Hoje, mais do que nunca, a tecnologia atravessa todas as dimensões da vida – desde a forma como nos relacionamos até à maneira como cuidamos da nossa saúde. No campo da psicologia, uma das discussões mais vivas prende-se com a emergência das terapias digitais: uma intervenção terapêutica realizada através de um software ou aplicação móvel (app) com base em evidências científicas. Apesar de não ser uma prática recente, a presença do digital no âmbito clínico e terapêutico ganhou força com a pandemia, que acelerou a procura de soluções à distância e, claro, como “reinvenção” da profissão. Porém, hoje, deparamo-nos também com chatbots que conversam com utilizadores durante episódios de ansiedade e depressão ou fazem companhia em momentos de solidão. Mas a pergunta impõe-se: quando a terapia passa a ser mediada por algoritmos, qual é o lugar da psicologia enquanto ciência?
Inicialmente para tratar fobias, a Realidade Virtual está a moldar a saúde mental e a ajudar os pacientes a desenvolver confiança e autoestima, sendo usada, ao mesmo tempo, de forma interativa com o terapeuta, ao permitir identificar as situações causadoras de stress. Também as apps para a saúde mental ganharam destaque. Por exemplo, a popular Calm – oferece meditações guiadas e exercícios respiratórios para ajudar os utilizadores a melhorar o sono; ou a Happify – que recorre a jogos para reduzir o stress e superar padrões de pensamento negativos. A verdade é que existem estudos científicos recentes (e.g., npj digital medicine; acta psychiatrica scandinavica) que, efetivamente, demonstram a eficácia destas ferramentas na manutenção da saúde mental.
Um crescente interesse académico e, simultaneamente, uma crescente preocupação residem na proliferação de chatbots capazes de simular diálogos terapêuticos e oferecer intervenções personalizadas. Numa escala de 24/7, estes recursos estão aptos para oferecer respostas personalizadas e imediatas, embora parciais, e têm demonstrado benefícios tanto na melhoria do bem-estar mental, assim como nos sintomas de depressão e ansiedade durante os processos de intervenção. Contudo, estes estudos (e.g., applied sciences; journal of affective disorders) concluem que, após o follow-up, os efeitos benéficos tendem a desaparecer. Ao comparar a eficiência da terapia tradicionalmente humana e a utilização dos ‘terapeutas artificiais’ em zonas de guerra (e.g., BMC psychology), são inegáveis os seus benefícios, porém a primeira revela resultados mais robustos e duradouros, sobretudo devido à sua profundidade emocional.
Aqui chegamos ao ponto essencial: pode um chatbot ajudar uma pessoa a recuperar de um processo de depressão? Em parte, sim; pela sua imediatez, pelo plano de intervenção em segundos e, também, pela resposta “que a pessoa quer ouvir”. Mas falta-lhe aquilo que é central na psicologia e na intervenção terapêutica: a relação humana. A psicoterapia é feita de técnicas, mas também – e sobretudo – de vínculo. O paciente encontra no terapeuta empatia genuína, escuta ativa e reconhecimento da sua singularidade. É nesse espaço humano que se constroem a confiança e a mudança – imprescindíveis para a eficácia do tratamento. Uma aplicação pode orientar, mas não consegue validar uma dor ou captar nuances emocionais complexas. E em situações críticas, como pensamentos suicidas, nada substitui a presença humana.
Há ainda questões éticas e de privacidade incontornáveis. Quem garante a segurança dos dados recolhidos por estas plataformas? Até que ponto os utilizadores percebem que interagem com uma máquina? E o que acontece quando um algoritmo, sem supervisão, falha no aconselhamento? Há, ainda, o risco de dependência tecnológica ou da ilusão de que um chatbot é suficiente para lidar com problemas graves, como a dependência química.
A revolução digital no plano psicoterapêutico é uma das grandes tendências da psicologia na atualidade. Tornam o apoio mais acessível (e menos dispendioso, no caso dos chatbots), rápido e até inovador. Mas o entusiasmo não deve fazer esquecer o essencial: a psicologia é, antes de tudo, uma ciência humana e social. Os algoritmos podem orientar, mas não escutam verdadeiramente. Podem simular empatia, mas não sentem. No final, continuamos a precisar de pessoas para cuidar de pessoas – estas, insubstituíveis.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.