“A excentricidade desta personagem é a procura da mulher com o rosto perfeito. ” É desta forma que Mário Zambujal nos apresenta o protagonista ‘malandro’ do seu novo romance, Serpentina. O autor de títulos como Crónica dos Bons Malandros e Cafuné apresenta, com a graça de escrita a que já habituou os leitores, mais uma história repleta de encontros e peripécias, onde se mostra mais jovial do que nunca.
Jornal de Letras: Como surgiu a ideia para este romance?
Mário Zambujal: Surge com base na ideia de comunicação. Este romance tem duas histórias paralelas, numa espécie de puzzle, que vão evoluindo e num dado momento encontram-se. A sequência agitada levou-me ao título, Serpentina, porque é uma história que esvoaça em volta de imprevisíveis, e tal como as serpentinas, não se sabe onde irá parar. O objetivo é contar, de uma forma leve, histórias de vida extraordinárias, sem entrar no inverosímil.
Essa ligeireza é fruto da sua experiência jornalística?
Sim, sem dúvida. Quando entrei no jornalismo deparei-me com a necessidade de utilizar as mesmas palavras para construções diferentes. Para a realidade, o jornalismo, e para a ficção. A procura de clareza é outra das minhas necessidades, uma escrita clara proporciona uma boa comunicação mesmo que sobre assuntos complexos. Felizmente temos, neste momento, uma geração de jovens escritores de grande qualidade em Portugal. Às vezes duvida-se que os jovens ainda leem, mas vão aparecendo.
O estilo jovial da sua escrita é reflexo da sua personalidade?
A escrita para ser profundamente coerente e honesta deve refletir algo da personalidade de quem escreve. Quem lê os meus livros sabe, mais ou menos, como sou. Tenho um olhar divertido sobre vida, mas não sem esconder algumas deceções. Contudo, a tendência natural é a de olhar a vida como uma coisa boa. É inevitável, a mão foge-me sempre para aí, e quando digo que foge, digo-o com verdade porque eu ainda escrevo à mão.
A figura da mulher é um tópico essencial na sua literatura. O que representa, no universo masculino, a figura da madrinha Henriqueta?
É uma figura que se vai desenhando ao longo do romance e que representa o apoio maternal que só uma mulher pode e sabe dar. A figura da mulher pode ter uma dupla interpretação associada à sensualidade e à sensibilidade, a mulher que é a mãe dos filhos, que protege. No curto espaço da minha vida, a evolução feminina foi muito grande. Explodiu o número de mulheres com sentido de independência e individualidade, donas do seu corpo e do seu espirito.
É, portanto, uma celebração da liberdade da mulher?
Com certeza, a mulher deve ser celebrada sempre. Nos meus primeiros tempos de jornalista não havia mulheres nas redações, hoje em dia a sua presença é maioritária. E ainda bem, é um grande progresso.