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“Sou uma pessoa obsessiva”, afirma Pedro Diniz Reis, sem qualquer tipo de problema. Mais: transforma essa característica num dos motores do seu processo criativo, procurando “esgotar todas as possibilidades” de uma determinada ideia. E se essa “matriz” nem sempre se reflete nas próprias obras, na exposição De A a Z (patente na Culturgest, em Lisboa, até 18 de setembro) o seu ‘desejo’ de totalidade é, no mínimo, gritante. Na primeira sala, o vídeo Dictionary (2004-2010) reconstitui todas as palavras de um dicionário inglês, através de um complexo processo de composição visual e sonora – enunciadas por uma voz humana, as letras surgem e distribuem-se pelas palavras por ordem alfabética; quando todas as letras estão inventariadas e todas as palavras completas, o ecrã volta a negro e segue-se um novo conjunto, numa sequência que se prolonga por 51 horas. Já na segunda, encontramos a instalação AA-ZZ (2011), composta por 26 livros (um para cada letra do alfabeto português) que seguem o sistema da peça fundadora O Livro dos AA – a partir de uma listagem das 96715 palavras de um dicionário português, foram apagadas todas as letras exceto o ‘a’. Por último, é apresentada uma peça sonora para oito colunas, Eunice (2011), na qual uma voz feminina (da atriz Eunice Muñoz) lê todo o O Livro dos AA, ao longo de 14 horas.
Mas longe de ser um mero exercício maníaco, o presente conjunto de obras insere-se numa das vertentes do percurso artístico de Pedro Diniz Reis: o trabalho sobre a linguagem verbal. Interessa-lhe, sobretudo, a sua “abstração” e, nesse sentido, considera ter atingido com Dictionary um “ponto de maior maturidade”. “Passei algum tempo a tentar perceber qual o referente ideal para que o espetador se abstraísse dele e se focasse apenas no som e nas constelações visuais. Fiz uma experiência com uma lista de nomes, mas percebi que as pessoas iam estar à procura de um significado, por exemplo, que aparecesse o seu nome. E não era isso que me interessava”, esclarece o artista. Assim, ao abordar a linguagem, Pedro Diniz Reis esvazia-lhe o sentido, transformando os signos linguísticos quer em padrões (num registo de poesia visual, de que Dictionary é exemplo), quer em notas musicais (como sucede em Eunice).
E apesar de, em menos de um ano, apresentar três exposições dedicadas à questão da linguagem – Um dicionário, quatro alfabetos e um sistema decimal (na Culturgest do Porto, em novembro de 2010), De A a Z, e a coletiva Antena 5: Staging the Archive (patente no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, até 31 de dezembro) -, não se pode dizer que esta seja representativa da sua obra. Nem esta, nem outra qualquer. Pedro Diniz Reis é o primeiro a designá-la de “esquizofrénica”, e justifica-se: “Há quem descubra uma determinada linguagem e, com micro-alterações, trabalhe sobre ela a vida inteira. Eu ando a pular em diferentes situações”. Mais do que pela coerência, rege-se pela “intuição”, procurando retirar o máximo das suas ideias e ir crescendo com elas, o que não significa que não procure os seus pontos de contacto. “Costumo fazer um organigrama em que exploro as ligações dos meus trabalhos, até para analisar aqueles que faz sentido existirem, quais explorei pouco, etc.”, revela, para logo se autodefender, entre risos: “Mas não vivo obcecado com um mapa de constelações”.
Licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, cidade onde nasceu e vive atualmente, Pedro Diniz Reis, 38 anos, tem desenvolvido o seu trabalho artístico, sobretudo, na área da vídeo-instalação, mas também da performance e da fotografia. E se não é possível encontrar uma unidade temática na sua obra, já no que toca à técnica, há pelo menos uma característica comum a todos os seus vídeos: o equilíbrio entre as componentes visual e sonora. Mais recentemente, o recurso ao som autonomizou-se em trabalhos como Eunice ou 6489 AA para piano preparado (2011) – uma performance musical criada em colaboração com a pianista e compositora Joana Sá, que se serve de algumas páginas de O Livro dos AA como partituras. Aqui, para Pedro Diniz Reis, é inevitável não só a influência conceptual do compositor John Cage, como também, a nível criativo, os quatro anos de guitarra clássica e a banda de punk-rock que teve durante o liceu, os Tropa Morta.
Trabalhador compulsivo
Diz que o seu processo criativo funciona “por altos e baixos” e, embora sinta que ainda não esgotou todo o potencial de O Livro dos AA, confessa estar, por agora, “seco” face ao corpo de trabalhos que acaba de mostrar. Mas nem isso, nem o sol de agosto amolecem a sua vontade de criar. Pedro Diniz Reis troca-lhes as voltas: levanta-se todos os dias às sete da manhã e fica a trabalhar até à hora do almoço; nas horas de maior calor, aproveita para descansar; e, ao fim da tarde, retoma a labuta até altas horas da noite. Isto porque está já ‘mergulhado’ em novas ideias. No final deste ano, irá apresentar, no espaço Appleton Square, em Alvalade, uma série de quatro performances, que seguem a lógica da originária Uma história contada por um baterista (2008) – o instrumento é ‘conectado’ a um computador de maneira a que, de cada vez que o baterista toca, um vídeo é acionado. Os próximos vídeos serão ‘contados’ por uma guitarra, um baixo e uma voz soprano.
E, talvez já no ano que vem, vamos poder assistir à estreia de Pedro Diniz Reis no cinema. É que o artista está também a trabalhar, com um amigo, num filme realizado no Japão. Do que gosta mesmo é de se sentir “mentalmente ativo” e, para isso, desdobra-se entre os seus projetos artísticos, trabalhos com amigos e a profissão de editor de vídeo. Já para não falar dos muitos “esquissos” que tem, não na gaveta, mas nas pastas do seu Macintosh: “Há quem faça esboços em folhas de papel, agora, quem trabalha muito com computadores, adapta esse rabiscar às tecnologias. Por exemplo, estou a ver um vídeo de Smashing Pumpkins que me marca por algum motivo, então, retiro determinadas partes e começo a experimentar”, conta. E o que faz nos tempos livres? Pedro Diniz Reis ainda começa: “Gosto de ir ao cinema, a concertos, de ler…”, mas logo interrompe, sorrindo timidamente: “Do que gosto mesmo é de trabalhar”.