A tempestade Kristin expôs uma realidade persistente. Os riscos que hoje afetam Portugal não são apenas nacionais nem pontuais. São riscos socioambientais transfronteiriços. Resultam da interação entre sistemas atmosféricos que atravessam a Península Ibérica como um todo e encontram territórios vulneráveis, infraestruturas frágeis e respostas ainda compartimentadas.
O fenómeno não respeita fronteiras administrativas. Vento, chuva intensa, agitação marítima e neve atuaram como um único sistema físico sobre um território contínuo. A leitura pública, porém, foi fragmentada e centrada em estragos isolados. Falta leitura sistémica. Falta reconhecer que o risco é partilhado e que a resposta também deveria ser.
A Kristin não pode ser reduzida a mau tempo. Foi a atuação simultânea de vários perigos meteorológicos sobre contextos sociais e territoriais já fragilizados. O vento derrubou árvores e estruturas. A precipitação provocou inundações. As falhas de energia geraram efeitos em cascata sobre comunicações, mobilidade e serviços essenciais. Os impactos não se somaram. Multiplicaram-se.
É isso que define os multirriscos. Perigos diferentes interagem com vulnerabilidades existentes e ampliam os danos. Uma falha elétrica deixa de ser apenas técnica e torna-se social. Estradas cortadas atrasam a resposta de emergência. Comunicações instáveis aumentam a insegurança. O risco deixa de ser episódico. Torna-se sistémico.
É neste quadro que eventos como a tempestade Kristin ganham significado nos sistemas socioambientais contemporâneos. Os impactos resultam menos de um único perigo isolado e mais da combinação de vários perigos meteorológicos que interagem entre si e com vulnerabilidades sociais e infraestruturais acumuladas no território. Exigem respostas integradas e planeamento.
Importa corrigir uma ideia ainda presente no debate público. Não existem riscos naturais no sentido estrito. Existem processos físicos que só se transformam em risco quando interagem com decisões humanas. Formas inadequadas de ocupação do território, falhas no planeamento urbano e uma gestão florestal deficiente expõem populações e infraestruturas a perigos conhecidos e podem converter fenómenos climáticos em desastres. Na crise do clima, esta distinção é decisiva. O risco é socioambiental e acumulado no tempo.
Risco ibérico partilhado
Há ainda um dado central subestimado. Portugal e Espanha partilham o mesmo hazard (risco) atmosférico. Estão inseridos na mesma unidade física e climática, a Península Ibérica. Os sistemas que organizam o tempo severo formam-se sobretudo no Atlântico e evoluem sobre o território peninsular como um campo contínuo. Frentes ativas, vento intenso, precipitação extrema e contrastes térmicos fazem parte dessa dinâmica comum.
No contexto da crise climática, este hazard está a intensificar-se. A atmosfera contém mais energia e mais humidade. Os padrões de circulação tornam-se instáveis. A probabilidade de eventos extremos aumenta. O hazard torna-se mais frequente e mais intenso. Torna-se também mais difícil de dissociar de impactos em cadeia sobre infraestruturas, serviços e populações.
O que distingue os efeitos em cada país não é a natureza do hazard, que é partilhado. É a forma como cada território o absorve, o transforma em risco e, em determinados contextos, em desastre.
Foi assim em outubro de 2017. Os ventos associados ao furacão Ophelia criaram condições extremas sobre a Península Ibérica e agravaram incêndios florestais já ativos. Morreram 49 pessoas. Quarenta e cinco em Portugal. Quatro em Espanha. Um marco trágico dos desastres ibéricos recentes.
O padrão repetiu-se em 2018. O furacão Leslie atingiu diretamente Portugal com ventos excecionais. Provocou danos extensos em infraestruturas e falhas generalizadas de energia. Produziu também efeitos em Espanha ao atravessar o território peninsular. Foi um dos eventos atmosféricos mais intensos da última década.
O que estes episódios revelam é simples. O hazard atmosférico é partilhado. A gestão do risco continua fragmentada. Existem programas de cooperação e mecanismos europeus. Existem articulações formais entre Portugal e Espanha no domínio da proteção civil, incluindo o Artigo 12º do Tratado de Amizade e Cooperação aprovado em 2022, que enquadra a cooperação bilateral na prevenção, na preparação e na resposta a acidentes graves e catástrofes.
A tempestade Kristin não foi imprevisível. O que mudou foi o contexto. Solos saturados, infraestruturas pressionadas e territórios pouco adaptados reduzem a capacidade de absorção. As alterações climáticas amplificam hazards existentes e, ao interagirem com vulnerabilidades, aumentam os riscos. Tornam os seus efeitos mais severos. O discurso político sobre adaptação continua, porém, a traduzir-se em investimento reativo e não preventivo.
Importância da comunicação
A comunicação de risco é parte central deste problema. Muitos planos de emergência permanecem nas gavetas. São pouco divulgados. Raramente apropriados pelas populações. A maioria das pessoas não sabe como agir antes, durante ou depois de uma emergência.
Avisar não é preparar. Informar sobre um alerta vermelho não garante compreensão nem ação. Em eventos noturnos e em territórios envelhecidos e desiguais, comunicar risco exige clareza, orientação prática e relação contínua com as realidades locais. Não apenas comunicação em momentos de crise.
O risco não é igual para todos. Depende da exposição e das vulnerabilidades. Ainda assim, a comunicação institucional trata os territórios como se fossem homogéneos.
A lição da Kristin é clara. O risco climático já não é exceção. É contexto. Continuar a tratá-lo como episódio isolado é adiar respostas estruturais. A questão não é quando surgirá a próxima tempestade com nome próprio. É se estaremos mais preparados quando ela chegar.
Comunicar riscos não é apenas informar com avalanches de dados que geram incomunicação. Comunicação de risco é relacional. Constrói-se no tempo. Não é um instrumento acionado apenas quando a crise já começou.
Mariluz Coelho
Jornalista socioambiental, investigadora júnior do Observatório do Risco do Centro de Estudos Sociais da Universidadede Coimbra, na área de Comunicação de Riscos Climáticos, especialista em Comunicação Científica na Amazónia e Desenvolvimento Socioambiental de Florestas Tropicais
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