<#comment comment=”[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false PT X-NONE X-NONE MicrosoftInternetExplorer4 1. Há momentos em que nos faltam as palavras, ou em que as palavras já foram todas ditas. Mas nos quais nem por isso se deve abdicar de dizer, afirmar, tomar posição, mesmo que seja só com a presença silenciosa numa qualquer manifestação, mesmo que seja só a empunhar sozinho um pequeno cartaz igual a milhões (“Je suis Charlie”, por exemplo) ou a deixar na calçada uma flor em memória dos que tombaram assassinados pela desumanidade e a barbárie. Face ao que aconteceu em França, é o que pretendo fazer com estas linhas singelas.
2. Para além delas, importa sublinhar o que teve de extraordinariamente significativo, impressionante, reconfortante, a grande concentração de Paris do último domingo: pela República, pela democracia, pela paz – contra o terrorismo, o fundamentalismo, a violência e o medo. Na capital francesa, cenário histórico dos maiores avanços em termos de Direitos Humanos, além de matarem selvaticamente pessoas inocentes, quiseram – e se calhar até pensaram que o conseguiam – matar a própria liberdade, através do seu núcleo central, a sua primeira pedra de toque, que é a liberdade de expressão. Na manifestação de Paris, de modo avassalador, mas também em muitas outras latitudes, mostrou-se que falharam e falharão sempre. Nesta ótica, pode-se dizer que as criminosas rajadas de metralhadora lhes saíram pela culatra…
Lamento, no entanto, que não tenha a mesma dimensão a esperança que nos devia criar, a outros níveis, o haverem participado nela, lado a lado, dirigentes de todo o mundo, de várias religiões, raças e ideologias, incluindo de países com velhos e sangrentos conflitos entre si. Foi bonito, foi positivo, mas contribuirá para mudar tanto que é preciso mudar?…
3. Diante da enormidade do sucedido, até parece absurdo falar da política interna. Mas lá terá de ser. E do que se falou bastante nos últimos dias foi das próximas presidenciais. Sobretudo a propósito dos nomes dos potenciais candidatos a apoiar pelo PS e pelo PSD, que em princípio serão, à esquerda e à direita, os com mais possibilidades de vencer. Ora, em relação ao candidato da área do PS, o nome que tem surgido como mais forte e capaz de suscitar um largo consenso é o de António Guterres.
De facto, o antigo primeiro-ministro reúne uma soma de saberes, características e qualidades que só por si o tornariam um excelente candidato – que ainda muito mais o é por exercer, com indiscutível proficiência e geral reconhecimento, um importante cargo nas Nações Unidas. Talvez o humanitariamente mais relevante e, do ponto de vista da dureza do trabalho, mais exigente. Por tudo isto se fala dele também como um forte candidato a n.º 1 da ONU. Assim sendo, já os do costume, na política e nos media, discreteiam ou reclamam sobre a necessidade de se definir, optar, anunciar seja lá o que for, criando, eles, timings artificiais, que são só os seus, e como de hábito, à falta de assunto e de imaginação, voltando ao tema quando não têm outro mais a jeito.
Ora, se as presidenciais podem ou devem ser já motivo de ponderação política, uma candidatura como a de Guterres tem muito tempo e seria um erro precipitá-la ou ele próprio se pronunciar já a esse respeito. O mais que deve dizer, como já mais ou menos disse, é ser livre de fazer as opções que entender e quando entender: só faltava que um cidadão com as suas responsabilidades se autolimitasse num seu fundamental direito de cidadania!
4. Quem precisa de se “adiantar”, marcar posição antes dos outros, para ver se os condiciona ou afasta, é quem a todo o custo quer ser candidato, embora lhe falte preparação, dimensão, maturidade, e (quase) ninguém, além dele próprio e da sua roda de amigos ou fãs, verdadeiramente o deseje ou apoie.
Creio ser este o caso de Santana Lopes que, pelo menos, ao autocolocar-se na linha de partida recupera a notoriedade mediática de que tanto gosta e tantas páginas das revistas do “social”, a que se assemelham algumas páginas da política e “social-político”, preencheu. Para Santana ser Presidente constituirá porventura um sonho de vida. A minha convicção é não ser esse o caso de Guterres, bem pelo contrário. Em próxima oportunidade contarei uma pequena história que o ilustra.
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