Acabou, finalmente e sem brilho, a farsa que António Costa montou para sobreviver às hordas do PS, fartas de um curto período sem os assentos e as pequenas e grandes prebendas da República.
É bom recordar o que o cansaço e a propaganda já quase apagaram: depois da vergonha de apear Seguro e de ficar atrás de Pedro Passos Coelho, Costa foi salvo pelo PCP que, nessa noite eleitoral, lhe estendeu o tapete que agora puxou, na antevéspera dos juros altos e da inflação que vêm a caminho.
A necessidade conjuntural do PS, em 2015, cindiu gravemente o País em dois hemisférios artificiais e criou um lastro que é preciso repudiar. Tudo o que não é natural só resiste com doses maciças de propaganda, coisa fácil depois de um período de dificuldades herdadas do PS e de 20 anos de crescimento de dívida. O despudor com que se retomou a demagogia da esquerda como união dos virtuosos contra os malandros da direita e da Troika, que só nos queriam para as suas malfeitorias, pode parecer mesmo básico mas funcionou, independentemente da minha incredulidade.
Agora, como aqui sempre se escreveu, só acabou o que não podia ser. Uma democracia liberal inserida na União Europeia e no Euro por escolha própria, um País que faz parte da NATO, um País de pequenos terratenentes e proprietários, respeitador da liberdade empresarial e da propriedade, não pode ser governado por quem acha que tudo isto somado é a causa do mal. É por isso que se separaram os sociais-democratas (como os socialistas de cá se diziam quase todos) dos trotskistas e dos leninistas.
Como a vergonha nunca abunda no PS, são agora os próprios que se dedicam, como o número dois do Governo, Santos Silva, a desfazer na alquimia impossível da geringonça.
O PS, diz ele, não aceita descontrolos financeiros que ponham em causa os compromissos europeus, não aceita que se ponha em questão a reforma que alargou o fator de sustentabilidade da Segurança Social e muito menos aceita, para ter consigo o Bloco de Esquerda e o PCP, o que até vale a pena citar: “… que se carregue as empresas com sobrecustos excessivos, prejudicando o investimento e o emprego”, e que “o combate à precariedade se faça na defesa dos segmentos mais protegidos”, “confundindo o interesse geral com o interesse corporativo do momento”.
Afinal, há leão, mas não é nas Finanças. Santos Silva prega tarde e revela o óbvio: António Costa nunca disse a verdade com a fábula da inclusão dos parceiros no arco da governação. Tirando a artimanha, a realidade é que no essencial não havia, nunca houve e não podia haver, chão comum. Quero ver agora como conseguem em campanha dizer o contrário.
Durou sete pesados anos de atraso para o País esta coreografia da política concentrada nos dois meses do ano, em que a “sua” maioria regateava e o PS seguia, cativando e ignorando o que prometia no fim do ano e, ainda assim, aumentando uma dívida que aí estará para pagar em breve. Não é o diabo, é a vida quando se adia o que faz falta.
Mas, por falar em adiar o que faz falta, nesta antevéspera das eleições, ambos os partidos da direita tradicional tinham eleições marcadas e muito desejadas, pelo mesmo motivo que não vale a pena escavar: tinham líderes considerados fracos e candidatos a disputar-lhes eleições. O CDS atirou a toalha ao chão, e a única, a última, hipótese de Costa é o PSD fazer o mesmo. Mas, longe vá o agoiro. Não se ganha o País com quem não quer começar por ganhar os seus. Toda a gente no PSD sabe disto.
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