Os contornos e propósitos da aliança entre Xi Jinping e Vladimir Putin, que os dois líderes já descreveram como uma “amizade sem limites”, é um dos assuntos que tem criado mais especulação a nível internacional. Por uma razão objetiva: a de olhar para as relações entre a China e a Rússia numa perspetiva ocidental, ignorando, tantas vezes, as particularidades, a História e as relações entre os dois países, que sempre funcionaram e viveram em lógicas próprias e diferentes. Essa é, naturalmente, uma realidade que vai muito para lá dos regimes políticos em vigor circunstancialmente em cada um dos gigantes, e ainda muito para lá dos seus líderes – mesmo quando estes são, como no caso atual, duas individualidades com personalidades poderosas, que souberam perpetuar-se nos seus cargos e, dessa maneira, tornar-se dois dos atores mais importantes no atual estado do mundo.

(Edição Temas e Debates)
O livro Vizinhos Distantes, da autoria de dois investigadores alemães, Sören Urbansky e Martin Wagner, permite-nos olhar para as relações entre Pequim e Moscovo com o devido enquadramento histórico, necessário à observação até das contradições existentes entre as duas nações que partilham uma das mais longas fronteiras do planeta. Este é um livro que nos permite compreender o passado, mas também perceber o presente e, dessa forma, antecipar o futuro – no qual, tendo em conta o peso global da China e da Rússia, todos seremos de alguma maneira convocados. É isso mesmo que se revela nesta entrevista com os dois investigadores, em que, a olhar para o passado, acabamos por ganhar muitas pistas para o futuro, mas também para a realidade presente, como a atual guerra no Médio Oriente.
Qual é o maior equívoco que o público ocidental tem em relação à “amizade” entre Putin e Xi Jinping?
Sören Urbansky: Os historiadores tendem a ficar cautelosos quando líderes políticos se descrevem repetidamente como “bons amigos” ou “velhos amigos”. No caso de Vladimir Putin e Xi Jinping, essa linguagem é mais bem entendida como um sinal diplomático do que como evidência de confiança pessoal. Os sistemas autocráticos não promovem amizades num sentido privado ou emocional. Eles produzem relações baseadas em interesses e suspeitas. O que une Moscovo e Pequim não é afeto, mas objetivos estratégicos convergentes e, acima de tudo, a resistência ao domínio ocidental. Mas claro que esses alinhamentos podem mudar quando as circunstâncias se alterarem.
A rutura sino-soviética não teve origem em diferenças ideológicas. Estaline e Mao, assim como os seus sucessores, não discutiram sobre a interpretação de Marx ou Lenine, mas sobre conflitos de interesse tangíveis − em geopolítica, economia, defesa
Historicamente, estes dois países passaram mais tempo em conflito ou em cooperação?
Martin Wagner: A História comum da China e da Rússia, ao longo de quatro séculos, mostra que as relações têm estado em constante mudança − ao contrário da narrativa de Vladimir Putin e Xi Jinping de harmonia eterna. Os períodos de cooperação e conflito muitas vezes mudavam rapidamente, às vezes em apenas algumas décadas, como sucedeu em meados do século XX. Houve, no entanto, uma fase relativamente longa de estabilidade, do início do século XVIII até meados do século XIX, mas foi uma estabilidade marcada pelo desligamento político e pelo comércio severamente limitado. No geral, ao longo de mais de 400 anos, as relações entre a China e a Rússia foram caracterizadas em grande parte por conflitos, interrompidos por breves episódios de cooperação.
O conceito de “vizinhos distantes” implica uma barreira psicológica ou apenas geográfica?
Sören Urbansky: Ambas. A China e a Rússia partilham uma fronteira de cerca de 4000 quilómetros. Mas esta fronteira, que já foi a mais longa fronteira terrestre do mundo, tem sido historicamente uma periferia imperial, em vez de uma zona de integração. As zonas fronteiriças continuam a ser escassamente povoadas e mal conectadas. Até 2022, não havia pontes sobre o rio Amur. Hoje, existem apenas duas. Os centros políticos, económicos e culturais estão distantes, em Moscovo e Pequim. A geografia reforça, assim, uma distância psicológica.
Existe um “modelo autoritário” comum que une Pequim e Moscovo contra a democracia liberal?
Martin Wagner: A relação no século XXI é forte por natureza, porque a China e a Rússia são muito semelhantes entre si. Isso, naturalmente, reduz os equívocos e as linhas de conflito. Na política externa, ambos se esforçam para minar a ordem mundial liberal, embora com utopias diferentes para um mundo futuro. Na política interna, ambos são ordens autoritárias que se tornam cada vez mais repressivas. Mesmo no topo, Putin e Xi personalizaram o poder, reprimiram vozes alternativas e removeram os limites de mandato do seu governo. Paradoxalmente, e justamente porque não têm uma ideologia comum como os gigantes comunistas do século XX, a sua relação é capaz de abraçar o pragmatismo e o oportunismo.
A Rússia é frequentemente descrita como o “parceiro júnior” na relação. Como é que Moscovo percebe esta narrativa?
Martin Wagner: Com desprezo. Nas suas aparições públicas, tanto Xi como Putin enfatizam a igualdade simbólica da sua liderança e dos seus Estados. Para Xi, esta é uma forma gratuita de elevar o estatuto de Putin como “parceiro igual”. Internacionalmente, ambos os países beneficiam da imagem de uma aliança autoritária. Internamente, a Rússia aumentou o seu envolvimento com a China − através de intercâmbios de estudantes, formação linguística e iniciativas culturais −, aceitando assim, na prática, o seu papel de parceiro júnior.
Existe um sentimento latente de “humilhação” na China em relação aos territórios perdidos para o Império Russo? Podemos testemunhar, no futuro, algum tipo de vingança por parte de Pequim a esse respeito?
Sören Urbansky: No discurso oficial chinês, o período entre meados do século XIX e meados do século XX é enquadrado como um “século de humilhação”, marcado pela invasão imperial das potências europeias, incluindo a Rússia, bem como do Japão. A fundação da República Popular da China em 1949 é apresentada como a superação dessa humilhação, com uma renovação nacional completa projetada para 2049. A nível bilateral, Pequim não faz reivindicações territoriais contra a Rússia, ao contrário da sua postura em relação ao Japão, a Taiwan ou no ao mar da China Meridional. No entanto, internamente, os museus e livros didáticos chineses lamentam os “territórios perdidos” no Extremo Oriente russo atual − uma área muito maior do que Taiwan. Embora atualmente seja em grande parte simbólico, esse sentimento reflete um potencial revanchista latente que pode ressurgir caso as relações entre Moscovo e Pequim esfriem.
A divisão sino-soviética da década de 1960 foi um choque de ideologias ou um choque de personalidades (Mao vs Khrushchev)?
Martin Wagner: A rutura sino-soviética não teve origem em diferenças ideológicas. Estaline e Mao, assim como os seus sucessores, não discutiram sobre a interpretação de Marx ou Lenine, mas sobre conflitos de interesse tangíveis − em geopolítica, economia, defesa. Esses conflitos foram causados por questões de soberania nacional, hierarquia bilateral e, não menos importante, as suas animosidades pessoais. Na década de 1960, eles comunicaram esses conflitos como uma luta ideológica − porque era a única linguagem que ainda compartilhavam. No entanto, havia mais em jogo: o conflito sobre a ordem política, ou seja, o regime totalitário versus o autoritário. Enquanto a União Soviética após Estaline restringiu o regime de terror, Mao expandiu-o na China.
Moscovo e Pequim têm visões diferentes para o futuro do mundo. Pequim quer um mundo com duas superpotências: China e EUA. Moscovo quer um mundo “multipolar” no qual a Rússia seja mais do que apenas uma potência regional
Podemos dizer que a China aprendeu com os “erros” do colapso soviético para garantir a sua própria longevidade?
Sören Urbansky: Os líderes chineses ainda estão a aprender com o que consideram o fracasso soviético. Do ponto de vista do Partido Comunista Chinês (PCC), as reformas associadas a Mikhail Gorbachev (glasnost e perestroika) enfraqueceram fatalmente o regime de partido único. O colapso da União Soviética continua a ser um trauma formativo para a elite política da China. Pequim escolheu um caminho diferente: liberalização económica seletiva combinada com um controlo político rigoroso. Esta memória ajuda a explicar o profundo medo do PCC à dissidência e a sua determinação em evitar uma rutura sistémica a quase qualquer custo.
Dado o ataque direto dos EUA e de Israel ao Irão − um fornecedor de energia vital para a China e um aliado tático para a Rússia −, de que forma esta crise irá testar a tal “parceria sem limites”? Estaria a Rússia disposta a seguir a liderança cautelosa da China, ou forçaria Pequim a abandonar a sua ambiguidade estratégica para proteger os seus interesses no golfo?
Sören Urbansky: Ainda é demasiado cedo para avaliações de grande alcance. O que é claro, porém, é que a China e a Rússia interpretam as ações dos EUA no Irão prioritariamente através da lente dos seus próprios interesses nacionais, e apenas secundariamente em termos da sua aliança, uma vez que os seus interesses no Médio Oriente permanecem demasiado divergentes. É improvável que Moscovo ou Pequim subordinem as suas prioridades de política externa às do outro, mesmo numa região de importância secundária para ambos. Pelo contrário, a força da sua aliança reside precisamente na capacidade de perseguirem objetivos partilhados através de caminhos diferentes, mas complementares.
Acreditam que este conflito empurrará a Rússia e a China para uma integração militar e logística ainda mais profunda na Ásia Central, ou existe o risco de Moscovo poder ver a crescente influência da China no Irão como uma intrusão naquilo que a Rússia considera historicamente a sua esfera de influência meridional?
Martin Wagner: Ainda não sabemos como terminará a intervenção dos EUA. Mesmo que ocorra uma mudança de regime em Teerão, fazendo com que Pequim e Moscovo percam um parceiro importante, a China e a Rússia poderiam, paradoxalmente, sair beneficiadas, com a erosão do direito internacional, das divisões no seio da NATO e, no caso da Rússia, da subida dos preços do petróleo. Ao mesmo tempo, as rivalidades sino-russas na Ásia Central, no Médio Oriente e em África persistem independentemente das ações dos EUA. Precisamos de ter uma coisa em mente: as intervenções dos EUA podem também desestabilizar o Irão e a Venezuela de uma forma que, em última análise, fortalece os opositores da ordem liberal − criando uma maior margem de manobra para Moscovo e Pequim.
Em que medida a invasão da Ucrânia testou a parceria “sem limites” anunciada em 2022? A China está a beneficiar do isolamento da Rússia em relação ao Ocidente?
Sören Urbansky: A expressão “parceria sem limites” sempre foi, em grande parte, retórica. Nunca houve uma aliança verdadeiramente profunda. Um ponto frequentemente esquecido é que Vladimir Putin pode ter esperado que uma vitória rápida na Ucrânia reequilibrasse a crescente dependência da Rússia em relação à China. Em vez de uma guerra curta, estamos agora já no quarto ano da invasão em grande escala pela Rússia. A Rússia está mais isolada e economicamente dependente de Pequim do que nunca. A China beneficia, por exemplo, através de importações de energia com desconto, exportações dos seus produtos para a Rússia e maior influência sobre Moscovo, mas também enfrenta riscos estratégicos e de reputação.
Na vossa opinião, qual é o “ponto de rutura” mais provável para esta relação nos próximos dez anos?
Martin Wagner: A relação entre os dois países tem muitas falhas, mas, ironicamente, o objetivo comum pode produzir o maior conflito de todos: o sucesso a minar a ordem mundial liberal. Moscovo e Pequim têm visões diferentes para o futuro do mundo. Pequim quer um mundo com duas superpotências: China e Estados Unidos da América. Moscovo, por outro lado, quer um mundo “multipolar” no qual a Rússia seja mais do que apenas uma potência regional. Na geopolítica, os seus interesses também colidem em várias regiões: Ásia Central, África e Ártico. Quanto mais fortes a China e a Rússia se tornam, mais acabam a competir entre si.
Como é que a sucessão de Putin ou Xi Jinping poderá alterar este equilíbrio?
Martin Wagner: Ninguém sabe o que virá depois de Putin ou Xi. Mas há dois cenários: a continuação do governo personalizado, se alguém assumir o seu lugar como único governante, ou uma liderança coletiva, se os seus sucessores unirem forças. Isso leva a uma segunda questão: o governo totalitário baseado na violência continuará ou evoluirá para uma ordem autoritária menos repressiva? Essas diferentes opções trazem um potencial significativo para conflitos. A relação sino-russa sempre foi estável quando os seus sistemas políticos internos eram congruentes. Se escolherem caminhos diferentes, terão de superar essas diferenças.
Será possível hoje uma “triangulação” ao estilo de Kissinger – em que o Ocidente consegue afastar um do outro?
Sören Urbansky: As comparações com a triangulação da Guerra Fria são historicamente enganosas. Quando Henry Kissinger visitou Mao Tse Tung, no início da década de 1970, a China e a União Soviética já eram inimigas ferrenhas, com confrontos fronteiriços em 1969 que quase escalaram para um confronto nuclear. Os Estados Unidos da América não criaram essa divisão. Washington explorou uma divisão já existente. A situação atual é fundamentalmente diferente: Pequim e Moscovo não são aliados, mas também não são adversários. Este não é um jogo de soma zero, e as esperanças ocidentais de “afastar um do outro” correm o risco de simplificar excessivamente uma relação muito mais fluida.
Qual é a lição mais importante que os líderes ocidentais devem tirar do vosso livro?
Sören Urbansky: A lição central é que a História não é predeterminada. Não há garantias de que as relações entre a China e a Rússia perdurem na sua forma atual. Embora os líderes atuais apresentem a sua parceria como estável e inevitável, os historiadores podem apontar falhas subjacentes. Os decisores políticos ocidentais devem, portanto, resistir ao fatalismo. Sobrestimar a solidez das relações sino-russas pode ser tão perigoso quanto subestimá-las. A paciência estratégica e a atenção às assimetrias são mais importantes do que as grandes narrativas.
No fim de contas, eles são mais “vizinhos” ou mais “distantes”?
Martin Wagner: Eles não podem evitar-se mutuamente e, por isso, estão condenados a uma vizinhança distante. Esta condição cria uma parceria frágil que, no entanto, pode evoluir em diferentes direções. Devemos, portanto, pensar em cenários: as relações sino-russas continuarão a combinar cooperação e conflito? Irão deteriorar-se e degenerar em confronto? Ou irão aprofundar-se numa aliança autoritária muito mais forte? Por outras palavras, a Europa está preparada para um choque estratégico − se a Rússia invadir a Lituânia e a China atacar Taiwan no mesmo dia?