Na última edição da VISÃO, uma grande reportagem sobre o Burkina Faso retrata o regime de Ibrahim Traoré como uma ‘revolução em curso’. Sublinha o apelo do regime à soberania económica e a utilização da herança simbólica de Thomas Sankara. De facto, a retórica do regime levou a que muitos africanos olhassem para o Burkina Faso com a esperança de ali encontrarem a resposta de que precisam. Contudo, o golpista Traoré prometeu muito, mas mentiu ainda mais. À medida que o tempo passa, cresce a desilusão e o desespero.
Ibrahim Traoré subiu de forma violenta ao poder. Esteve envolvido num golpe que depôs o governo democraticamente eleito em 2022 e, meses mais tarde, ele próprio depôs os antigos camaradas para subir à presidência. Procurou legitimidade prometendo eleições para 2024. No entanto, incumpriu reiteradamente até que, há dias, disse aos burquinabés para “esquecerem a democracia”. Que a democracia “não é para nós”, “a democracia mata”.
Traoré é um inimigo da liberdade. Tem medo das eleições, pois sabe que poderiam expor a fragilidade do seu apoio. Assim se explica a decisão de dissolver todos os partidos políticos.
Desde que Traoré capturou o poder, o índice de liberdade atribuído pela Freedom House ao Burkina Faso caiu de 53 para 20, numa escala que vai até 100. Ano após ano, o capitão aperta as liberdades civis e os direitos políticos.
A liberdade de imprensa passou de “relativamente boa” para “difícil”, de acordo com a avaliação do relatório anual dos Repórteres Sem Fronteiras. O documento descreve “um aumento considerável das pressões, dos abusos […]. Alguns jornalistas críticos foram forçados ao exílio”. São ainda referidas “intimidações”, “invasão de redações” e “sequestro e detenção de pelo menos uma dúzia de jornalistas críticos ao governo”. Resultado: com Traoré o Burkina Faso caiu de 38º para o 110º lugar no ranking de liberdade de imprensa.
Também a Amnistia Internacional alerta para o facto de, só no ano passado, o Burkina Faso ter expulsado o coordenador residente das Nações Unidas, ter anunciado a saída do Tribunal Penal Internacional e ter dissolvido a Comissão Nacional de Eleições. A Amnistia denuncia ainda que a força paramilitar “Voluntários para Defesa da Pátria”, cometeu, em conjunto com os militares, violações do direito internacional humanitário. Em março do ano passado mataram “de forma ilegal pelo menos 58 civis desarmados”.
Os crimes cometidos pelo regime de Traoré não se ficam por aqui. A Human Rights Watch documenta extensivamente “crimes de guerra” e “crimes contra a humanidade” cometidos pelo exército burkinabé e pelas milícias VDP, incluindo limpeza étnica de civis fulani. A realidade no Burkina Faso é brutal para os civis por quem Traoré prometeu lutar: “Todos os corpos, com exceção do corpo do meu filho, foram agrupados no quintal, foram vendados com a sua própria roupa e prenderam-lhes as mãos atrás das costas…. e foram cravejados de balas”, conta um homem de 41 anos à Human Rights Watch. “O meu filho…estava deitado. Tinha sido baleado na nuca”.
É importante não romantizarmos o que está a acontecer no Burkina Faso. Ao contrário do título da reportagem da semana passada da Visão, não há nenhum “PREC” neste país africano. O PREC que conhecemos foi um processo português marcado pela liberdade e pelo alargamento, garantia e exercício dos direitos cívicos e políticos. Precisamente o oposto do que está a acontecer no Burkina Faso.
A lista de arbitrariedades e de barbaridades cometidas pelo poder militar no Burkina Faso é infindável. Estamos perante um poder ditatorial, autocrático, violento e ilegal. É importante sermos claros quanto ao caminho que defendemos para a humanidade. Liberdade em detrimento do autoritarismo. Democracia acima da ditadura. Sempre. Seja onde for.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.