“Se nos estiver ver, Fernando Pessoa deve-se fartar de rir”, brinca a investigadora Manuela Parreira da Silva (MPS). E não é para menos. De génio solitário, tornouse o centro de todas as atenções. Um best-seller. A partir de amanhã, quinta-feira, 28, cerca de 40 especialistas e artistas vão reunirse no III Congresso Internacional Fernando Pessoa (ver caixa), propondo outras tantas leituras da sua obra. E recém-chegados às livrariasestão dez novos livros com propostas de análise e revelação de inéditos.”Ele sabia que estava a escrever para o futuro e que muitos haveriamde se ocupar dos seus enigmas”, diz Inês Pedrosa, diretora da CasaFernando Pessoa, que organiza o congresso. Para quem escreveu, noLivro do Desassossego, pela mão de Bernardo Soares: “A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos”, é caso para dizer que Fernando Pessoa continua em boa companhia. Não só pelas muitas personagens que criou, mas também pela legião de estudiosos e académicos que se dedicam à sua obra.
A obra de Fernando Pessoa está, de facto, sempre a convocar novasabordagens. Os livros que acabam de ser publicados, porventura aproveitando a ‘boleia’ do congresso, provam isso mesmo. De uma assentada, Jerónimo Pizarro (JP) publica três volumes de peso: a sua versão do Livro do Desassossego, agora sem o aparato da edição críticaque publicou em 2010, e Fernando Pessoa: Eu Sou uma Antologia, este com Patricio Ferrari, onde lista 136 autores fictícios, e o 2.º volume da coleção Acervo da Casa Fernando Pessoa, Os Objetos de Fernando Pessoa, este também com Patricio Ferrari e António Cardiello. Manuela Parreira da Silva revela, em Fernando Pessoa: O Regresso dos Deuses, a maior seleção de textos atribuídos a António Mora, um dos neopagãos do universo pessoano. José Gil regressa ao tema da Heteronímia na coletânea de ensaios Cansaço, Tédio, Desassossego, e dedica um ensaio à Ode Marítima, de Álvaro de Campos, já referido em anterior edição do JL, bem como aos livros sobre a Mensagem, de Paulo Borges e Miguel Real. Francisco Vale, editor da Relógio d’Água, lança uma Antologia depoemas do próprio Pessoa e dos heterónimos. Richard Zenith vertepara inglês o poema “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, assinandotambém um posfácio, numa edição ilustrada por Pedro Sousa Pereira.
São livros que nos convidam a percorrer o labirinto pessoano e a descodificar o infinito universo de heterónimos e demais figuras literáriasque o poeta criou. Até porque a dúvida persiste e ninguém a colocou tão bem como Fernando Pessoa: “Eu sou uma antologia./ Escrevo tão diversamente/ Que, pouca ou muita a valia/ Dos poemas, ninguém diria/ Que o poeta é um somente”.
Uma armadilha literária
Um é médico, o outro engenheiro, ambos admiradores do guardador de rebanhos e criados por um empregado de escritório. Mas na galáxia de Fernando Pessoa não há só os três heterónimos, bem definidos e biografados. Ao lado das estrelas que brilham na mente do que sedefiniu “plural como o universo” há lugar para muito mais. Poetas, prosadores, ensaístas, filósofos, professores, doutores, diretores dejornais e artísticos, autores e decifradores de charadas, tradutores, humoristas, detetives, astrólogos, já para não falar de irmãos, primos,familiares afastados, sósias e pseudónimos de pseudónimos. Da arcapessoana não param de sair nomes, personagens, figuras, máscaras de uma personalidade com especial apetência para o desdobramento.
“Perdidos” é talvez a descrição exata do que podemos sentir perante esta constelação de nomes que o livro de Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari propõe. É certo que estudos anteriores já revelavam muitas personalidades literárias, mas nunca decerto com tanto rigor e profundidade. Àquela sensação de estar “perdidos” podemos juntar a de “surpresa”.
Ao percorrer as páginas de Fernando Pessoa: Eu Sou uma Antologia o “drama em gente” assume a sua verdadeira dimensão. “Fernando Pessoa foi uma pluralidade singular e esteve acompanhado, como todo o bom dramaturgo, por várias personagens ao longo da vida”, afirma JP. Neste livro, revelam-se que personagens são essas, o que escreveram e até a assinatura que Pessoa inventou para elas. Descobrimos e lemos o queescreveu o irmão de Ricardo Reis, Frederico de seu nome, os primosde Alberto Caeiro, António e Júlio, outras famílias completas, comoa Crosse, ou ainda Karl P. Effield, a primeira figura literária estrangeira,ou Charles Robert Anon, a personagem mais ativa no período em que Pessoa viveu em Durban, ou Horace James Faber, associado ao mais antigo texto de ficção detetivesca de Pessoa.
Descobrimos também como surgiram todos estes autores fictícios. É famosa a carta a Adolfo Casais Monteiro, de 1935, em que se explica a génese de tantas máscaras. “Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, oua quem suponho que sou”, escreve Pessoa. “Dizia-o, imediatamente,espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nomeinventava, cuja história acrescentava, cuja figura – cara, estatura,traje, gestos – imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, epropaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas queainda hoje, a perto de 30 anos de distância, oiço, sinto, vejo”.
Como em tantos outros escritos, Pessoa foi o melhor crítico de si mesmo. E o mais curioso desta confissão, que data do ano da sua morte, é o sublinhado final: “Repito: oiço, sinto, vejo… E tenho saudades deles.” Desde a infância, quando inventou vários amigos imaginários, nomeadamente Chevalier de Pas, às últimas criações, o jogo literário estende-se ao correr dos anos. Lado teatral e lúdico que leva Pizarro a sugerir uma nova abordagem à obra do poeta: “Talvez seja o momento de ensaiarmos uma escrita menos séria, ou melhor, com um tipo deseriedade menos solene, em relação a Fernando Pessoa”. E explicaporquê. “Acredito que ele preparou uma grande armadilha para a posteridade e que todos nós caímos nela”. A solução é assumir umapostura “borgeana” e perceber “quão labiríntico é o universo”.
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