“Sem pista de aterragem, ventos razoavelmente fortes, muito difícil acesso. Seria uma semana para chegar um barco, o paciente encontra-se a receber oxigénio e o fornecimento estava a esgotar-se – por isso, tínhamos poucas opções.”
Foi assim que Ed Cartwright, comandante da 16ª Brigada Aerotransportada do Reino Unido, descreveu à Sky News a missão de seis paraquedistas, um médico intensivista e uma enfermeira que, no passado no fim de semana, aterraram na ilha Tristão da Cunha, localizada no Atlântico Sul, devido a um caso suspeito de hantavírus.
A ilha mantém o nome original em homenagem ao navegador português que a descobriu em 1506 e é o território ultramarino habitado mais remoto da Grã-Bretanha, apenas acessível por barco. Tem 221 residentes que são em grande parte descendentes de um pequeno grupo de colonos do século XIX; os seus “vizinhos” mais próximos moram na famosa ilha de Santa Helena, onde Napoleão Bonaparte passou os últimos anos de vida, a 2400 quilómetros de distância.
Na sexta-feira, 8, a Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido confirmara que, a 15 de abril, um cidadão britânico havia desembarcado do navio de cruzeiro MV Hondius em Tristão da Cunha, onde mora, suspeitando-se, entretanto, estar infetado com hantavírus. Entre o pedido de ajuda e a chegada dos paraquedistas e de 3,3 toneladas de material essencial, incluindo cilindros de oxigénio e kits de teste PCR, gastaram-se 56 horas.
Foi a primeira vez que pessoal médico teve de ser lançado de paraquedas para ali prestar apoio humanitário, aterrando num “campo de golfe coberto de pedras”. Yvette Cooper, a ministra dos Negócios Estrangeiros, afirmou então que a segurança de “todos os membros da família britânica” é a principal prioridade do seu governo.
No domingo à noite, aterraria em Manchester um avião fretado com 22 britânicos evacuados do navio afetado com um surto de hantavírus Andes, uma variante rara que pode transmitir-se de pessoa para pessoa e tem elevada taxa de mortalidade. Escoltados por profissionais de saúde com fatos de proteção completos, foram imediatamente levados para o Hospital Arrowe Park, em Wirral, para ficarem 45 dias isolados nas mesmas instalações que receberam os cidadãos vindos de Wuhan, na China, no início da pandemia de Covid-19, em 2020.
A recomendação da Organização Mundial da Saúde é de 42 dias de quarentena para tripulantes e passageiros do MV Hondius, “com seguimento ativo”, em casa ou numa unidade de saúde, mas cada país é livre de tomar uma decisão. Aos jornalistas que se encontravam no porto de Granadilla, em Tenerife, no arquipélago espanhol das Canárias, onde no domingo arrancou a operação de desembarque e repatriamento dos ocupantes do navio, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o diretor-geral da agência, admitiu que “há riscos” caso não sejam feitas quarentenas, mas insistiu em que a OMS não força nenhum país a seguir uma proposta.
Após as três mortes confirmadas e casos de oito suspeitos de infeção em pessoas de várias nacionalidades que viajaram no navio, a OMS garantiu que o risco deste surto para a população em geral é baixo, mas nenhum governo quer arriscar. Casa roubada, trancas à porta.