O ataque de Israel à base da força de manutenção de paz das Nações Unidas no Sul do Líbano é daquelas afrontas que leva os Chefes de Estado, um pouco por todo o mundo, a reagir com indignação ao ultraje, mas que, na prática, se traduz num quase nada. Porque o tabuleiro dos interesses abana mas não cai.
No domingo, conta a ONU, tanques israelitas irromperam pelos portões da força de paz UNIFIL, entrando à força. Depois de saírem, explodiram obuses perto da base, espalhando uma substância tóxica que levou 15 capacetes azuis a necessitarem de tratamento, apesar de usarem máscaras de gás.
António Guterres não esteve com meias-palavras e, pelo seu porta-voz, avisou: “Ataques contra as forças de paz violam o direito internacional… Podem constituir um crime de guerra.” Ao que Benjamin Netanyahu respondeu que a base da ONU tem servido como cobertura a membros do Hezbollah e que “a melhor maneira de garantir a segurança do pessoal da UNIFIL é que a UNIFIL atenda à solicitação de Israel e saia temporariamente do caminho do perigo”.
O desplante teve o condão de unir a Europa e até a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, fervorosa apoiante de Israel, se insurgiu, apelando ao “direito internacional humanitário”.
Humanidade não há na voracidade com que Israel diz defender-se da ameaça que rodeia o país. Por todos os lados. Mas quem poderia parecer um David acossado (pelo Hamas, na Faixa de Gaza; Hezbollah, no Líbano; hutis, no Iémen; Irão e Síria), mostra-se, na verdade, um Golias.
Ou não fizesse tudo (ou quase) com a luz verde dada pelo “líder do mundo livre” e “home of the brave”. Garantia de impunidade.
Nos Estados Unidos da América, em março, 58% dos norte-americanos diziam que Israel tinha razões válidas para a sua guerra, sondagem do Pew Research Center. No final de agosto, eram 60%, segundo a CNN.
Desde os anos 60 que os EUA fornecem apoio militar a Israel, assim como monetário. Historicamente, foi o país que mais recebeu ajudas financeiras dos norte-americanos, segundo a publicação The Conversation, sendo que, atualmente, a maioria do dinheiro serve para comprar armas, com a condição de que sejam produzidas nos EUA. Em causa, está portanto, uma grande ajuda aos fabricantes nacionais, numa rotação de dólares que acaba nos bolsos norte-americanos.
A colaboração entre os dois países é profícua para ambos e os EUA têm beneficiado largamente da posição de Israel na região, não só durante a Guerra Fria, como depois dos ataques do 11 de Setembro, por exemplo. Além disso, um Estado israelita forte pode ser tampão às aspirações expansionistas de um Irão nuclear.
Não se espere divisões de maior na campanha eleitoral norte-americana. Enquanto senadora, Kamala Harris sempre apoiou as ajudas militares a Israel. Esta é uma questão em que os dois grandes partidos concordam.
O desvario israelita com que retaliou os ataques que sofreu a 7 de outubro de 2023 – os 42 mil palestinianos mortos, as escolas e hospitais atacados, as crianças esfaimadas, a recusa em deixar entrar ajuda humanitária, os ataques às organizações não governamentais, as suspeitas de crimes de guerra – são pedras no sapato, sim, sobretudo na opinião pública, mas tiram o sono a estes senhores das armas?
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