Por onde começar a relatar o indizível? No caso de El Fasher, capital do Darfur do Norte, no Sudão, não há como o fazer sem provocar a dor de quem nos lê. Lamentamos, mas o dever da verdade assim o exige.
Foi provavelmente isso mesmo que pensou o principal responsável pela ajuda humanitária das Nações Unidas, o britânico Tom Fletcher, no início da reunião com embaixadores no Conselho de Segurança, na quinta-feira, 30 de outubro.
“Mulheres e raparigas estão a ser violadas, pessoas estão a ser mutiladas e mortas com total impunidade”, começou. “Não podemos ouvir os seus gritos, mas, enquanto estamos aqui hoje, o horror continua.”
Depois de tomarem o último bastião das Forças Armadas Sudanesas no Darfur, que resistiu às investidas durante mais de 500 dias, os combatentes das Forças de Apoio Rápido (RSF) avançaram de casa em casa, com “relatos credíveis de execuções em massa” enquanto os civis tentavam escapar, contou Fletcher.
Quase 500 pessoas terão sido mortas no Hospital Maternidade Saudita, uma das instalações de saúde visadas nos combates. “Dezenas de milhares de civis aterrorizados e famintos fugiram ou estão em movimento”, disse ainda o mesmo responsável da ONU. “Aqueles que conseguem fugir – a grande maioria mulheres, crianças e idosos – enfrentam extorsão, violação e violência na perigosa viagem.”
E não foi por falta de aviso. Desde que as RSF começaram a cercar El Fasher, há 18 meses, que as ONG e outros observadores andavam a alertar para a iminência de um banho de sangue. No exato dia em que os embaixadores reuniram com Fletcher, veríamos as imagens de satélite captadas no fim de semana anterior por uma equipa do Laboratório de Investigação Humanitária da Universidade de Yale, nos EUA.
Eram imagens com pilhas de corpos de pessoas executadas em massa ou abatidas por snipers. No X, o diretor-executivo do laboratório, Nathaniel Raymond, descreveu como ficou chocado com o facto de elas mostrarem “manchas de sangue evidentes”. “O horror, a escala e a velocidade da matança que está a acontecer agora é diferente de tudo o que vi em 25 anos de carreira”, confessou Raymond, especialista em investigação de crimes de guerra.
Não admira que o título da notícia no site das Nações Unidas seja Sangue na Areia, Sangue nas Mãos, frase dita por Fletcher aos seus colegas, exortando-os a analisar “a contínua falha do mundo em impedir” o que estava a passar-se no Sudão.
A verdade é que os relatos de atrocidades desde que El Fasher caíra nas mãos das RSF, no fim de semana anterior, seguiam um padrão já conhecido. Em abril, e em apenas três dias, o grupo paramilitar originário das milícias Janjaweed tinha matado mais de 1 500 civis, em Zamzam, um campo de deslocados internos, a sul de El Fasher. Na altura, uma investigação do Guardian recolhera testemunhos de massacres com motivações étnicas, execuções em massa e raptos em grande escala.
Ver para crer? Vivam as imagens de satélite quando se sabe que os jornalistas na capital do Darfur do Norte desapareceram devido ao bloqueio das comunicações, foram raptados e, nalguns casos, sofreram agressões sexuais por parte das RSF! “Estamos a reportar no escuro”, disse ao Comité para a Proteção dos Jornalistas um repórter sudanês que conseguiu fugir. “E, a cada hora, perdemos mais uma voz.”