Também eras como eu, um daqueles mochileiros que achavam que a Europa ficava para o fim? Também dizias, tal como eu, que as viagens duras e perigosas se faziam quando se era jovem, e que os destinos confortáveis e seguros ficavam para depois, por exemplo, para quando fosses um viajante sénior? Um experiente e batido mochileiro sénior? Pois, o mundo mudou depressa demais e para direcções que nem os livros de ficção científica tinham imaginado. E agora tiraram-nos o tapete debaixo dos pés. Que Europa é esta que nos ficará para visitar, no mapa que traçámos para a nossa terceira idade? O que irás fazer a Veneza, à Provença, a Dubrovnik, a Barcelona, quando não restarem venezianos, provençais, naturais de Dubrovnik, gente de lá, mas apenas turistas como tu?
Lembras-te da expressão “barbarians at the gate”? A civilização ameaçada pela invasão iminente da barbárie, as hordas selvagens prontas para invadir o império e destruir as suas cidades? Então a nova barbárie é o turismo de massa, pronto para destruir as cidades da Europa. E a barbárie não está à porta, já arrombou as muralhas. Atenção, os turistas não são apenas “eles”, somos todos nós. Todos somos turistas. E todos queremos viajar. Assim, o que está a acontecer um pouco por todo o lado é termos os lugares mais bonitos do mundo invadidos por gente de todo o mundo que ao procurar essa beleza, a asfixia.
Porque é o que o turismo de massa se tornou tão perigoso para a Europa? Porque é excessivo. Somos demasiados. A primeira causa está na facilidade com que hoje podemos viajar: a internet, os voos low cost, o Airbnb, o hostel, as fronteiras abertas, a moeda única, os preços baixos, etc…
A segunda causa está nos novos viajantes que apareceram no planeta: os chineses. Tal como qualquer outro turista, os chineses adoram a Europa – não propriamente por ser um paradigma para eles, longe disso, mas por ser exótica, diferente e variada. O que torna a Europa tão atractiva para o turista chinês? O mesmo que torna a Europa tão atractiva para um turista europeu. Óptimos lugares para umas férias, para umas compras, para uma experiência gastronómica intrigante, para ver alguns dos lugares e monumentos mais bonitos do mundo, para um choque cultural, para uma experiência única. Para umas selfies.

Por muito que nos custe compreender, os turistas chineses vêm à Europa exactamente pelas mesmas razões que nós vamos à China ou à Europa. A única diferença está na escala, nos números, na dimensão da massa. No ano passado, seis milhões de turistas chineses visitaram o Velho Continente, mas o crescimento deste fluxo é de 7,4% ao ano. E, ao contrário do que imaginamos, são cada vez mais os chineses que viajam por conta própria, que definem o itinerário de acordo com os seus interesses, e que pagam bem para terem os bens e serviços que planearam. Portanto, aquele destino na Europa onde tu sonhavas ir quando fosses um velho mochileiro, na tua idade da reforma, o mais provável é que quando lá chegares, tenhas o teu lugar ocupado por outro turista. Quando traçaste o mapa da tua terceira idade, já sabias que terias que te preocupar com os outros europeus e os americanos. Agora apareceram os chineses. Os indianos serão os próximos. Portanto, não adies mais a Europa. É o teu destino para 2020.
(Opinião publicada na VISÃO 1399 de 26 de dezembro)