Por Maior diversidade étnica e social, maior mobilidade, mais espaços verdes e equipamentos sociais, mais comércio, uma ação social mais eficaz, capacidade de inclusão, abertura ao exterior. São realidades apontadas como desejáveis para melhorar a qualidade de vida nos bairros portugueses, e sobretudo nas maiores cidades, como Lisboa e Porto. Um estudo de 2012, publicado pelo Centro de Estudos de Arquitetura, Cidade e Território (CEACT), da Universidade Autónoma de Lisboa, revelava que a maioria dos lisboetas estava satisfeita com a vida nos bairros onde morava, mas salientava que, em muitos deles, faltava criar o tal sentimento de “pertença”, ou seja, o de alguém se sentir de um lugar e ter uma memória construída sobre essa vivência.
“A ideia de bairro é indissociável da ideia de identidade”, afirma Helena Roseta, arquiteta e hoje presidente da Assembleia Municipal de Lisboa. Enquanto vereadora da Habitação e Ação Social da autarquia, criou em 2011 o programa BIP/ZIP para promover parcerias locais em mais de 60 bairros ou zonas consideradas de intervenção prioritária. “O regresso aos bairros é uma reação à globalização, uma procura da tal identidade que se faz quase sempre pela proximidade”, continua, sublinhando uma espécie de movimento atual, inverso ao que aconteceu nas décadas de 80 e 90, quando, com a promoção da habitação nas periferias e a especulação imobiliária, boa parte da população esvaziou o centro das cidades. “Houve uma esquizofrenia do mercado imobiliário. Mas as pessoas parecem estar a voltar, não tanto por haver uma baixa de preços, mas porque deitam contas à vida. Os custos de estar longe de certos equipamentos não são compensados com uma casa maior e mais barata. Há uma mudança de atitude das populações mais jovens.”
Manuel Graça Dias, também arquiteto, chama a atenção para o afastamento ao longo de décadas desta ideia de “vida de bairro”, meio mitificada e adulterada, consoante o discurso que se apropria dela. “Aos bairros portugueses falta gente, população de variadas idades, sexos, etnias e condições sociais.” Onde está essa gente? “Fugiu para as periferias, ficando dependente de meios mecânicos para os seus movimentos diários, gastando horas no vaivém casa-trabalho; dependente dos grandes supermercados para o abastecimento da casa, gastando fins de semana nessa tarefa desgastante”.
“Os bairros são orgânicos, se não forem cuidados, se não conseguirem atrair novas populações, novo comércio, se não promoveram o diálogo entre gerações, degradam-se e morrem. Em Lisboa temos casos concretos. A Baixa esteve quase sem população, e houve centros com índices de desertificação maiores do que muitas aldeias do interior do Alentejo; Alvalade está muito envelhecido e tem de atrair gente nova. Com a criação, ali, da Associação de Comerciantes, está a sentir-se já uma mudança. O associativismo é, de facto, muito importante e quando ele começa a funcionar notam-se melhorias”, continua Helena Roseta. Mas a mudança demora pelo menos uma geração, porque é preciso tempo para criar vida, memória. “Como aconteceu com a Expo e com alguns bairros sociais que foram sendo habitados por outros estratos sociais até terem a diversidade de um verdadeiro bairro”.
A antítese do gueto
Mais do que fronteiras administrativas, os bairros nascem e vivem numa geografia muito própria, determinada por traços sociais, habitacionais, culturais, e é com base nisso que devem ser pensados, defende o urbanista João Seixas. Até onde vai um bairro? “Pode parecer complexa essa delimitação, mas é ainda mais difícil para uma cidade. Diz-se que Lisboa vai até onde acaba o município, mas é uma das noções mais erradas que existem. Quando estamos em Algés, obviamente que estamos também em Lisboa, é uma continuidade urbana.”
E se há uma delimitação territorial, ditada mais pelos laços culturais e sociais que fazem uma identidade, há também uma abertura ao exterior. “O bairro define-se por isso, e só é bairro quando isso acontece”, continua João Seixas, concordando com o que diz Catarina Portas, empresária, que levou para vários bairros de Lisboa e Porto uma loja feita de produtos e marcas que carregam uma memória e recuperam artes e ofícios ligados a uma vida de proximidade, a uma identidade. “O bairro é a diversidade”, afirma. “O bairro é a antítese do gueto”, reforça Helena Roseta, referindo-se às dimensões social, cultural e económica que a afirmação implica.
“Não tem a ver com dimensão mas com uma cultura”, nota João Seixas, lembrando o estigma associado aos bairros suburbanos. “Há uma vida de bairro aí. Há quem goste, há quem não goste. Quando se fala em bairros de Lisboa, o nosso coração vai direitinho para Alfama, para a Baixa ou para o Chiado, mas Lisboa tem centenas de mais bairros, a começar pelos bairros do próprio concelho, até ir para Cascais, Oeiras, Sintra e Almada. Tudo isso é Lisboa.”
O planeamento é importante, lembra João Seixas, mas é apenas uma parte, a mais burocrática, de uma vida que, “felizmente para a vitalidade dos bairros” ainda depende muito de fatores mais “humanos”, como o da vizinhança.