Patti Smith
Foi, sem dúvida, o momento alto do Primavera Sound 2015. Acompanhada por Lenny Kaye e Jay Dee Daugherty, da formação original do grupo, e por Tony Shanahan, que a ele se juntou há 20 anos, Patti Smith agarrou o público e mostrou-lhe a essência do rock. Interpretou o Horses, do início ao fim (como estava prometido), num concerto entre a força do presente – canções como Gloria, Free Money ou People Have the Power continuam a fazer, hoje, todo o sentido – e a inspiração do passado. Em Break It Up, lembrou o líder de The Doors: “Esta música foi escrita em memória de Jim Morrison”. Em Elegie, evocou Jimi Hendrix, a quem o tema é dedicado, mas também Lou Reed, Sid Vicious, Ramones, entre muitos outros músicos, seus amigos, já falecidos. Uma belíssima homenagem ao rock.
Sun Kil Moon
As canções de Mark Kozelek pedem silêncio, atenção, escuta. São histórias, desabafos, viagens que merecem um bom ouvinte. Num festival como o Primavera, onde as distrações são mais que muitas, a probabilidade de Sun Kil Moon dar um concerto para o boneco era enorme. Felizmente, não foi o que aconteceu. A tenda do palco Pitchfork encheu-se de admiradores do cantautor (a ‘alma’ dos extintos Red House Painters), que não só pararam para ouvir como entoaram as canções de Benji, o seu mais recente disco, de 2014. Memorável.
Einstürzende Neubauten
Einstürzende Neubauten é uma daquelas bandas imperdíveis ao vivo. Somando a isso o facto de terem um magnífico disco novo, Lament (2014), no qual reinventam os ritmos maquinais da Primeira Guerra Mundial – assinalando o centenário do conflito -, dá para ter uma ideia do quão especial foi a sua atuação no Primavera. Um concerto com uma qualidade de som exemplar e uma precisão impressionante no domínio de toda aquela maquinaria, que, aliás, ficou gravado, podendo quem quisesse comprar uma pen com o seu registo, como anunciou, no final, Blixa Bargeld.
Run the Jewels
O momento ‘escolha’ mais difícil desta edição: sexta-feira, 5 de junho, 1h40, havia Jungle, no Palco Super Bock; Run the Jewels, no ATP; e Ariel Pink, no Pitchfork. A ideia era espreitar os três. Começámos por Jungle e por pouco não ficámos na pista de dança. A festa prometia. Mas o som grave e vibrante que vinha do ATP falou mais alto. Fomos sugados pelo hip-hop pesado e envolvente de EI-P e Killer Mike. Momento alto quando Killer Mike disse estar com saudades dos EUA, a sua ‘casa’: “Porque a América eu entendo. Nos outros países fico um bocado confuso”. Uma introdução, repleta de ironia, à música que se seguiu: Lie, cheat, steal, kill, win (come on) / Everybody’s doin’it.
Caribou
Já nos tinham deliciado, no Alive, em 2012, quando subiram ao palco principal mesmo antes de Radiohead, e ajudaram a soltar o corpo e a mente da ansiedade para ver a banda de Thom Yorke. No primeiro dia do Primavera, em que foram cabeça-de-cartaz, a festa foi sua. Caribou é mel para quem gosta de fechar os olhos e deixar-se ir ao sabor de uma elétronica hipnótica, psicadélica, rasgada por momentos épicos. Mau é sabermos que a viagem há-de chegar ao fim.