Em O Que faz Falta, em cena no Teatro Villaret, um musical que cruza o clássico espanhol do princípio do século XVII, Fuenteovejuna, de Lope de Vega, com as também clássicas músicas brasileiras do século XX, de Chico Buarque, o que faz mesmo falta são as canções do Zeca Afonso – como chegou a estar anunciado. Em especial aquela que o compositor português escreveu a pensar nesta história de um comendador déspota e violador, que cobiçava as mulheres dos próximos, e vilipendiava-lhes a honra. Foi uma espécie de Dom Juan, sem a parte da sedução acumulativa, apenas a da brutalidade, também acumulativa. A tal música do Zeca chama-se justamente No vale de Fuenteovejuna, foi composta em 1969 e dizia assim: “No vale de Fuenteovejuna /cabelos aos vento estava/seguida pelo cavaleiro/o da cruz de Calatrava/entre a ramada se esconde/ de vergonhosa e turbada// -Para que te escondes/ moça formosa/ desejos ???/ paredes removem// Acercou-se o cavaleiro/ e ela confusa e turbada/gelosias quis fazer/ das ramas emaranhadas// mas como tem amores/ as montanhas e os mares/atravessa facilmente/ disse-lhe estas palavras// -Para que te escondes/ moça formosa/ desejos ???/ paredes removem(…).
Encenada pelo argentino Cláudio Hochman, sobre uma ideia de Carlos Fragateiro, interpretada e cantada por um elenco e uma banda cheios de energia e frescura, haveria que arranjar-lhe outro nome que não apenas “musical”. Porque num musical, o texto e a música fundem-se. E ora ficam as palavras subalternas do música ora a música se torna a fundir nos diálogos que fluem a sequência. Em O que Faz Falta, as duas componentes, musical e dramática, são nos dadas em plano de igualdade, numa lógica de alternância. Aliás, o palco está dividido em dois andares. No rés-do-chão correm as desventuras destes habitantes de Vila de Água atormentados por este monstro aniquilador de mulheres e de honras. No primeiro andar está a Banda, com as músicas do Chico. E o espectador, mesmo sem controlo remoto faz uma espécie de zapping mental entre os amores e desamores e tormentos e prepotências do século XVII e outros amores e desamores e tormentos e prepotências do século XX. E nestes trezentos anos de intervalo há qualquer coisa que transita e não fica igual. E a conclusão é sempre a mesma: o mundo não mudou tanto quanto isso.
Chamemos-lhe antes uma peça com trechos musicais intercalados. Ou antes um concertos com trechos de uma peça de permeio. Sem que nenhuma das partes que compõem o espectáculo se sobreponha ou ganhe preponderância em relação à outra.
Lá em cima a banda “está à toa da vida”. Cá em baixo, o romance de Lourença e Frondoso dá os primeiros passos. E há uma extraordinária parte do diálogo que é todo ele um tratado de eufemismos. Diz Frondoso: “Bacharel é licenciado; o cego é vesgo; pé frouxo se chama agora a um coxo; Bom homem ao descuidado; ao ignorante sisudo; aos marotos soldadesca; Uma boca grande é fresca; Vista curta olhar agudo. O brigão é diligente; gracioso o intrometido; o falador entendido; o insofrido valente; o atrevido insinuante, e recatado o manhoso. Refilão é descontente; barba dá autoridade, a calva dá gravidade e o maluco é um doente, o ético está constipado; Chamam sério ao arrogante; ao retrógado constante, e ao corcunda carregado…” Retorque Lourença: “O homem sério é enfadonho; Diz verdades? Não se atura! Odioso o que censura; e o que castiga medonho. Chama calisto ao sensato. Ao que aconselha infiel. Ao justiceiro cruel; ao piedoso beato. Chamam tolo ao dedicado, ao mérito chamam sorte, cobardia à paciência, e brutamontes ao forte. E brutamontes ao forte. Pateta à mulher honesta; malfeita à formosa e casta, e à mulher honrada…Basta, e fica-te lá com esta”.
No andar de cima sucedem-se outras personagens que fazem um arrojado link com as conversas arcaicas dos inquilinos cá de baixo, que se tratam na segunda pessoa do plural. A morena dos olhos de água podia ser Lourença. O “vai trabalhar vagabundo”, podia ser ordenado aos “vassalos desleais” e “você que inventou esse estado esqueceu-se de inventar… o perdão” aos deuses de todos os tempos.
Há uma música dos Deolinda que diz “No Brasil casa de fado não seria mole assim”. Se esta peça fosse apresentada no Brasil já a assistência se ia levantando das cadeiras e cantando as músicas imortais de Chico.
Também há “o jeito manso que é só seu”, e uma feijoada: “salta a cerveja estupidamente gelada para o batalhão”. E as lágrimas do “pedaço de mim”, e um “pote até aqui de mágoa” afinal, “faça não, pode ser a gota de água”.
Há soluções cénicas interessantes como a utilização de um holofote durante um diálogo, transformado com estes foto-efeitos mais num interrogatório policial, e cenas que se passam nem fora nem dentro de cena: num estádio intermédio de sombra chinesa – o que só realça o carácter fragmentado do espectáculo. Como se o olhar do espectador pudesse-se clicar nas várias cenas, focar-se na parte musical ou regressar com o rato ao enredo.
Lope Da Vega pode ser um autor clássico, genial defendem muitos, admirado por Cervantes, que tinha uma prodigiosa capacidade produtiva. Mas Chico Buarque é Chico Buarque. E aquelas músicas, mesmo vindas do outro lado do Atlântico já aqui deram à costa tantas e boas vezes, que contêm também algum do nosso sal, apesar do Tanto Mar, Tanto Mar…