
Diz-se que as tragédias nos unem. Que despertam o melhor de nós. A coragem, a abnegação, o altruísmo. Se algo de bom podemos tirar da calamidade dos incêndios de junho e de outubro é a reação dos portugueses. Como organizaram ações de solidariedade, oferecendo dinheiro, esforço, bens e, mais importante, tempo. Muita gente revelou ter estado à altura das circunstâncias. E é isso que faz um herói.
Esta semana, damos a conhecer nove destes heróis da solidariedade – assim homenageados na VISÃO Solidária, a edição especial que fazemos todos os anos dedicada, precisamente, à solidariedade. A Nadia, que perdeu o filho, de cinco anos, e decidiu ir à luta, fundando a Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande. O Samuel, que se dedica a salvar os animais selvagens apanhados nos fogos. O António e o Vasco, que, arriscando as próprias vidas, andaram de aldeia em aldeia a salvar dezenas de pessoas. São estas e outras histórias inspiradoras que contamos esta semana. Porque têm de ser contadas. O País e o mundo precisam destes exemplos.
Onde estão os donativos?
O grande coração dos portugueses foi notório logo após o grande incêndio de Pedrógão. A sociedade civil queria ajudar quem tinha perdido tudo, e diversas instituições, estatais e não estatais, associaram-se a esse movimento de massas, fornecendo os instrumentos necessários para distribuir os donativos – 17 milhões de euros, no total. Mas nem tudo correu bem. Populares e autarcas da região afetada queixavam-se de que o dinheiro não chegava. Muitos portugueses começaram a desconfiar do sistema. Temia-se o pior, depois dos fogos de outubro. Mas as pessoas, contra muitas expectativas, não baixaram os braços, apenas mudaram a forma de auxílio: em vez de depositar o dinheiro numa qualquer conta solidária, decidiram contornar a burocracia e foram para o terreno sujar as mãos. Uma realidade que tem os seus prós e contras, como explica o José Pedro Mozos na investigação a que chamou O rasto dos donativos. A Sara Rodrigues, por seu lado, fez o levantamento das necessidades dos concelhos mais destruídos pelas chamas. Para que ninguém deixe de ajudar por falta de informação.
As histórias por trás das fotos
As tragédias do verão (ou, a bem dizer, do fim da primavera e do outono…) deram-nos imagens icónicas, captadas por alguns dos melhores fotojornalistas do País, que fizeram a capa de muitos jornais e revistas. Imagens humanas de desespero, de cansaço, de destruição, que ficarão muitos anos na nossa memória coletiva. A VISÃO publica agora algumas dessas fotos, mas vai mais longe: fomos falar com as pessoas que protagonizaram esses momentos e contamos as suas histórias.
E ainda…
O surpreendente João Lourenço, o novo Presidente de Angola, que está a derrubar os poderes instalados, num artigo que a Cesaltina Pinto e a Clara Teixeira chamaram O exonerador implacável. O caso dos jornalistas saneados em 1975, contado pelo Miguel Carvalho. O retrato da Polícia Judiciária Militar, a força que investigou em tempo recorde as mortes nos Comandos, o roubo de armas de Tancos e a rede de corrupção da Força Aérea, desenhado pelo José Plácido Júnior. Uma retrospectiva da obra de Escher, a propósito da exposição inaugurada amanhã, 24, em Lisboa, da autoria da Sílvia Souto Cunha. Uma entrevista à nutricionista Ágata Roquette, autora do livro A Nova Dieta dos 31 Dias, conduzida pela Luísa Oliveira.
Outro modo de ajudar
No tema de capa da VISÃO Se7e, já a pensar nos presentes de Natal, a Florbela Alves desdobrou-se em telefonemas para os vários concelhos devastados pelos incêndios e conseguiu reunir 25 maneiras de ajudar os produtores e artesãos da região. Gosta, por exemplo, de queijo da Serra? Veja aqui o que se passa com os criadores de ovelhas da raça bordaleira Serra da Estrela.
Dizem eles
“Cristo não manifesta interesse sexual por ninguém. O que, deve dizer-se, é pena. A Bíblia teria ainda mais leitores se o Messias, em conversa com os apóstolos, fizesse considerações do género: ‘Em verdade vos digo que a filha daquele fariseu é mesmo boa.'” Ricardo Araújo Pereira
“O único medo que tenho é que me apareça um hipopótamo macho chamado Jorge: não me apetece ficar o resto da vida na Penitenciária. Matar um bicho daqueles deve dar uma pena pesadíssima” António Lobo Antunes
“Podemos estar num momento de mudança face à tolerância social da violência exercida contra as mulheres” Catarina Marcelino
“É do domínio da falta de seriedade afirmar que a despenalização da antecipação voluntária da morte com assistência médica é a legitimação do caminho mais fácil no qual a sociedade dá a morte em vez de ajudar a lutar pela vida.” José Manuel Pureza
“No dia em que escrevo, não é possível saber com clareza como é que o executivo vai descalçar a bota, apertadíssima, das reivindicações dos professores. Arrisco (sem grande risco, passe a contradição), todavia, uma previsão: as cedências vão – no todo ou em parte – ser pagas ao longo dos próximos anos, provavelmente ao longo das próximas legislaturas.” Pedro Norton
“Anestesiados de más notícias, tornamo-nos indiferentes, deixamos de nos comover da mesma forma.” Mafalda Anjos
Entretanto, enquanto espera pela revista em papel, sugiro-lhe que se deixe guiar pelos nossos repórteres envolvidos no projeto Com o coração no Centro de Portugal – uma série de reportagens itinerantes pelas regiões dizimadas pelos incêndios. Para que ninguém se esqueça.
E despeço-me com uma boa notícia: vem aí a chuva. Que venha muita.