Miguel Araújo começou o ano com um novo disco. Lançado no primeiro segundo de 2026, Por Fora Ninguém Diria marca o regresso do artista ao formato álbum, num momento em que acaba de celebrar os 20 anos de atividade, entre Os Azeitonas e a carreira a solo. Paradoxalmente, é também um trabalho que nasce da recusa de grandes planos e de qualquer ideia predefinida de obra fechada. As 11 canções que o compõem foram sendo escritas e gravadas ao longo de vários anos, muitas delas sem terem qualquer destino certo.
Gravado entre 2023 e 2025 no Estúdio Chiu, no Porto, o álbum foi inteiramente composto, tocado, produzido e interpretado por Miguel Araújo, retomando um método de trabalho já presente em álbuns anteriores, como Cinco Dias e Meio e Peixe Azul. O resultado é um disco assumidamente mais pessoal e contido, menos imediato do que trabalhos anteriores, construído num tempo longo e sem pressa.
Aos 47 anos, Miguel Araújo olha para trás sem dramatizar a passagem do tempo nem romantizar o percurso. Reconhece que nunca planeou uma carreira na música e que o sucesso foi sendo construído entre trabalho constante e acontecimentos inesperados, como a lenta afirmação de canções que viriam a marcar o seu trajeto.
Longe do circuito mediático e de uma exposição permanente, Araújo construiu uma relação singular com o sucesso, que distingue claramente da fama. Defende a liberdade de poder viver fora do foco público como um luxo essencial e recusa pagar o preço de uma visibilidade forçada. Essa distância não o impede, porém, de chegar a um público cada vez mais amplo e diverso, nem de encher salas por todo o País, como mostram os concertos já anunciados para a apresentação do novo disco, marcados para o Teatro Municipal de Vila Real a 14 de fevereiro; para o Convento de São Francisco, em Coimbra, a 12 de março; para o Teatro Municipal da Guarda, a 24 e 25 de abril; e para o Theatro Circo, em Braga, a 30 de abril.
O que o levou a lançar um disco novo logo no primeiro dia do ano?
Hoje em dia é um bocado indiferente quando se lançam os discos, mas eu procuro fazê-lo sempre numas datas redondas, para ter alguma graça. Já tinha o disco pronto quase há um ano, mas como tinha decidido não lançar qualquer disco em 2025, porque havia muita coisa a acontecer para os meus lados, com os concertos grandes nas arenas, o lançamento de um EP de duetos chamado Cê Barra, e ter ainda um disco novo de originais não nos pareceu muito acertado, tanto a mim como à minha agência. Foi o meu manager, o Pedro Barbosa, que sugeriu lançar só em 2026 e eu, só um bocadinho por piada, decidi fazê-lo logo no primeiro segundo.
E foi mesmo no primeiro segundo do ano…
Sim, em teoria não é grande horário, porque se há hora no ano em que as pessoas estão ocupadas com outra coisa, é essa (Risos).
A uma primeira audição, este disco não soa tão imediato quanto os anteriores. Porquê esta opção por um registo mais intimista e não tão “xalalá”, para usar uma expressão sua?
A verdade é que nunca sei muito bem quais são as músicas que vão ter sucesso radiofónico, mas este é um disco, mais do que qualquer outro, que foi feito ao longo de um período de tempo muito alargado e de forma muito discreta, para aí desde 2022. Entretanto, fui lançando outras coisas, mas ao mesmo tempo estas músicas iam-se construindo elas próprias, muito calmamente. E à medida que sentia que estavam prontas, ia-as gravando. E nesse aspeto, sim, reconheço que é um álbum bastante pessoal, muito mais do que alguns dos meus outros discos. Se bem que eu já tenho dois assim, feitos um bocadinho através deste processo criativo, o meu primeiro disco de todos, o Cinco Dias e Meio, foi também um bocadinho assim. E o Peixe Azul, de 2021, também foi feito desta maneira, no meu estúdio.
À medida que as músicas foram surgindo, já estava a pensar em fazer um novo disco? Ou é algo que se vai consolidando ao longo do tempo, através do processo criativo?
Foi mais isso, sim. Por exemplo, uma das músicas deste disco, chamada Céu, já tinha sido gravada pelo António Zambujo no último disco dele, Cidade, que produzi. E a versão da música que eu pus neste disco é basicamente a maquete que fiz para o Zambujo. Ou seja, são músicas feitas a partir de maquetes ou versões que vou gravando e, de repente, sinto que já tenho ali uma amálgama sólida o suficiente para lhe chamar disco.
E porquê fazer tudo sozinho? Tocou todos os instrumentos, produziu…
O meu disco anterior, o Xalalá, teve como produtor o João André e contou com dezenas de músicos a tocar, os da minha banda e mais alguns, porque foi feito e pensado em função das músicas. Este não, pois quando comecei a compor nem sabia sequer que estava a gravar um disco. Aliás, só muito no fim é que constatei que tinha ali um disco. No fundo, creio que gosto de oscilar entre essas duas formas de trabalhar. Farto-me de uma, e volto para a outra. Vou oscilando assim.
Cumpriu no ano passado 20 anos de carreira. Como é que avalia este percurso ao olhar para trás?
Eu acho que é daquelas coisas que parece que nada mudou e no entanto tudo mudou. São aquelas mudanças discretas da vida. Há um misto de parecer que 2005 foi ontem, mas ao mesmo tempo parece que foi há muitas vidas. Posso dizer hoje que nunca pensei ficar nisto tanto tempo. Por exemplo, nessa altura nunca imaginaria vir a ser vocalista e estava muito a leste de sonhar que um dia iria ter uma carreira a solo, porque era apenas um membro de Os Azeitonas. Aliás, um ano antes de editarmos o primeiro disco de Os Azeitonas, em 2004, eu não pensava sequer em ser músico. Não estava nos meus planos de vida, mas foi acontecendo. Quando acabei o meu curso de Gestão, na Católica, em 2000, meti o 2001 como ano sabático. E em 2004 ainda andava a encavalitar anos sabáticos uns atrás dos outros. De certa maneira, sinto que continuo a fazê-lo (Risos) e ainda vou negociando comigo mais um ano disto. Mas o certo é que, a dada altura, as coisas começaram a correr bem, no sentido mais pragmático e prosaico da expressão.
Quando é que percebeu que a música era uma carreira, que podia dar-lhe também um lado de estabilidade e conforto financeiro? Tem esse momento presente?
Os primeiros anos foram muito difíceis, praticamente impossíveis. De 2005 a 2008, foi uma nulidade total, um período em que quase não havia concertos. Só que eu, lá está, tinha essa postura de aproveitar e viver o sonho enquanto era jovem e depois então ir trabalhar a sério noutra coisa. Só que ali em 2009 houve uma virada. Por exemplo, gravámos a música Anda Comigo Ver os Aviões nesse ano, que não tendo sido um sucesso imediato, abriu algumas portas para nós. Haveria de se tornar um sucesso três anos mais tarde, em 2012, através do programa televisivo Ídolos. Também tivemos o tema Quem És Tu Miúda? nos Morangos com Açúcar, e nessa altura havia um claro antes e depois de se ter uma música numa novela. De repente, as nossas músicas ficaram famosas da noite para o dia. Depois, em 2012, foi o meu ano, porque foi quando editei a música Maridos das Outras, e, na mesma semana, incrivelmente na mesma semana, o Anda Comigo Ver os Aviões tornou-se o tal sucesso, também devido à televisão. A partir desse ano, houve claramente um antes e depois na minha vida.
Ou seja, muitas vezes não basta só o talento, são também necessários uns acontecimentos aleatórios para dar esse clique. Ou, se calhar, aconteceria mais tarde…
Não sei, olhando para trás, creio que a justificação para a minha permanência na música durante tantos anos foi a consistência do meu trabalho. Eu gosto realmente muito de trabalhar e era algo que já fazia antes. O facto de eu estar sempre a fazer música, sempre com a mão na massa, independentemente de esperar que seja um sucesso ou não.
A indústria também mudou muito nestes 20 anos, não mudou? Até a maneira como se consome a música. Aliás, como disse há pouco, já não interessa muito o dia em que se lança o disco, porque passa a estar disponível nas plataformas. Como é que viveu e assistiu a essa mudança enquanto músico?
Em 2005, quando comecei, o CD já era considerado arcaico. Embora ainda se lançassem, já era um dado adquirido que não dava para ganhar dinheiro com o CD. Era apenas algo que tinha de existir. De certa forma, já sou um músico da era da internet, embora esta tenha mudado muito também nestas últimas duas décadas. O YouTube, por exemplo, foi lançado no mesmo ano que eu comecei, em 2005. Os Azeitonas já foram um produto dessa nova realidade, do YouTube e do MP3, com as nossas músicas a viajarem de email em email ou de chat em chat. Ainda não existia o streaming, mas já havia o conceito de uma música se tornar viral ou não. Não se chamava assim, mas já existia. Lembro-me de, na altura, conhecer o pessoal dos Adiafa e de eles me dizerem que o tema As Meninas da Ribeira do Sado se tinha tornado um sucesso na internet, enviado pelas pessoas umas às outras. Eu, enquanto músico, não senti uma mudança muito radical. Creio que a grande mudança radical foi passar do suporte físico para a internet e eu já sou dessa era. Depois se é MP3, streaming, Spotify, YouTube ou Napster, já é um bocado irrelevante, porque o princípio é o mesmo.
Houve uma altura em que os artistas criticavam as editoras pela fatia com que ficavam e agora critica-se o Spotify pelo pouco que paga aos músicos. Parece que há questões que não mudam, seja qual for a plataforma.
E haverá sempre, porque esta indústria está organizada através de um esquema de pirâmide. Esta ultrademocratização da música, acessível a toda a música, é positiva, mas quando temos sete milhões de temas disponíveis é inevitável que surja um qualquer agente intermediário, para selecionar o que é que as pessoas devem ou não ouvir. Vai sempre haver, é impossível não haver essa espécie de hierarquia.
Foi também para subverter esse sistema que criou a sua própria editora, a Xiu? Ou fê-lo apenas por uma questão de liberdade artística?
Isso foi mais por uma questão de sistema de trabalho. Como investi num estúdio em casa, onde tenho os instrumentos, os amplificadores e as colunas, da mesma forma que tenho uma máquina de lavar ou um aspirador. É algo que faz parte da minha vida doméstica e não fazia sentido ser de outra maneira. A minha editora Xiu só tem um artista, que sou eu, e não faz mais nada a não ser editar os meus discos.
A minha cadência de trabalho é diária. E a fluidez. Eu não me retiro durante um período para compor ou gravar um disco, é algo que faço no dia a dia, e portanto não fazia sentido para mim ter um contrato bastante rígido com uma editora multinacional como a Warner Portugal, que está subordinada à Warner Madrid, que por sua vez está subordinada à Warner London, por sua vez subordinada à Warner não sei o quê…
Disse uma vez que fazia música para as pessoas que não gostam de música. Como é que um artista que tem uma legião de fãs que não gostam de música continua a encher de salas atrás de salas?
Não foi exatamente isso que disse (Risos). Eu não faço música para ninguém em específico. Pelo contrário, faço música pela própria música em si. Mas constato que o meu típico fã, se eu tivesse de traçar um perfil, não é aquele fã que compra a Blitz ou lê o New Musical Express desde pequenino. É mais aquele fã que não é um grande fã de géneros musicais. E depois vou sabendo que a mãe do meu amigo foi ao meu concerto e que adorou as músicas. Se perguntar a essa mãe do meu amigo quais foram os concertos a que assistiu nos últimos cinco anos, se calhar não foram assim tantos. Há qualquer coisa na minha música que faz com que as mães dos meus amigos vão aos meus concertos (Risos). É por isso que digo, porque os meus fãs não são de todo geek musicais.
Mas sente algum preconceito por parte desse geek musical? Ou, pelo contrário, também consegue chegar a ele?
Não faço ideia, porque vivo muito alheado disso. Quando morava em Lisboa, ia ali ao Bairro Alto beber um copo e encontrava a malta que trabalhava na área. Estava mais perto disso em 2011 do que hoje. Agora moro no Porto, tenho um estúdio em casa, vivo aqui no meu casulo, não faço a mais pequena ideia do que os geeks musicais pensam de mim. Também não dou assim muitas entrevistas. Há, no entanto, um geek musical que sei que vê uma certa graça em mim, o das guitarras, que como eu tem não sei quantas Stratocaster em casa e não sei quantos amplificadores. Mas aquele geek mais indie acho que não tem saco nenhum para ouvir a minha música.
E isso foi uma opção sua, de se desligar desse lado mais…
Do gossip musical?
Sim.
Não, até porque tenho os meus amigos de Lisboa e quando estou com eles adoro saber as fofocas da indústria (Risos). Quem mudou de editora, quem é que anda com quem? Mas, por outro lado, já tenho 47 anos. Tenho a idade que o Mick Jagger e o Keith Richards tinham em 1990, quando editaram o Flashpoint, um disco ao vivo dos Rolling Stones que adoro. Na altura eu olhava para eles como uns velhinhos, porque as pessoas já se questionavam como era possível eles, com aquela idade, ainda andarem aos saltos nos palcos. Mas imagino que os próprios Rolling Stones não andassem muito preocupados com isso. E eu também já não tenho idade para andar preocupado com o que o pessoal acha de mim. É mais isso, não é propriamente uma opção. E também não tenho muito tempo para isso. Tenho os meus filhos. Não tenho tempo para ir ver o que anda a ser dito sobre mim. Antes ligava a isso, confesso, mas agora não.
Ligava em que sentido? Ficava aborrecido quando alguém dizia não muito bem de si? Com as críticas dos discos?
Passava muito tempo a ler os comentários do YouTube. Andava sempre em cima disso. Não ficava particularmente chateado. Há uma carapaça que se ganha e se torna uma moeda com dois lados. Não ficava muito chateado quando diziam mal de mim, mas também não ficava demasiado empolgado quando diziam bem. Depois, com o passar do tempo, há um desligar disso e agora já não ligo nada.
Como é que alguém tão afastado desse mundo lida com o sucesso? Ou melhor, com a suposta fama que advém do sucesso?
O sucesso é muito bem-vindo. Eu faço tudo para que a minha música seja um sucesso, no sentido em que se é um sucesso é porque ficou bem, não é? É ter tido uma ideia para uma canção, ir para o estúdio e dar 40 voltas até aquilo resultar. Ou seja, faço tudo o que está ao meu alcance, e a minha vida é dedicada a isso, para que a minha música resulte. Mas para resultar não significa que tenha de ser vendida para um anúncio ou de ser o maior hit da rádio desse ano. Resultar para mim não é isso, é começar bem, é o refrão ficar porreiro. E de repente a música sai, muitas pessoas ouvem, até dá na rádio e pronto, foi um sucesso. Acho isso uma maravilha. Não posso imaginar nada melhor do que ter êxito. Agora a fama… Até diria que não consigo imaginar pior castigo para um ser humano do que ser famoso. Basta pensar o que acontece em todo o lado aonde vai um Cristiano Ronaldo ou um Michael Jackson, não é?
As pessoas reconhecem-no na rua, pedem-lhe autógrafos?
Antigamente, o sucesso trazia como efeito secundário e inevitável a fama. Na música, pelo menos, era assim, não havia sucesso sem que o seu cantor ou criador não se tornasse famoso. Mas hoje em dia, graças a Deus, já não é assim e, pelo menos no meu caso, até dá para passar entre os pingos da chuva. Não sou conhecido na rua e vou ao centro comercial ou ao supermercado como qualquer outra pessoa, sem ser reconhecido. Mas tenho amigos famosos e já fui a supermercados com eles e noto a diferença. Eu sou sempre aquele gajo a quem pedem para tirar a fotografia e passam-me o telemóvel para a mão (Risos). Os meus amigos famosos têm imensa inveja disso. Se calhar, é isso que vai ficar escrito na minha lápide: aqui jaz Miguel Araújo, o músico que conseguiu ter sucesso sem fama. É o meu maior feito (Risos).
Mas há quem procure essa fama e isso também é legítimo, não é?
Claro que sim, mas, para mim, o maior luxo é poder estar à vontade. Eu moro perto do mar e saio descalço e volto descalço para dar um mergulho. Tenho essa liberdade total. A fama é uma prisão na qual eu não estou disposto a viver. No dia em que, para estar na música e poder ter uma vida viável à custa dela, tiver de ser famoso, desisto. Mas acho que isso não vai acontecer, não é? Se não aconteceu até agora…
Exato.
Lembro-me que uma vez estava com um colega meu da música, mais velho, bastante famoso, com muito sucesso, e estávamos a tocar juntos num sítio que tinha uma praia em frente. Desafiei-o para dar um mergulhinho. Ele respondeu que não podia ir à praia. Deu-me um dó! E eu pensei, realmente não podes, mas eu posso e fui (Risos).
E quando é reconhecido, como reage?
Nas poucas vezes em que isso acontece, é sempre numa boa. Acontece naturalmente nos meus concertos. Uma vez estava no Marés Vivas e convidei os meus tios, que também têm uma banda e às vezes tocam comigo, a dar uma volta pelo recinto. Como ia lá tocar nesse dia, toda a gente me cumprimentava. Aí, sim, senti-me o Michael Jackson. Os meus tios ficaram muito impressionados e confesso que fiquei um bocadinho vaidoso por lhes mostrar que afinal era famoso, mas é algo que só acontece nos meus concertos, fora disso não. Mas mesmo quando raramente acontece na rua ou num supermercado, sou sempre abordado com muita simpatia e tiro a foto com muito gosto. Até acho graça, por ser tão raro.
Mas o objetivo de qualquer artista é chegar ao máximo de público possível, certo? Mesmo quem diga que é muito alternativo terá esse objetivo.
Sim, mas depois também há aquele complexo de Kurt Cobain, que enquanto não era famoso, esgotava a paciência às editoras e depois quando ficou famoso, queixava-se de que ficou famoso. Mas o gajo era um puto, não é? Temos de nos lembrar que ele morreu com 27 anos, coitado. Eu não crio qualquer entrave a que as pessoas oiçam a minha música, mas tenho alguns amigos, assim mais do mundo indie, que dizem que não querem fazer músicas para serem ouvidas por alguém a passar a ferro, em casa. Já eu não consigo imaginar ambição mais romântica do que ter uma senhora ou um senhor a passar a ferro e a ouvir a minha música. A minha avó ouvia Roberto Carlos enquanto fazia essas tarefas. E não há coisa mais incrível, porque para a minha avó o Roberto Carlos era mais do que apenas a música. Era uma forma de estar na vida, uma companhia. Não consigo mesmo imaginar ambição mais romântica ou mais poética do que alguém a passar a roupa a ferro enquanto ouve a minha música, a sério. E depois tenho amigos que dizem que não querem que a música deles passe em determinadas rádios. É sempre aquele drama de saber quem nos ouve, mas a verdade é que a partir do momento em que a música sai cá para fora é impossível andar a policiar quem pode ou não ouvi-la. Deus me livre de tal coisa!
Não tem linhas vermelhas nesse sentido?
Tenho, claro. Por exemplo, ir à televisão participar em programas que saem muito da minha natureza, essa é a minha linha vermelha. Participar naquele programa em que se faz umas palhaçadas, eu não tenho jeito para essas coisas. Se me dissessem que se fosse a dez programas desses a minha música iria ser ouvida por todo o País, continuava a não ir. Portanto, não posso dizer que o objetivo do artista é ter o máximo de pessoas a ouvir a sua música. Depende sempre do preço a pagar por isso. Também não vou fazer de júri num concurso de jovens talentos para ficar mais famoso por causa disso, nem pensar.
Mas já foi convidado? Agora também para acrescentar um bocadinho de gossip a esta entrevista…
Já fui sondado. Mas, lá está, não tenho nada contra quem faz e até tenho grandes amigos que o fizeram, como o Zambujo. A questão é que não tenho jeito para isso, não ia contribuir com nada, ia ser apenas forçado e por isso não o faço.
Dizia há pouco que, para si, sucesso é fazer uma canção que resulte. Como é que se cria uma canção perfeita? Tem um método ou é uma espécie de superpoder? Quando é que percebe que a canção está finalizada?
Resultar, para mim, não é bem nesse sentido de ter um refrão superorelhudo que toda a gente vai cantar. Eu vou para o estúdio todos os dias, das dez da manhã às cinco e meia da tarde, e a música perfeita pode ser uma daquelas que passaram na rádio, como acontece com a maioria das minhas canções e com as de qualquer músico. Cerca de 90% das músicas do Elton John também não são conhecidas. Mas para resultar, por vezes, tenho de recomeçar 40 vezes, se não é com guitarra, experimento ao piano, depois de novo com a guitarra e a seguir mudo o tom. E eventualmente há um momento em que, de facto, resulta. Já a questão dos refrães orelhudos tem mais a ver com o tipo de música de que gosto. Adoro gente como os Beatles, o Elton John, o Caetano Veloso, o Rui Veloso. Ou seja, artistas cuja obra tem esse lado redondinho, esse veludo que faz as pessoas cantarem. Não faço isso em busca de nada, mas sim como consequência de ser a música de que eu gosto. Quanto ao método para chegar lá, é um bocado caótico, sempre foi. Por vezes, começo uma música, deixo-a estar e só volto a ela alguns anos depois. Tenho quase sempre a sensação de que é algo que vem de fora de mim, não querendo ser esotérico. Mas, enfim, o ar que respiramos também vem de fora de nós. Uma pessoa dá um passeio e vê qualquer coisa que a inspira, portanto, é como se fosse oxigénio para um artista. E a mim dão-me umas ideias. Há uma melodia que começa a cantarolar na minha cabeça e ando meses naquilo. São essas ideias que muitas vezes se transformam nos refrães das minhas músicas. E ando atrás disso como um cão. Guardo sempre o ficheiro original no telemóvel, para manter uma fidelidade canina e insana à ideia inicial.
Ou seja, ainda é só a melodia, sem letra, sem nada…
A maior parte das vezes, é só uma melodia, a parte da letra é uma camada posterior. É complicado, porque depois não pode parecer uma camada, mas sim soar como coisas inseparáveis. A parte árdua do meu trabalho é mesmo a escrita, não é a melodia nem a música.
Árdua em que sentido?
Porque me custa e depois soa mal. Às vezes, farto-me e começo tudo de novo. E é um processo sempre feito posteriormente, porque nunca faço música e letra ao mesmo tempo. Se pudesse ser um artista só de música instrumental, como um Richard Clayderman ou um Kenny G, seria um sonho, porque fazia para aí 18 músicas por dia (Risos). Mas não, porque tenho esta compulsão para a canção, com melodia e letra. Saio de casa, vou ouvir aquilo, vou correr e levo os headphones para ouvir as melodias, cantadas por mim, sem palavras ainda. Às vezes, paro de correr para escrever no telemóvel. Quando já se tem ali um furinho, uma toca de coelho, é muito mais fácil entrar.
O desporto, como correr ou nadar, é algo que serve para compensar a vida boémia de artista?
Não sei, porque já há muito que não tenho essa vida boémia de artista. Talvez tenha começado assim, como uma necessidade, mas que com o tempo se tornou algo vital para mim. Quem faz desporto de forma mais contínua sabe que é assim. Faz parte da minha higiene mental, moro muito perto do mar, tenho aqui uma zona privilegiada para o fazer, que é toda a zona costeira da cidade de Porto.
Pode-se então dizer que este Por Fora Ninguém Diria é um disco feito com esses excertos de músicas que vai acumulando ao longo dos anos?
Quando comecei a fazer músicas, não tinha a prática nem a rotina de as concluir. Mas hoje já tenho essa mão feita e quando, às vezes, descubro umas pastas antigas nos meus telemóveis, tipo maquetes de 2006, vou lá ver. E há coisas que na altura descartei, mas que passado este tempo todo podem ser recuperadas. É por isso que estou sempre a dialogar com as minhas músicas de há 20 anos. E depois há outras, das quais já nem me lembro. Por, exemplo, as minhas primeiras tentativas de fazer músicas, quando era puto. Algumas ficaram-me na memória. Então, se ainda me lembro, ao fim de 20 ou 30 anos, é porque a música deve ter qualquer coisa. E neste momento estou a materializar muitas dessas músicas. É como se estivesse a salvá-las do caixote o lixo.
Há pouco, mencionou o Rui Veloso como uma das suas principais referências e recentemente partilhou o palco com ele, no espetáculo comemorativo dos 20 anos de carreira. O que se sente ao tocar com um ídolo?
Todos os artistas têm o seu Elvis, e o Rui Veloso é o meu. De repente, estar ali, ao lado daquela pessoa… Mesmo ao fim destes anos todos, sempre que ele sobe ao palco comigo e abre a boca e sai aquela voz, quando começa a tocar e saem aquelas malhas de guitarra, quase que tenho de me beliscar para acreditar que é mesmo verdade. Lembro-me logo de quando era um miúdo de 11 ou 12 anos e passava o tempo a ver os concertos do Rui Veloso em VHS.