Se Washington conseguisse deslocar o Irão, mesmo sem mudança de regime, para uma posição menos hostil e mais pragmática, isso teria um efeito sistémico na estratégia americana de contenção da China. O Irão não é apenas um dossier nuclear ou regional. É uma peça intermédia num tabuleiro maior que liga o Médio Oriente, a Eurásia e a guerra na Ucrânia.
Um Irão menos alinhado com o eixo Moscovo-Pequim enfraqueceria a Rússia, isolaria ainda mais a China e alteraria o equilíbrio estratégico global sem disparar um único míssil adicional. A estabilidade do regime iraniano é hoje um ativo estratégico para a Rússia. Perdê-lo seria abrir uma frente invisível na guerra da Ucrânia.
A Pérsia ensinou o mundo a governar antes de o mundo saber o que era poder. O que hoje se passa em Teerão, Mashhad, Isfahan, Shiraz ou Kermanshah não é turbulência episódica. É a erosão prolongada de um Estado que perdeu legitimidade histórica junto da sua própria sociedade.
Desde 1979, o regime construiu-se contra o Ocidente e contra o seu passado recente. O regime do xá Mohammad Reza Pahlavi era autoritário, repressivo e sustentado pelos Estados Unidos e por Israel. A polícia política SAVAK, treinada pela Mossad, tornou-se símbolo de tortura e medo. Esse apoio externo explica o ódio estrutural que durante décadas uniu grande parte do povo iraniano contra Washington e Telavive. A revolução liderada por Ruhollah Khomeini prometeu libertação. Entregou teocracia.
Em 1999, os estudantes de Teerão desafiaram o regime. Em 2009, o Movimento Verde contestou eleições manipuladas. Em 2017 e 2019, os protestos nasceram do preço do pão, da gasolina e da humilhação económica. Em 2022, a morte de Mahsa Amini transformou o véu num símbolo de revolta geracional. Cada ciclo teve motivações diferentes. Todos tiveram o mesmo desfecho: repressão.
Há uma fratura clara. As grandes cidades protestam por direitos e futuro. O interior e as periferias levantam-se por sobrevivência. O regime de Ali Khamenei falhou em ambos. As sanções, o isolamento estratégico e a obsessão ideológica empobreceram um país com recursos, capital humano e história. A nova geração é mais qualificada, mais informada e mais bloqueada. Não vê saída dentro do sistema.
Não existe oposição organizada porque o regime não permite diálogo. A fragilização após a Guerra dos Doze Dias, em 2025, com ataques cirúrgicos norte-americanos a infraestruturas estratégicas, quebrou o mito da invulnerabilidade. O Irão apareceu isolado numa região maioritariamente sunita, desconfiada do seu expansionismo xiita e alinhada, em silêncio, com a pressão americana contra o enriquecimento de urânio.
Este ponto é central para Moscovo. A Rússia depende do Irão para drones, munições, componentes e conhecimento tecnológico usados na guerra da Ucrânia. Um Irão instável, paralisado ou progressivamente afastado do eixo russo colocaria o Kremlin numa posição extremamente delicada. Sem Teerão, a máquina militar russa perde profundidade, redundância e margem de manobra. Por isso, o futuro do regime iraniano não é apenas um problema iraniano. É um problema russo e, por extensão, chinês.
Durante décadas, os EUA foram o inimigo externo que legitimava o regime. Hoje, essa narrativa enfraqueceu-se. A população iraniana observou a Venezuela e a captura de Nicolás Maduro. Mesmo sem colapso imediato, instalou-se uma ideia perigosa para Teerão: intervenções externas limitadas podem abrir fissuras internas.
É neste vazio que surge Reza Pahlavi. Não como solução, mas como sintoma. Não representa nostalgia monárquica, mas a ausência de alternativas. Para muitos iranianos, é apenas uma figura transitória, capaz de articular um processo de transição e eleições livres. A ironia histórica é cruel: o herdeiro de um regime autoritário pode tornar-se ponte para a democracia que o pai nunca concedeu.
O Irão é hoje uma civilização antiga governada por um regime esgotado. Não está apenas em crise política ou económica. Está em crise de legitimidade. A questão já não é se o regime resiste, mas quanto tempo consegue resistir contra uma geração que perdeu o medo e deixou de acreditar na promessa revolucionária. Quando um Estado deixa de oferecer futuro, começa inevitavelmente a contar os dias.