Não há curso ou manual de escrita criativa que não prometa um combate ao bloqueio da folha em branco. Contudo, Graça Capinha tem uma experiência diferente. Desde que contactou com essas formações na Universidade de Nova Iorque, nos EUA, durante o seu doutoramento, já orientou muitas. E não pouco vezes deparou-se com alunos que lhe dizem: “Antes escrevia tanto e agora já não consigo”. O impasse é sempre superado, mas a profª da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra gosta de dar este exemplo para mostrar como o principal objetivo de qualquer curso de poética e escrita criativa, como os designa, é iniciar um período de reflexão. “Quando me dizem que passaram a achar horrível o que escreviam é porque começaram a pensar sobre o texto, a perceber alternativas, a fazer escolhas”. O resto surge naturalmente, assegura, com a descontração e o espírito lúdico. “Tal como ninguém sai um Picasso de uma Faculdade de Belas Artes, nem um Beethoven do Conservatório, nestas aulas só se oferece um conhecimento mais aprofundado da escrita”, acrescenta.
É esta componente que, para Graça Capinha, faz da escrita criativa uma aposta de futuro, inclusive no universo da Educação e do Ensino Superior. A investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) de Coimbra chega até a ser perentória. “O único caminho para os estudos literários vai ser a Escrita Criativa. Ninguém vai entrar para a universidade para estudar Literatura. Por isso, é preciso incorporar novas metodologias, ensinando o mesmo de forma diferente”. Para defender esta visão, que não considera positiva, nem negativa, mas apenas uma constatação, Graça Capinha recorda os muitos estudos que existem nos EUA e em particular os programas junto de camadas sociais desfavorecidas. “Na aprendizagem da língua, os alunos criam um conhecimento interior. Começam pela prática e quando chegam à teoria a adesão é muito mais forte”. Trata-se, no fundo, de outra forma de refletir sobre a língua, desmistificando também a escrita. “Em Portugal, cultiva-se muito a imagem do escritor maldito, inadaptado, mas mais importante é perceber que nesta área, como em qualquer outra, há acima de tudo um fazer que só se aprende pela experiência”.
Desenvolvimento pessoal
“Um tempo para abrir caminhos”. Para Margarida Fonseca Santos, esta é a melhor definição para as diversas potencialidades de Escrita Criativa. Quer em cursos presenciais, quer em livros – e tem currículo nas duas áreas -, é uma oportunidade para as pessoas se situarem face à escrita e à literatura. “A primeira mais valia é a criação de leitores conscientes”, afirma. “Perceber a diferença de qualidade entre diferentes romances, porque se prefere este e não aquele estilo, um ou outro escritor”. Num segundo nível, a autora de Quero ser Escritor, um manual para todas as idades, destaca “a experiência transformada em texto”. Ao terem como ponto de partida as suas vidas, muitos participantes, sobretudo os mais velhos, acabam por estruturar emoções. “As pessoas de mais idade também valorizam muito a ocupação mental e o esforço de estar a racionar à volta de um texto”, adianta Margarida Fonseca Santos, que mantém há muitos anos um grupo que se reúne uma vez por semana para escrever. “É um momento de partilha”, nota. “Para alguns, esse é outro dos aspetos positivos dos cursos. Sozinhos não conseguiram superar os seus medos.”
Diana Almeida (DA), investigadora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é da mesma opinião. Os seus projetos de escrita criativa têm provado que as pessoas conseguem surpreender-se a si próprias. Aos domingos, entre as 16 e as 18, no Museu Berardo, em Lisboa, desafia os visitantes a criarem um pequeno texto a partir das obras expostas e de excertos de poemas. Como na máxima surrealista, que advogava o encontro entre um chapéu-de-chuva e uma máquina de escrever numa sala de operações, tudo pode acontecer. “E as pessoas respondem”, afirma DA. “A escrita criativa tem um poder imenso ao nível da estruturação da personalidade e até na construção de uma cidadania mais ativa”. E acrescenta: “Através da arte é possível um desenvolvimento pessoal e coletivo que conduza a uma sociedade mais justa e dinâmica”. Identificando uma nostalgia dos tempos dos contadores de histórias, DA defende que a “ligação à palavra” pode libertar a expressão criativa, numa sociedade dominada pela “passividade da televisão”. “Os adultos, no início, recusam estas atividades, mas no fim aderem tão intensamente como as crianças, agradecendo a alegria proporcionada”.
Ininterrupto work-in-progress
“Dizer o mundo” é a ideia forte a que Luís Carmelo (LC) recorre para descrever as potencialidades da escrita criativa. Foi na Holanda, na década de 80 do século passado, quando estava a preparar o seu doutoramento, que contactou pela primeira vez com esta metodologia de ensino. Na Universidade de Utreque tinha dois professores norte-americanos, que dinamizavam várias oficinas. A adesão revelou-se imediata, ao ponto de querer replicar esses “espaços de liberdade criativa” em Portugal. “Quando comecei não havia nada do género no nosso país”, garante LC, que tem no currículo três décadas de cursos e formações. Começou na Universidade Autónoma, ainda nos anos 80, passou pelo IADE e a pedido do Instituto Camões organizou cursos on-line acessíveis aos leitorados espalhados pelo mundo.
Características semelhantes tem o seu novo projeto, a EC-ON – Escola Criativa On-Line (http://escritacriativaonline.net). Com uma oferta vastíssima em diversas áreas, conta com a colaboração de inúmeros escritores, como Afonso Cruz, Almeida Faria, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Lídia Jorge, Patrícia Reis ou Teolinda Gersão. “São cursos individuais, baseados no acompanhamento personalizado, permanentemente disponíveis”, explica LC, também ele formador, nomeadamente das oficinas introdutórias e avançadas. “Com sessões semanais, ferramentas literárias, escrita e reescrita de textos, a EC.ON baseia-se num ininterrupto work-in-progress”. Os dois manuais de escrita criativa que publicou, com a chancela da Europa-América, são um resumo do saber acumulado ao correr de anos e a síntese de uma abordagem assente em três áreas. “O importante neste tipo de workshops é disponibilizar alguns conhecimentos técnicos para mostrar a plasticidade da língua, o que passa pela noção da descrição, com as regras da escrita, a narração, com o encadeamento da história, e a poética, com a representação do invisível.”
Como todos os escritores ouvidos pelo JL, LC, autor de A Falha, adaptado ao cinema por João Mário Grilo, reconhece que nenhum curso vem com garantia. Mas continua a preferir salientar o que há de positivo. “Para aqueles que têm um forte desejo literário, a evolução pode ser muito grande”. Como exemplo dá os três primeiros volumes da coleção que a EC-ON acaba de lançar, em parceria com a Arranha-céus, uma chancela da editora Abysmo: O todo pela parte, de Liliana Ribeiro, A colheita dos dias, de Valesca de Assis, e Não nos impõem as memórias, que nos permitem pertencer, de Vanessa Godinho. “São três escritoras que passaram pelos nossos cursos e que ainda não estavam publicadas devido ao estrangulamento do nosso mercado editorial”, avança. “São de uma qualidade indiscutível. E elas, como muitos outros formandos, podem assegurar que encontraram a sua voz, evoluíram a nível técnico e conquistaram novas autoimagens.” Para Luís Carmelo essas são, afinal, as únicas garantias que a escrita criativa pode dar a alguém. “No fim do curso, já não se é a mesma pessoa”. Nem estudante, nem leitor, nem, quem sabe, escritor.