“As artes marciais ensinam os japoneses a ser como o bambu, que se dobra, mas não se parte quando está carregado de neve”

“As artes marciais ensinam os japoneses a ser como o bambu, que se dobra, mas não se parte quando está carregado de neve”

Em 2025, o Japão recebeu 42,7 milhões de visitantes estrangeiros, batendo todos os recordes do turismo no país, com um aumento de 15,8% em relação ao ano anterior. Este é um indicador perfeito para explicar o interesse que o país tem atualmente a nível global, alicerçado também no fenómeno da sua gastronomia e da cultura popular, expresso na manga, na anime e nos videojogos. No entanto, a História milenar do Japão continua a ser ainda desconhecida por muitos ou adulterada por determinados preconceitos e ideias erradas. Para desfazer mitos e ajudar a enquadrar a realidade japonesa no seu contexto histórico, a autora e historiadora britânica escreveu A Mais Breve História do Japão, país onde viveu durante década e meia. Conversar com ela acaba por nos proporcionar, de certa maneira, uma viagem ao Japão.

Depois de anos a escrever romances e biografias, como foi o processo de condensar o Japão numa Breve História?

Adoro a História do Japão. Os meus quatro romances passam-se todos no Japão de meados do século XIX e as minhas biografias apresentam figuras históricas nipónicas observadas no contexto do seu tempo.

Quando comecei a escrever A Mais Breve História do Japão, tive a oportunidade de juntar tudo isto. Com um número tão reduzido de palavras, optei por me concentrar nas histórias dramáticas e nas personagens extraordinárias que preenchem a História. Tentei escrever de uma forma tão evocativa quanto possível, de modo a dar vida às histórias e a levar os leitores comigo para o velho Japão, mas também, claro, tentando ser rigorosamente exata. Quis também revelar a cadeia de causa e efeito, mostrar como um acontecimento levou ao seguinte e incluir histórias de mulheres. A História japonesa é muito mais do que apenas shoguns e samurais.

O subtítulo do livro menciona “Drama Global”. Porque é que devemos olhar para a História japonesa não como algo isolado, mas como um drama que afeta o mundo inteiro?

Embora seja uma ilha pequena, o Japão tem uma presença extraordinária na arena mundial.

Nos primeiros séculos, a sua História estava entrelaçada com a da China. Quando os ocidentais chegaram às águas do Japão, a começar pelos portugueses em 1543, os japoneses foram suficientemente astutos para evitar a colonização. No início do século XX, com as suas vitórias contra a China e, em especial, contra a Rússia, o Japão emergiu como um ator em pé de igualdade com as potências europeias.

Após a recessão da II Guerra Mundial, o Japão reconstruiu-se rapidamente e, nos anos 80, os europeus e os americanos receavam que o Japão estivesse a comprar o mundo. Os homens de negócios ocidentais afluíram ao Japão para aprender os segredos do milagre económico e o Japão tornou-se o modelo de como ter sucesso nos negócios.

Hoje em dia, a cultura japonesa – desde a manga, a anime, a tecnologia, os jogos de vídeo até ao sushi e à moda de rua – está omnipresente e o seu turismo é tão bem-sucedido que o país está atualmente a tentar encontrar formas de evitar ser inundado por milhares de visitantes.

O livro começa com as origens míticas do Japão. Em que medida é que estes mitos fundadores ainda explicam a mentalidade japonesa moderna?

Nós continuamos a celebrar o Natal, quer acreditemos ou não nos mitos cristãos, o que pode muito bem explicar as mentalidades portuguesas e britânicas modernas. No mesmo espírito, os japoneses continuam a abraçar os seus mitos distintivos. Os japoneses continuam a rezar em santuários xintoístas e a Amaterasu, a deusa do Sol. Podem não levar estes mitos à letra, mas, mesmo assim, eles dão cor à vida quotidiana. O apreço dos japoneses pela Natureza faz parte da sua herança xintoísta, a crença de que as árvores, as montanhas e outros fenómenos naturais são a morada dos deuses.

De um modo mais geral, a ordem da sociedade japonesa e a ênfase na limpeza e na pureza estão todas relacionadas com o xintoísmo. As pessoas sentem reverência pelo imperador, que tradicionalmente se acredita ser descendente direto de Amaterasu. Isto faz dele um poderoso símbolo de unidade nacional, estabelecendo uma ponte entre o passado e o presente. Os muitos festivais que pontuam o calendário japonês, como o O Bon, quando os antepassados regressam para se juntarem aos vivos, celebram os deuses. São eventos anuais solidamente estabelecidos que moldam a vida e a experiência japonesas.

Como é que a linhagem imperial – a mais antiga do mundo – conseguiu sobreviver como símbolo de continuidade num país que mudou tantas vezes?

O imperador exerce um poder espiritual, e não temporal, razão pela qual a instituição imperial se manteve ao longo dos séculos. Enquanto os senhores da guerra, os shoguns e os governos se erguem e caem, o papel do imperador é unir o país, ser uma figura de proa espiritual e cultural, acima da política. Como parte deste papel, dirige os ritos e rituais essenciais e assegura a preservação e a continuidade das artes e da cultura japonesas.

A partir do século IX, após a morte do imperador Kanmu, o último a exercer verdadeiro domínio, o poder esteve nas mãos de vários clãs, desde os Fujiwara, nos séculos X e XI, até aos shoguns. Cada dinastia que tomava o poder tinha de demonstrar a sua legitimidade, afirmando governar em nome do imperador. Assim, o imperador continuava a ser a autoridade máxima, embora ele próprio não exercesse o poder.

Os oligarcas que levaram a cabo a Restauração Meiji no século XIX enfatizaram a divindade do imperador como forma de unificar o país e legitimar o seu governo, embora ele continuasse a não deter o poder efetivo. Após a II Guerra Mundial, o imperador renunciou oficialmente à sua divindade. A Constituição moderna define-o como o símbolo do Estado e da unidade do povo. Esta transição para uma monarquia constitucional moderna, semelhante à monarquia britânica, permitiu que a instituição imperial sobrevivesse e prosperasse mesmo na era da democracia.

O Japão é frequentemente descrito como “uma nação de ilhas”. Como é que o isolamento geográfico criou aquilo que apelida de “o drama de uma nação antiga”?

O Japão está a 190 quilómetros de distância do continente asiático no ponto mais próximo, muito mais longe do que a Grã-Bretanha está da Europa. Esse isolamento protegeu-o contra invasões e permitiu-lhe desenvolver-se com pouca interferência de culturas exteriores, incluindo os seus vizinhos asiáticos mais chegados.

Enquanto os países europeus travavam guerras para impor determinadas culturas aos seus rivais, o isolamento e a distância do Japão permitiram que os japoneses escolhessem os elementos culturais que queriam adotar. Nos primeiros anos, o Japão aceitou elementos culturais da China. Escolheu elementos do budismo, o sistema de escrita, o confucionismo, as estruturas governamentais e até o traje da China, selecionando os elementos que podia integrar e tornar seus. Desenvolvendo-se sem pressão estrangeira, o Japão foi capaz de cultivar as suas próprias crenças, como o xintoísmo, e as suas próprias estruturas sociais únicas.

No século XVII, o isolamento do Japão tornou possível fechar o país, permitindo o desenvolvimento de uma cultura muito própria.

No século XIX, após a Restauração Meiji, os novos governantes japoneses voltaram a escolher os elementos da cultura ocidental a adotar, que mais ajudariam ao desenvolvimento do país. Adotaram a estrutura governamental da Prússia, o sistema educativo de França e a Marinha da Grã-Bretanha, para criar um novo país à medida dos seus objetivos.

O que é que definiu verdadeiramente o conceito de “ser japonês” ao longo dos séculos?

O conceito de Nihonjinron – o que significa ser japonês – é muito discutido, sendo os dois elementos-chave a singularidade e a homogeneidade do Japão.

O isolamento do Japão fomentou o sentido de singularidade, o sentimento de que o Japão é diferente dos países que o rodeiam e de que os japoneses têm muito em comum uns com os outros. Além do isolamento, há também a geografia. O Japão é dominado por montanhas íngremes e inabitáveis, com falta de terras aráveis e terramotos frequentes, o que contribuiu para que as pessoas estivessem preparadas para dar o seu melhor, independentemente da catástrofe que possa ocorrer. Os japoneses valorizam a harmonia, trabalhando em conjunto para benefício do grupo e não de si próprios. É uma sociedade que privilegia a ordem – a conformidade e o evitar conflitos – e que tem um sistema social hierárquico muito claro, expresso através de elaborados sistemas de cortesia. Com o terramoto sempre ameaçador, há uma consciência da impermanência expressa no Zen, o que leva a uma estética de assimetria na cerimónia do chá e nos arranjos florais.

Os senhores da guerra e o código samurai ocupam o imaginário ocidental. Como é que distingue a realidade política que rodeia estes guerreiros do romantismo?

Os senhores da guerra e os samurais surgiram da agitação política do século XI. Os samurais eram soldados ferozes que se orgulhavam da sua lealdade inabalável ao seu senhor, da sua arrogância viril, das suas capacidades de combate e da sua linhagem familiar. Tal como os antigos romanos, colocavam a honra acima da vida, não tinham medo de morrer. Originalmente, a função do samurai era recolher receitas para o seu senhor e, na Idade Média, houve séculos de guerras.

Os samurais são famosos pela sua arte de esgrima, mas mesmo na Idade Média também usavam armas. No século XVI, o senhor da guerra Oda Nobunaga derrotou um exército inimigo utilizando armas de fósforo introduzidas pelos portugueses recém-chegados.

Quando a paz foi estabelecida no período Tokugawa, os samurais foram reenquadrados como uma classe social, com direito a usar duas espadas como marca do seu estatuto. Os samurais tornaram-se burocratas, académicos e administradores. Muitos praticavam artes marciais, mas não havia necessidade de lutar de facto.

O Bushido – a noção romântica do código do samurai – só foi desenvolvido muito depois do apogeu dos samurais. Foi popularizado num livro chamado Bushido: The Soul of Japan, de Inazo Nitobe, publicado em 1899, em inglês, para um público ocidental. Este livro enquadrava os samurais como homólogos orientais da tradição cavalheiresca ocidental, uma fantasia que, desde então, tem apelado ao imaginário ocidental.

O seppuku – suicídio ritual – só passou a fazer parte do mito dos samurais muito depois do período de guerra, quando já não havia necessidade de o praticar, embora tenha havido alguns casos no século XIX, testemunhados por observadores franceses e britânicos.

Como é que o período de paz de 250 anos do xogunato Tokugawa permitiu que a cultura florescesse de uma forma tão única?

Os 250 anos de paz do xogunato Tokugawa permitiram o desenvolvimento da prosperidade e deram às pessoas espaço para desenvolver a cultura em vez de lutar em guerras. Entretanto, a política de isolamento – fechando o país aos ocidentais – limitou a influência estrangeira e permitiu o desenvolvimento de uma cultura exclusivamente japonesa.

A alfabetização era generalizada. As crianças estudavam nas escolas do templo e havia muitas livrarias e bibliotecas, o que encorajava o desenvolvimento de uma cultura de leitura.

Mas o desenvolvimento mais importante foi o aparecimento dos bairros de prazer.

O sistema de classes Tokugawa colocava os comerciantes no fundo do poço, porque sujavam as mãos com dinheiro. No entanto, como agiotas e comerciantes, enriqueceram rapidamente, apesar do seu estatuto humilde. Legalmente, não podiam usar o seu dinheiro para subir de estatuto ou exibir a sua riqueza, vestindo roupas luxuosas ou decorando as suas casas com estilo luxuoso. Por isso, gastavam-no nos bairros de prazer.

Esses bairros de prazer começaram como uma forma de confinar as trabalhadoras do sexo que vagueavam pelas ruas. Muitas delas eram mulheres que ficaram desamparadas devido a 200 anos de guerra.

No entanto, a riqueza dos mercadores e a procura de entretenimento de classe transformaram estes bairros de prazer em centros de cultura. As cortesãs organizavam saraus onde artistas e poetas empobrecidos podiam reunir-se e conviver com os comerciantes e outros cidadãos.

A maior parte da cultura da época surgiu dos bairros de prazer. Os romances de Saikaku são todos sobre as aventuras das pessoas que frequentavam esses bairros, enquanto as gravuras em xilogravura tiveram origem em cartazes de cortesãs. O teatro kabuki era uma parte essencial da cultura dos bairros de prazer.

Como é que as gueixas e as cortesãs foram fundamentais para a economia e a política japonesas?

Os bairros de prazer e, mais tarde, os bairros das gueixas eram locais onde os detentores do poder da nação, tanto político como económico, podiam encontrar-se, discutir e fazer negócios em privacidade. As gueixas eram reconhecidamente discretas e tudo o que era discutido nas suas casas nunca ultrapassava as suas paredes.

As gueixas eram grandes conversadoras, bem informadas e inteligentes. Eram boas companheiras para homens poderosos e até sugeriam políticas. Muitas gueixas tinham um danna, um amante (ou dois ou três), que as apoiava, solidificando a ligação entre o mundo do espetáculo e a elite social e política.

Os bairros de prazer e as zonas das gueixas eram muito populares e as pessoas gastavam aí muito dinheiro. Sustentavam uma enorme sociedade – cabeleireiros, donos de restaurantes, fabricantes de quimonos e tatami, fabricantes de perucas, fabricantes de acessórios para gueixas, e muitos outros. Todos eles pagavam impostos que impulsionavam a economia do país.

Este era um mundo gerido quase exclusivamente por mulheres, onde uma mulher podia ser independente de um homem e, eventualmente, ter a sua própria casa de gueixas, pelo que, para uma mulher, este era um caminho possível para a independência.

Os japoneses valorizam a harmonia, trabalhando em conjunto para o benefício do grupo e não de si próprios. É uma sociedade que privilegia a ordem – a conformidade e o evitar conflitos – e que tem um sistema social hierárquico muito claro, expresso através de elaborados sistemas de cortesia

Como é que um país que se considerava um “reino divino” lidou com a transição para uma potência industrial em tempo recorde?

Os oligarcas que assumiram o poder no Japão no final do século XIX aperceberam-se de que o país estava sob ameaça de colonização. As nações ocidentais já tinham tomado conta da maior parte da Ásia e estavam a conquistar territórios em África e na China. Os novos governantes japoneses sabiam que tinham de agir rapidamente.

A restauração do poder do imperador uniu o país, proporcionando uma figura central para unificar o Japão, enquanto no passado as pessoas eram leais a cada daimyo. Os novos governantes precisavam de se aproximar tecnologicamente do Ocidente para contrariar a ameaça ocidental. Selecionaram os elementos estrangeiros a adotar – a Constituição alemã, a Marinha britânica – assegurando simultaneamente a manutenção de um espírito exclusivamente japonês. Enviaram estudantes para o Ocidente e trouxeram especialistas ocidentais para o Japão com o objetivo de lhes ensinar os segredos da revolução industrial.

Muitos japoneses aceitaram com alegria esta transição para uma potência industrial. As pessoas experimentaram o vestuário e a comida ocidentais, aprenderam a tocar instrumentos musicais e danças ocidentais e as mulheres deixaram de escurecer os dentes.

Mas uma inovação que causou descontentamento foi a abolição do sistema de classes feudal. Isto permitiu uma maior mobilidade social, mas, do ponto de vista dos samurais, foi uma traição a tudo o que eles defendiam. Alguns acabaram por se revoltar. A insurreição foi esmagada e, depois disso, a ocidentalização prosseguiu sem mais problemas.

Na sua análise, a Restauração Meiji foi uma revolução vinda de cima ou uma mudança inevitável vinda de baixo para cima?

A Restauração Meiji foi dominada por samurais de média e baixa patente dos domínios Satsuma e Choshu, que provocaram uma mudança de regime e tomaram o poder. Felizmente, os novos líderes eram movidos pelo idealismo, mas, apesar disso, tratava-se de uma oligarquia. As mudanças que impuseram foram muito radicais, como a abolição do sistema de classes e dos privilégios dos samurais. O governo liderou a educação, a industrialização e a modernização militar. Tratava-se de uma industrialização dirigida pelo Estado, a abordagem descendente, em que o governo desenvolvia indústrias e depois vendia-as às empresas zaibatsu.

A mudança era inevitável e a ameaça ocidental era um grande incentivo. Havia muito descontentamento, incluindo motins de arroz no início do século XIX. A maioria das pessoas comuns só queria viver em paz e não se importava muito com o samurai que estava no comando. As pessoas comuns sofreram durante a transição de poder. A população dançava nas ruas cantando: Ee ja nai ka – “Que diabo, que diferença faz?”

Com o novo governo, acabaram por surgir movimentos de reivindicação de mais direitos populares, embora as eleições só viessem a realizar-se muito tempo depois.

No início do século XX, o Japão passou da admiração pelo Ocidente à agressão imperialista. Porquê?

O Japão não admirava particularmente o Ocidente. Os japoneses repararam que o Ocidente se tinha tornado rico e poderoso através da conquista de colónias e aperceberam-se de que teriam de o imitar – era uma situação de comer ou ser comido. Adotaram uma política militar e expansionista ao estilo ocidental para poderem competir na cena mundial. Além disso, foram sujeitos a tratados desiguais que consideravam o Japão inferior.

O Japão sofreu racismo no rescaldo da Guerra Russo-Japonesa, durante a negociação do Tratado de Versalhes após a I Guerra Mundial e quando foram aprovadas leis contra a imigração japonesa nos EUA. Havia muitas razões para sentir ressentimento.

Como é que o povo japonês, habituado à ideia de invencibilidade, reagiu à capitulação e à ocupação americana depois de 1945?

Em 1945, os japoneses tinham sofrido os horríveis bombardeamentos da guerra. As suas cidades tinham sido destruídas e muitas pessoas tinham morrido tanto em combate como em casa. Sabiam muito bem que o Japão não era invencível.

Quando ouviram o imperador declarar no seu japonês arcaico que o Japão teria de “suportar o insuportável”, a maioria ficou estupefacta ao ouvir a sua voz. Nunca ninguém a tinha ouvido antes. Estavam exaustos e contentes por a guerra ter acabado. Esperavam atrocidades por parte dos americanos e muitos mandaram as suas filhas para as montanhas e ficaram aliviados quando nada aconteceu.

Com o Japão destruído, o ímpeto da maioria das pessoas era simplesmente a sobrevivência. Com a sua resiliência habitual, puseram-se a trabalhar para reconstruir o seu país.

Em 1960, o primeiro-ministro Hayato Ikeda prometeu que todos poderiam possuir os “três tesouros” – frigorífico, televisão e máquina de lavar roupa – incentivando as pessoas a trabalhar arduamente, com o objetivo de duplicar a economia japonesa em dez anos. Na verdade, foram necessários apenas sete

O “milagre económico” japonês foi uma fénix que renasceu das cinzas. Que características do passado histórico permitiram uma recuperação tão rápida?

Elementos cruciais da cultura tradicional japonesa contribuíram para a rápida recuperação do Japão após a II Guerra Mundial. A autodisciplina, o autocontrolo férreo, o desejo de trabalhar para o bem-estar do grupo e não para o próprio eram algumas das qualidades valorizadas pelos samurais. O trabalho árduo, a disciplina, a paciência, a capacidade de “suportar o insuportável” e a vontade de adotar novas ideias e de as melhorar são características fundamentais da sociedade japonesa.

O período Tokugawa criou uma mão de obra qualificada e educada, com uma forte ética de trabalho e uma sólida base económica, e os oligarcas Meiji construíram uma forte base industrial. Durante a Guerra Fria, a ajuda americana contribuiu para a construção da economia. Graças ao apoio americano e à constituição de paz, o Japão pôde concentrar-se na tecnologia e nas exportações, em vez de apostar nas despesas militares.

O governo também desempenhou um papel fundamental. Em 1960, o primeiro-ministro, Hayato Ikeda, prometeu que todos poderiam possuir os “três tesouros” – frigorífico, televisão e máquina de lavar roupa –, incentivando as pessoas a trabalhar arduamente, com o objetivo de duplicar a economia japonesa em dez anos. Na verdade, foram necessários apenas sete.

Atualmente, o Japão é uma “superpotência da cultura pop”. Como é que passámos da estética samurai para a estética kawaii global?

A estética samurai sempre foi apenas um dos aspetos da cultura japonesa. Além do lado zen austero do samurai, sempre houve o lado xintoísta selvagem, louco e colorido. Estes dois aspetos contrastantes são o que torna a cultura japonesa tão vibrante. A cultura kawaii surge do lado xintoísta da cultura japonesa.

Nos anos que se seguiram à guerra, o governo japonês tinha uma política de mudança da imagem do Japão, promovendo uma estética não agressiva e não militar. Tanto no Japão como no estrangeiro, o governo e as empresas encorajaram o desenvolvimento de fenómenos culturais como a banda desenhada manga, a cultura de rua Harajuku, a anime e os jogos de vídeo, juntamente com toda a estética kawaii da Hello Kitty. Tratou-se de uma política deliberada de abertura dos mercados estrangeiros a diferentes tipos de produtos, que foi muito bem-sucedida.

Porque é que o Ocidente parece estar mais fascinado pelo Japão agora do que em qualquer outro momento da História?

Há séculos que o Ocidente é fascinado pelo Japão. Logo após a abertura do Japão ao Ocidente, na época vitoriana, houve um boom do japonismo, com as pessoas a colecionarem espadas, porcelana e biombos de ouro. As senhoras ocidentais usavam quimono, havia uma aldeia japonesa em Knightsbridge, Gilbert e Sullivan escreveram o seu Mikado, Puccini escreveu Madame Butterfly e os artistas, nomeadamente Van Gogh, Whistler e Monet, pintaram obras inspiradas no Japão.

A partir dos anos 1960, houve muitos fãs de filmes japoneses, como os filmes de Akira Kurosawa, que inspiraram cópias americanas como Os Sete Magníficos. Há muitos anos que existem aficionados das artes marciais ocidentais.

Hoje em dia, o conhecimento do Japão é ainda maior devido à internet e às redes sociais. Mas isso deve-se principalmente ao facto de a cultura japonesa ser única, fascinante, acessível e de alta qualidade. As pessoas adoram a comida japonesa e a moda japonesa.

Recentemente, o governo japonês tem promovido ativamente o turismo. Como destino turístico, o Japão é muito fácil. É seguro e limpo, os comboios funcionam a horas, as pessoas são prestáveis e simpáticas. E a cultura é fascinante. Tudo isto é ajudado pelo iene fraco, que mudou a imagem do Japão: de proibitivamente caro para acessível e económico.

Na verdade, os japoneses estão agora preocupados com o facto de os turistas estarem a inundar locais de importância histórica e natural. E estão a tentar ativamente desencorajar o turismo.

A anime e a manga são muitas vezes veículos para temas históricos profundos. Considera que estas formas de arte são a nova “história oral” do Japão?

Algumas animes e mangas, como Grave of the Fireflies, que aborda a II Guerra Mundial, tratam de temas históricos. Há também muitas mangas e animes que incorporam elementos da mitologia japonesa e da História mais distante, embora de uma forma romantizada e fantasiosa. Provavelmente, não podem ser considerados história oral porque estão muito longe da exatidão histórica.

O conceito de Omotenashi (hospitalidade) é frequentemente citado. Como é que esta característica histórica se traduz na forma como o Japão acolhe o turismo de massas atual?

No Japão, os hóspedes estão sempre em primeiro lugar, são tratados com enorme hospitalidade. Isto está codificado na palavra Omotenashi.

O espírito Omotenashi deriva da cerimónia do chá e ainda de antes, no período Heian. Abrange todo um estilo de vida. Trata-se do tratamento gentil dos convidados, seja numa casa particular, num restaurante, num hotel ou em qualquer outro estabelecimento. Significa que o anfitrião se dedica ao hóspede. Tenta antecipar todas as necessidades do convidado, tratando cada visita como uma ocasião única.

No Japão não há gorjetas, por isso, mesmo num estabelecimento comercial, nada disto é feito para obter ganhos monetários, mas simplesmente pelo prazer de dar ao seu hóspede a melhor experiência possível. É uma filosofia de perfeccionismo e está no coração da cultura japonesa – tudo isto faz do Japão um lugar acolhedor, hospitaleiro e maravilhoso para visitar.

Qual é a ideia errada mais perigosa que o Ocidente tem atualmente sobre o Japão?

Os ocidentais podem ter uma imagem negativa do Japão devido à II Guerra Mundial. Mas, atualmente, a maioria das pessoas apercebe-se de que os japoneses são extremamente calorosos e acolhedores e tão ou mais sofisticados do que nós. Qualquer pessoa que o visite descobrirá que o Japão é mais rico, mais limpo e muito mais bem gerido do que o seu país de origem (a não ser que venha da Suíça) e qualquer pessoa que pense o contrário está a ter uma conceção errada.

O Japão está atualmente a enfrentar uma crise demográfica sem precedentes. Olhando para trás, alguma vez o país sobreviveu a desafios desta magnitude?

Ao longo da sua História, o Japão enfrentou e superou enormes desafios. É um país que está sempre à beira de uma catástrofe devido a fenómenos naturais. Há terramotos frequentes, como o de 1923, que arrasou Tóquio. Na II Guerra Mundial, o Japão sofreu uma destruição total e foi atingido por duas bombas atómicas. Mais recentemente, ocorreu o desastre nuclear de Fukushima.

O trabalho árduo, a disciplina, a paciência, a capacidade de “suportar o insuportável” e a vontade de adotar novas ideiase de as melhorar são características fundamentais da sociedade japonesa

Em todos os casos, os japoneses uniram-se. O Japão consegue sobreviver mesmo às crises mais terríveis, em parte devido a qualidades como gaman (que pode traduzir-se por “resiliência”), à cultura de todos trabalharem em conjunto e também à filosofia budista de enfrentar o que quer que suceda com equanimidade.

A atual crise demográfica é longa e de combustão lenta, mas não é pior do que a que o Japão sofreu no passado. Os japoneses já estão a lidar com ela e a fazer mudanças como permitir ou mesmo encorajar mais imigração.

De que forma é que o papel das mulheres no Japão – um tema que lhe interessa tanto – é fundamental para o futuro económico do país?

Diz-se frequentemente que o local de trabalho no Japão é, em grande medida, o domínio dos homens. Há muito que homens e mulheres desempenham papéis complementares, mas diferentes na sociedade. No entanto, com a atual crise dupla de uma população em declínio e de uma força de trabalho envelhecida, é evidente que a melhor solução é, de longe, encorajar as mulheres a participarem mais no mercado de trabalho e dar-lhes poder.

Se um leitor do seu livro pudesse tirar apenas uma lição sobre a resiliência japonesa, qual seria?

Os japoneses têm passado por enormes convulsões, mais recentemente, após a II Guerra Mundial, a recessão dos anos 1980 e o revés do coronavírus, precisamente na altura em que os Jogos Olímpicos do Japão iam realizar-se. Em todos os casos, conseguiram reerguer-se ainda mais fortes do que antes.

As artes marciais ensinam os japoneses a ser como o bambu, que se dobra, mas não se parte quando está carregado de neve. Quando a neve desaparece, volta a erguer-se. Em vez de ripostar, o melhor é ceder, aceitar as dificuldades. Outra famosa lição japonesa é “cai sete vezes, levanta-te oito”, sobre a importância de aceitar o fracasso. Depois, há o gaman, “resistência”; o shikata ga nai, “aceitação”; e o wabi sabi, apreciando a beleza da imperfeição e da idade.

Todos estes são conceitos que impregnam a vida e o pensamento japoneses e que vale a pena incorporar na nossa própria vida.

Para quem viaja ao Japão pela primeira vez depois de ler o livro, que “camada” da História recomendaria que procurasse primeiro?

O período Edo é o que tem mais para ver. Os visitantes do Japão vão gostar do Templo Senso-ji, do Palácio Imperial, do teatro kabuki e de sentir o sabor do período Edo nas ruas secundárias de Tóquio. Há lindíssimos templos, castelos e jardins do período Edo em Quioto, cidades maravilhosamente preservadas como Takayama e Shirakawa e outras de bilhete-postal como Tsumago e Magome, na antiga autoestrada entre Tóquio e Quioto, onde podemos realmente imaginar-nos no período Edo.

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Quis Saber Quem Sou: Será que "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais?"