Morrer enquanto se espera o socorro do INEM – na semana passada, em dois dias, três idosos faleceram assim – é uma situação que alarma os portugueses, deixando a população sem confiança num Serviço Nacional de Saúde que tanto nos custou a construir. Quem nos vale quando for a nossa vez? Mas piores para a nossa ansiedade do que a falha do INEM são os discursos dos responsáveis políticos. Ora vejamos.
O diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, Álvaro Santos Almeida, diz que os “problemas que possam ter surgido são meramente pontuais” e que o SNS “está a responder melhor do que no passado”. Além disso, garante, “não há falta de macas nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde”. As urgências não andam a desviar as macas das ambulâncias dos bombeiros e do INEM, sublinha. “O que acontece é que os doentes chegam, têm de ser triados e só depois da triagem é que são transferidos das macas dos bombeiros para as macas dos hospitais.”
Nesse tempo da triagem, com as ambulâncias retidas à porta dos hospitais à espera de deixar os doentes ou que lhes seja devolvida a maca, outras pessoas lutam pela vida sem ter quem lhes acuda. Segundo a Comissão de Trabalhadores do INEM, o idoso que morreu no Seixal depois de ter estado três horas à espera, sem que houvesse ambulâncias disponíveis, foi uma vítima desta situação, em que as urgências dos hospitais “aprisionam macas, ambulâncias e equipas”.
Mas está tudo bem (só falta o arco-íris do tempo da Covid-19), porque além de a morte ser esta coisa tão certa como os impostos e, acontece, por vezes, chatear de forma “meramente pontual”, também está muito relacionada com as perceções. E o primeiro-ministro espanta-se com aquilo a que chama “perceção do caos”, que “não é a realidade”, já que os tempos de espera no SNS “são os melhores dos últimos cinco anos”. “Eu não quero, com isto, diminuir os casos na base dos quais esta perceção é criada”, acrescentou o primeiro-ministro, segunda-feira, no Porto.
Acontece que não se trata aqui de diminuir as mortes, mas esta imagem que os responsáveis políticos tentam transmitir de que estamos melhor do que nunca esbarra com a realidade de que o SNS entra em roda-viva com o pico da gripe. São erros atrás de erros. E isso não descansa ninguém, pelo contrário, desassossega o facto de os responsáveis pela saúde pública não saberem assumir responsabilidades, enredando-se em eternas sacudidelas da água do capote. É que tem chovido muito.
“Apareça a explicar porque algumas coisas más estão a acontecer”, apelou Luís Marques Mendes, candidato presidencial. Era uma indireta muito direta à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, que gasta boa parte da sua energia a repetir: “Não pedi nem pedirei para sair do Governo.” É o que mais tem feito desde que tomou posse.
Mais do que um estratega de relações públicas, este Governo precisa de um bom psicólogo que ensine técnicas relacionais para uma conversa saudável com o povo. Mesmo aquelas mais básicas que se aprendem nos livros de autoajuda. Amadurecer é: 1 – assumir responsabilidades; 2 – não tomar tudo como ataque pessoal; 3 – conseguir ter um diálogo sem necessidade permanente de estar sempre à defesa e, por consequência, ao ataque. Ficaríamos todos tão mais descansados…