Na primeira pessoa: “Sou cego e a fotografia mostrou-me o que os meus olhos não conseguiam ver”

Na primeira pessoa: “Sou cego e a fotografia mostrou-me o que os meus olhos não conseguiam ver”

Nasci com uma atrofia no nervo ótico. O que vejo hoje é o que sempre vi. Tenho 5% de acuidade visual no olho direito, na visão central. De resto, só tenho a perceção de luzes e de sombras, tanto na visão periférica do olho direito como no olho esquerdo. Tenho uma visão de 20 para 400 pés, ou seja, o nível de detalhe que um olho normal vê a mais ou menos 150 metros é o que vejo na minha melhor visão. Os meus pais tinham daqueles manuais sobre bebés em que são definidas algumas metas de desenvolvimento e começaram a notar diferenças. Por isso, com 2 ou 3 meses, já tinha sido diagnosticada a minha cegueira.

Sou de Uberaba, Minas Gerais, uma pequena cidade brasileira com 300 mil habitantes. A educação dada pelos meus pais foi um meio-termo entre o cuidar e o deixar ir. Os primeiros anos não foram fáceis. Houve uma longa fase de adaptação, os médicos testaram tudo e mais alguma coisa para saber qual era a minha acuidade visual e perceber como poderiam melhorar a minha situação. Desde os 6 anos, uso uns óculos que tiram a hipermetropia e o astigmatismo, mas não resolvem a acuidade visual.

Até ao liceu, tinha muitos bons resultados e uma integração normal, com suporte por parte da escola e dos professores, que em algumas cadeiras mais complexas se disponibilizavam a dar aulas extras. Sempre senti uma exigência maior para alcançar alguma meta.

Quando entrei na universidade, em Uberaba, no curso de Sistemas de Informação, aconteceu algo bizarro. Não havia qualquer apoio para alunos cegos; por isso, pediram-me para trazer a minha mãe, nos primeiros 15 dias, e depois veriam o que poderiam fazer. Mas, passado esse tempo, disseram que não podiam disponibilizar qualquer ajuda. Se ela quisesse, podia continuar a acompanhar-me. E assim fez: frequentou os quatro anos da licenciatura!

O curso funcionava em horário pós-laboral; ela terminava o trabalho e ia comigo para as aulas. Estava lá única e exclusivamente para fazer a ponte: lia os exames, passava o que era escrito no quadro para papel (não havia muitos conteúdos digitais). Continua a dizer que não sabe nem ligar um computador.

Do ponto de vista social, funcionou muito bem, a nossa turma era muito pequena e muito unida. Todos tinham muito carinho pela minha mãe. Mas houve uma inibição na minha evolução. Não havia aquela coisa de explorar, de fazer as coisas normais que acontecem na faculdade.

Quando entrei na universidade, aconteceu algo bizarro. Não havia qualquer apoio para alunos cegos; por isso, pediram-me para trazer a minha mãe, nos primeiros 15 dias, e depois veriam o que poderiam fazer. Mas, passado esse tempo, disseram que não podiam disponibilizar qualquer ajuda. Se ela quisesse, podia continuar a acompanhar-me. E assim fez: frequentou os quatro anos da licenciatura!

Isso só aconteceu quando fui para o Porto. Estava já a trabalhar numa instituição de ensino de Uberaba como analista de sistemas. Desenvolvia aquilo que o utilizador vê e com o qual interage nos sites – continuo nesta área, e é muito gratificante construir sistemas que sejam funcionais para todas as pessoas. O facto de ser cego é uma mais-valia, porque consigo ter a ideia da experiência do ponto de vista da acessibilidade e proporcionar uma melhor experiência.

Essa instituição tinha uma parceria com um instituto politécnico do Porto, e havia a possibilidade de fazer um mestrado na cidade. Estava muito reticente, mas enviaram-me o estatuto dos alunos com necessidades educativas especiais e havia uma série de recursos disponíveis, inclusive ter uma terceira pessoa para ajudar nos estudos. Logo na primeira semana, agendaram uma consulta com a psicóloga, para ver aquilo de que precisava. Fiquei maravilhado, nunca tinha tido aquilo na vida.

A minha mãe veio comigo, mas logo percebi que podia mandá-la “turistar”, já que o suporte fornecido pelo instituto era suficiente para ultrapassar todas as dificuldades. A partir daí, consegui ter alguma independência. Andava pela cidade à vontade, apanhava qualquer tipo de transporte público, tinha os meus amigos e correu tudo muito bem. Foi quase como uma emancipação, porque consegui começar a viver a minha própria vida.

“Ouvi alguns nãos”

O regresso ao Brasil causou-me uma grande aflição: percebi que não ia conseguir voltar a ser o que era. Depois de se ver, não é possível deixar de ver. Queria ter uma vida normal, dentro das minhas possibilidades.

Voltei para o Porto em 2018, ainda sem emprego. Foi um ano de adaptação, comecei a fazer tudo sozinho. Senti-me muito feliz, como se pudesse realizar todos os sonhos. Fiz então um curso de fotografia, uma das minhas paixões, que exploro como hobby. Foi um caminho longo, com vários testes, até encontrar uma câmara com um nível aceitável, que me permite controlar o que estou a fazer. Gosto sobretudo de fotografia de paisagem. Basicamente, oriento-me pelos contrastes e pelas formas – seja a geometria de um edifício ou a silhueta de uma montanha – e a partir daí monto a minha composição. Quando amplio num monitor, consigo perceber se funciona. As imagens estão disponíveis num banco público; espero que consigam inspirar alguém. 

A fotografia ajudou-me a conhecer o Porto. Passei a estar mais atento, porque fazer uma imagem requer paciência, até se encontrar a melhor composição ou o melhor jogo de luzes e de sombras. As pessoas não estão atentas à beleza do que as rodeia. Não têm tempo para prestar atenção a coisas básicas, como o céu, as formas abstratas criadas pelas nuvens… às vezes, são essas pequenas coisas que fazem o nosso dia. A fotografia ajudou-me a ver o mundo e mostrou-me o que os meus olhos não conseguiam ver.

Em Portugal, ouvi alguns nãos até conseguir emprego. Se houve discriminação, foi subtil, pessoas que levantavam barreiras e não queriam saber das minhas respostas para as ultrapassar. Na altura, ficava triste; hoje, estou aliviado por não ter ficado num sítio onde não seria feliz.

Trabalho na Zühlke há um ano, como engenheiro de software. Na primeira entrevista, o responsável dos recursos humanos perguntou-me: “O que posso fazer para que este processo de recrutamento corra bem?” Preocupações de inclusão que se mantiveram. Nunca tinha visto este tipo de sensibilidade numa empresa. Estou a conhecer o meu potencial ao nível profissional e a ter oportunidade de evoluir também ao nível pessoal. Até comecei a fazer viagens de trabalho ao estrangeiro sozinho e, apesar de assustadoras no início, estão a ser experiências muito enriquecedoras.

Não imaginava dar esta volta à minha vida. Tenho um espírito muito mais aventureiro, desafio-me a fazer coisas diferentes. Agora, é continuar.  

Depoimento recolhido por Joana Loureiro

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