirem sair da Lua e Michael Collins ter de regressar sozinho à Terra. O discurso intitulava-se In Event of Moon Disaster e foi escrito por William Safire; nunca chegou a ser usado, felizmente.
Na atual Administração dos EUA não se antevê tanta sensibilidade como no passado, para nenhum dos cenários, nem o do sucesso nem o do fracasso, como se hoje fosse mais legítimo o resto do mundo celebrar este programa espacial, como se a NASA fosse mais nossa do que deles. Não perdi a fé na América, apenas nalguns americanos. Aliás, numa das comunicações em direto, os próprios astronautas fizeram os seus silêncios enquanto ouviam o seu Presidente disparatar.
Lembro-me de se noticiar que estariam à venda terrenos na Lua e em Marte. Será esse o objetivo? Mas por aquelas bandas ainda não se pode construir muros: só no papel e escrito por oligarcas. O comum mortal nem pode ir avaliar a vizinhança. Mas quem venderá os terrenos? Não admira que o dinheiro escasseie neste planeta. Como se alguma vez tivéssemos sido donos de alguma coisa, quanto mais da Lua, de Marte ou do firmamento. Não dizem que o Sol, quando nasce, é para todos? Livres são os pássaros: são eles os donos do céu, não pagam IMI nem taxas aeroportuárias.
Por coincidência, ou por sincronicidade, estava a ler Orbital, romance de Samantha Harvey, embalado por uma viagem na Estação Espacial que me fez repensar a nossa pequenez. Do espaço não se veem as fronteiras que na Terra dividem os países. Mas imagino-me a chegar ao Aeroporto Lunar, a ir buscar as malas ao tapete rolante e a apreciar a Terra ao longe, o tal berlinde azul.
A verdade nua e crua atinge-me como um cometa: mal conseguimos cuidar de um planeta; aliás, estamos a dar cabo dele e de nós próprios. O que faremos com a Lua, Marte ou outro qualquer destino do vasto Universo? Quero acreditar que a Humanidade é capaz de fazer melhor, vou alimentar esse sonho de criança.
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