Atualmente, é mais ou menos consensual, que o centro do mundo está a deslocar-se para o Oriente, mas há dez anos pensar nessa hipótese, apesar de todos os indícios que se iam acumulando, parecia ainda uma ideia estranha. Mas foi precisamente por isso que, em 2015, o nome de um jovem historiador da universidade britânica de Oxford ficou famoso. O livro As Rotas da Seda fez de Peter Frankopan uma celebridade quase instantânea. O livro foi traduzido para uma grande quantidade de línguas e, mais importante, ajudou a moldar o olhar geopolítico com base nos ensinamentos da História. Ou seja, contribuiu para que o mundo, até aqui sempre visto sob o prisma dos observadores ocidentais, passasse a ser analisado com base num espaço temporal muito mais vasto, com uma conclusão evidente: o centro do poder mundial está a regressar aos lugares em que esteve durante a maior parte da História da Humanidade. As Rotas da Seda está agora de volta, com uma edição comemorativa do 10º aniversário, em que Peter Frankopan acrescenta um epílogo sobre o que podemos esperar nos próximos anos – o que, só por si, já valia a leitura do livro e o que deu o mote para esta entrevista.

E se o centro do mundo não fosse, afinal, o mítico mar Mediterrâneo, como aprendemos desde há séculos? Com esse ponto de partida, Peter Frankopan, professor de História Mundial na Universidade de Oxford, onde dirige o Centro de Pesquisa Bizantina, escreveu um livro que se tornou um best-seller global. Agora, está de volta às livrarias, numa edição comemorativa do 10.º aniversário (da editora Crítica, chancela do grupo Planeta), em que o autor acrescentou um epílogo que ajuda a iluminar a visão do leitor sobre o que pode esperar do futuro – à luz dos ensinamentos da História.
Há uma década, quando lançou As Rotas da Seda – Uma Nova História do Mundo, alguma vez imaginou que o livro iria ser um êxito planetário?
Certamente que não antecipei a dimensão do seu sucesso global! É claro que esperava que os leitores considerassem o livro interessante e que ele pudesse suscitar discussões e conversas sobre a forma como procuramos olhar para o passado. Mas a ideia de que o livro seria traduzido para dezenas de línguas, que se tornaria um best-seller, tanto no Brasil como na China, e que a sua leitura seria aconselhada em escolas e universidades de todo o mundo estava muito além do que eu imaginava. Livros sobre História raramente têm esse tipo de alcance, e eu senti-me – e ainda me sinto – humilde e surpreendido com o impacto que teve.
E que impacto teve esse sucesso na sua vida pessoal e profissional?
O êxito do livro mudou a minha vida de muitas maneiras. Profissionalmente, abriu-me portas que eu nunca pensei que pudessem existir, desde convites para dar palestras em lugares tão diversos como o Cazaquistão, a Índia e a América Latina até colaborações com académicos, decisores políticos e artistas. Estive envolvido na encomenda e na criação de novas músicas, inspirei exposições nalguns dos principais museus do mundo e incentivei outros historiadores e autores a pensar de forma global. O êxito do livro permitiu ainda que tivesse dado o meu contributo para a elaboração de políticas locais, regionais e até globais, sobre os mais variados temas e assuntos: desde a conetividade regional até ao abastecimento de água e à segurança nacional.
A visibilidade do livro também me incentivou a procurar outros projetos em temáticas pelas quais me interesso profundamente: escrever mais livros em áreas muito diferentes, criar o podcast Legacy e desenvolver o meu substack Global Threads, onde escrevo uma ou duas vezes por semana sobre coisas que acho que as pessoas não sabem. Tudo isso também me trouxe muitas viagens, longas horas de trabalho, muitas chávenas de café e novas responsabilidades – mas também o privilégio de conhecer leitores de todos os cantos do mundo. Acima de tudo, reforçou-me a convicção de algo muito importante: as pessoas, em todo o mundo, estão ansiosas por ver a História contada a partir de múltiplas perspetivas, e não apenas através de uma lente ocidental reduzida e estreita.
Considera que o livro ajudou a mudar a perceção existente nos países ocidentais sobre o lugar que ocupam na História, obrigando-os a parar de pensar que sempre foram o centro do mundo? E, se isso aconteceu, pensa que ajudou a provocar mudanças políticas?
Penso que sim. O livro As Rotas da Seda contribuiu para que exista uma maior compreensão em muitos países ocidentais de que eles nem sempre foram o centro do mundo e de que não estão destinados a ocupar sempre esse lugar. O objetivo do livro nunca foi diminuir a importância ou o papel da Europa ou dos Estados Unidos da América, mas mostrar que, durante a maior parte da História da Humanidade, os motores da riqueza, da cultura e da inovação estavam noutros lugares – na Pérsia, na Índia, na China, na Ásia Central e no Médio Oriente. Muitos leitores, especialmente na Europa e na América do Norte, disseram-me que consideraram isso, ao mesmo tempo, inquietante e libertador: inquietante porque desafiava suposições de longa data, mas também libertador porque abria a porta para uma visão muito mais rica e interligada do passado.
A Ásia Central era, há um milénio, a grande potência intelectual do planeta. Nesses tempos, se alguém quisesse reunir-se com pessoas inteligentes, não as encontraria em Oxford, Cambridge, Harvard, Yale ou Lisboa, mas em Samarcanda, Bucara ou Rayy
Não há dúvida de que o livro estimulou outros historiadores a pensar de forma mais ampla sobre a História de outras regiões. Até a capa do livro foi copiada por muitos outros. Tenho orgulho de ter causado esse impacto.
Agora, o livro ajudou a promover mudanças políticas? Isso é mais difícil de medir. Mas o facto de eu ter trabalhado nos corredores do poder durante a última década, ou mais, mostra que há um lugar não só para historiadores e para a História na formulação de políticas, mas também que a disciplina que a História ensina é útil para compreender o presente e talvez até o futuro. No fim de contas, a História trata da compreensão dos fundamentos, trata da ciência de trabalhar com evidências e dados e trata de apresentar argumentos persuasivos.
Se o livro conseguiu encorajar um número de pessoas, mesmo que pequeno, a pensar de forma diferente sobre as prioridades globais, as relações estratégicas ou a importância de compreender outras culturas nos seus próprios termos, então isso já constitui um impacto suficiente para qualquer historiador.
Por que argumenta que, durante milénios, o centro do mundo estava numa determinada área da Ásia e não no Mediterrâneo, como a maioria de nós aprendeu na escola?
Porque era mesmo assim. Há tantos exemplos para o comprovar! Vou dar-lhe um fácil. Soube quem era Alexandre, o Grande, quando estava na escola. Aprendi, na altura, que ele construiu o maior império do mundo antigo – e que “chorou lágrimas salgadas” quando chegou aos Himalaias, pois “não havia mais mundo para conquistar”. Mesmo com apenas 8 anos, achei isso incrível e interessante, porque percebi que ele não se tinha preocupado em conquistar o que hoje são Itália, Espanha, Portugal, França, Alemanha ou qualquer outro lugar que me tivessem dito ser importante e fundamental para compreender o passado. Todos esses lugares na Europa têm histórias orgulhosas, mas a sua ascensão e a sua importância são bastante recentes. Ninguém se importava com a Península Ibérica quando a Babilónia, Uruk e Mohenjo Daro estavam entre as cidades mais importantes do mundo.
À medida que fui crescendo, comecei a perceber que a forma como nos ensinavam História era egoísta e criava ligações com o passado que, por vezes, não eram totalmente honestas – basta olhar para todos os edifícios nos EUA, ou mesmo na Austrália, que se parecem com templos gregos ou romanos. Tudo isso tinha a ver com o facto de a Europa Ocidental querer reivindicar o legado do mundo antigo – porque não tinha mais nada a que recorrer.
Como é que, durante séculos, a Ásia Central, que hoje vemos frequentemente como inóspita e com Estados falhados, foi decisiva para o progresso da Humanidade?
Não é apenas a Ásia Central. Os mundos que me interessam são aqueles onde o intercâmbio é intenso. É claro que isso é o mesmo hoje com as cidades e o comércio, como no passado. Hoje, a Ásia tem uma população maior do que a de todos os outros continentes juntos. O seu domínio no passado era semelhante – na Antiguidade, na Idade Média e posteriormente, a Ásia albergava já cidades enormes, dalgumas das quais muitas pessoas nunca ouviram falar – como Merv, Kaifeng ou Samarra, que eram 20 a 30 vezes maiores do que as cidades da Europa.
Assim, as conexões e interações entre cidades, e entre cidades e o mundo nómada, ajudaram a moldar tudo, desde a disseminação de tecnologias até às sementes, desde a difusão da fé até a propagação de ideias. Naturalmente, os lugares que conectam várias regiões, povos e lugares são particularmente interessantes. A Ásia Central é um deles. E é justo sublinhar que a região da Ásia Central era, há um milénio, a grande potência intelectual do planeta e talvez até mesmo o centro global mais importante que existia. Nesses tempos, há mil anos, se alguém quisesse reunir-se com pessoas inteligentes, não as encontraria em Oxford, Cambridge, Harvard, Yale ou Lisboa, mas em Samarcanda, Bucara ou Rayy.
Argumenta que havia várias Rotas da Seda, em vez de apenas uma, e é por isso que o título do seu livro está no plural. Na sua opinião, as relações comerciais têm sido um dos principais motores da História? De que forma?
Bem, o termo começou a ser usado na era moderna no plural (embora os autores romanos falassem sobre a Estrada da Seda); por isso, é mais coerente não falar de uma única rota, porque o rótulo é abstrato. Não existe uma Rota da Seda, como sinónimo de uma autoestrada que liga dois pontos, apesar de, infelizmente, os mapas e os historiadores superficiais gostarem de afirmar que se trata de uma rede que ligava a China e a Europa. E é nesse sentido que o plural ajuda, pois deixa claro que existiram e existem muitas redes. E, aliás, ao usar o plural, isso faz-nos perceber que o intercâmbio não é apenas de leste para oeste, como alguns querem fazer parecer. Eu estou interessado nas ligações locais das Rotas da Seda, bem como nas ligações norte/sul e sul/norte.
O comércio é, naturalmente, um dos motores da História, tal como muitas outras coisas – religião, clima, alimentação, género e doenças. Todas estas são coisas que me interessam e sobre as quais trabalho. O comércio ocupa, naturalmente, um lugar especial, pois tem motivações e impactos específicos e também nos deixa coisas que, como estudiosos, podemos medir – moedas, artefactos, listas, etc.
As expedições marítimas no final do século XV, particularmente as dos navegadores portugueses, foram decisivas para deslocar o centro do mundo para a Europa? Com que consequências?
É tentador ver as viagens do final do século XV como um único e dramático ponto de viragem que mudou o centro do mundo para a Europa, como se isso tivesse acontecido de um dia para o outro. Na realidade, a mudança ocorreu muito mais lentamente. As expedições portuguesas pela costa ocidental de África e pelo oceano Índico basearam-se em décadas de experimentação, recolha de informações, espionagem e acumulação de conhecimento, bem como de avanços incrementais na construção naval e na navegação. No entanto, em conjunto, o impacto foi profundo. Ao contornar o cabo da Boa Esperança e explorar as artérias comerciais do oceano Índico, figuras como Vasco da Gama ligaram a Europa diretamente a mundos comerciais que há muito eram dominados por comerciantes muçulmanos, africanos e asiáticos.
O resultado das explorações marítimas foi uma profunda redistribuição de oportunidades e de riqueza. Lisboa e, em seguida, outras cidades e portos da Europa, tornaram-se centros de um novo sistema global. Metais preciosos, especiarias e têxteis fluíram em quantidades sem precedentes, ajudando a alimentar a ascensão de Estados centralizados e dinastias ambiciosas. Mas esta não foi uma história triunfal para todos. A Era dos Descobrimentos deu início a uma era de escravidão, conquista, exploração e mortalidade em massa: na América Central, a população indígena diminuiu 80% no século XVI como resultado da violência, de doenças, de excesso de trabalho e de fome. Comunidades, da África Ocidental ao oceano Índico e às Américas, pagaram um preço terrível, enquanto outras encontraram maneiras de lucrar com a nova ordem – e não apenas na Europa. Novas conexões enriqueceram as elites costeiras africanas e os governantes asiáticos, além de ajudarem a financiar palácios, arte e música na Europa.
Também argumenta que, desde a Renascença, a narrativa histórica foi distorcida na Europa para criar a ilusão de que o continente sempre foi o centro do mundo. Ainda continuamos a ser enganados? Acha que essa mesma narrativa tem sido impulsionada, atualmente, pelos partidos populistas?
Durante séculos, os europeus foram contando histórias sobre o passado de forma a colocá-los sempre no centro do mundo. Esse processo iniciou-se na Renascença, quando intelectuais e artistas começaram a olhar para a Grécia e a Roma antigas e criaram uma linhagem lisonjeira que fazia a Europa parecer a herdeira natural dessas civilizações. A realidade é outra: os gregos quase desconheciam a existência de Portugal ou de Inglaterra, mas Atenas e Roma tornaram-se centrais nas nossas narrativas históricas, como se fôssemos herdeiros perfeitos dessas civilizações.
O que se seguiu foi um longo truque intelectual: as conquistas dos outros foram minimizadas, ignoradas ou absorvidas por uma narrativa europeia em constante expansão. O vibrante conhecimento académico que existia em Bagdade, o dinamismo comercial do oceano Índico, os avanços científicos operados da China foram marginalizados, na nossa narrativa histórica, para reforçar a ideia de que a Europa sempre foi o motor do progresso global. A metade do Império Romano no Oriente, que sobreviveu durante mil anos, também foi excluída, renomeada como Bizâncio e descartada como irrelevante, “efeminada” e inútil. De tal forma que bizantino é hoje uma palavra pejorativa, usada para sugerir coisas que são excessivamente elaboradas e complicadas sem motivo. Embora tenha sido um dos Estados mais bem-sucedidos e sofisticados da História.
Ainda hoje vivemos com essas distorções: os currículos escolares e o debate público geral giram frequentemente em torno de ideias que elevam a experiência da Europa, tratando o resto do mundo como pano de fundo ou com um papel secundário. Quem consegue dizer o nome do Presidente da Nigéria ou do da Indonésia, países com uma população combinada maior do que a Europa? Quem consegue nomear um filme ou uma estrela pop famosa da China? Quem é que sabe quem é a pessoa mais famosa da História do Irão? Ou o poeta árabe mais importante? Quem não consegue responder a estas perguntas não pode, provavelmente, proferir afirmações fiáveis e fundamentadas sobre os assuntos globais dos nossos dias.
Hoje, o centro do mundo ainda está no mesmo lugar de quando lançou o seu livro, há dez anos, ou mudou-se mais para leste?
Quando As Rotas da Seda foi lançado, já era claro que o centro de gravidade estava a inclinar-se para a Ásia. Essa mudança, entretanto, só se acelerou. Hoje, as economias mais dinâmicas do mundo, as cidades que mais crescem e muitos dos projetos políticos mais ambiciosos estão a leste da Europa – do Golfo ao sul e ao sudeste da Ásia, e em direção à China. Quem são os vencedores da Liga dos Campeões de futebol? O Paris St. Germain, cujos proprietários são do Catar. Qual é a melhor equipa de Inglaterra? O Manchester City, propriedade dos Emirados Árabes Unidos. Quais são as melhores companhias aéreas? Infelizmente, não são as nossas, na Europa. Quais são as populações mais entusiasmadas com o futuro? Mais uma vez, não são as da Europa. Não é que não tenhamos bons resultados na Europa em áreas como a energia limpa ou progressos em materiais avançados, semicondutores ou computação quântica. Mas os nossos bons resultados são insignificantes em comparação com o que se passa na Ásia.
Tarifas, política industrial, alianças de segurança e estratégia tecnológica são as ferramentas que irão moldar a nova ordem mundial, não as frases feitas de políticos idealistas, muitos dos quais nunca tiveram um emprego a sério
E, claro, o poder global mudou. Cidades como Riade ou Mumbai, Jacarta ou Shenzhen dominam os debates globais sobre tecnologia, segurança e clima. A Europa e os EUA continuam a ser extremamente influentes, mas já não ditam o ritmo como antes. O mundo está mais plural, mais competitivo e muito mais interligado do que há dez anos.
O futuro será inevitavelmente dominado pela China e pela Índia, os dois países mais populosos do mundo? Ou vê outros possíveis participantes?
As previsões sobre o futuro são sempre tentadoras, mas também podem ser enganadoras. A China e a Índia serão, naturalmente, atores centrais do futuro: as suas populações, economias e ambições diplomáticas em expansão conferem-lhes um peso extraordinário. No entanto, ambas enfrentam desafios internos formidáveis – tais como o envelhecimento da população, o abrandamento do crescimento, as pressões ambientais, as desigualdades regionais e as tensões dentro das suas elites políticas. Nunca serei um daqueles comentadores que falam da inevitabilidade do futuro.
Como historiador, também estou plenamente consciente de que os maiores choques tendem a vir de direções inesperadas: pandemias, crises financeiras, revoluções energéticas, guerras e avanços científicos. Portanto, embora a China e a Índia sejam extremamente importantes, o futuro será moldado por um elenco muito mais amplo de atores e por surpresas que não estamos a imaginar. E esses são os temas que, atualmente, ocupam grande parte do meu trabalho.
Com a sua guerra tarifária e a política “America First”, Donald Trump está a tentar moldar a ordem mundial ou apenas a reagir e a defender-se de uma mudança global que escapa ao seu controlo?
Na sociedade educada da Europa, a opção mais fácil é rir de Donald Trump – dos insultos, do caos e da sua amargura por não ter recebido o Prémio Nobel da Paz. Mas é um erro focarmo-nos no tom em vez de na substância. O que importa não é o que Trump diz, mas o que os EUA realmente fazem. E não há dúvida de que Trump está a tentar proteger e promover os interesses americanos, tanto no país como no exterior. Isso não é surpreendente nem, em si mesmo, irracional: todas as nações tentam inclinar o mundo a seu favor.
Bem, eu digo isso em relação a muitos países e regiões, mas não estou convencido de que pensemos dessa forma hoje na Europa, onde na, maior parte das vezes, limitamo-nos a tagarelar sobre “valores” e sobre como somos esclarecidos. A Europa não tem uma visão coerente do seu próprio futuro, seja como um grupo de países ou individualmente. Consolamo-nos com a ideia de que o comércio e a ordem baseada em regras e palavras calorosas sobre a diversidade serão, de alguma forma, suficientes para navegar num século muito mais competitivo. Tenho as minhas dúvidas. Tarifas, política industrial, alianças de segurança e estratégia tecnológica são as ferramentas que irão moldar a nova ordem mundial, não as frases feitas de políticos idealistas, muitos dos quais nunca tiveram um emprego a sério.
Quanto aos EUA, devemos prestar atenção à forma como Trump retirou os EUA dos acordos climáticos, da Organização Mundial da Saúde e efetivamente acabou com o envolvimento sério com os órgãos da ONU. Ele está certo? Bem, deixarei que outros decidam. Mas devemos perguntar-nos sobre quais são as organizações globais que realmente funcionam bem – ou se somos grandes hipócritas. Veja o Acordo de Paris de 2015: nenhum dos 20 maiores produtores de emissões de carbono cumpriu as suas promessas. Um deles foram os EUA, mas muitos dos que se riem de Donald Trump não estão a fazer a parte que lhes competia. Isso ficou claro, por exemplo, na questão da NATO e do seu financiamento.
Ao longo do livro, descreve a ascensão e a queda de grandes impérios que controlavam as rotas comerciais e de conhecimento. Encontra algum fator comum no declínio dessas potências imperiais?
Um padrão marcante no declínio dos impérios é que raramente eles caem devido a um único golpe ou a um colapso maciço. Mais frequentemente, o declínio demora tempo e é o resultado da acumulação constante de várias pressões: falta de controlo dos orçamentos, queda nas receitas, custos crescentes com a defesa e a tensão de manter unidas populações diversas com interesses concorrentes. Choques ambientais como secas, doenças ou erupções vulcânicas frequentemente desempenharam um papel importante, assim como as mudanças nas rotas comerciais que drenam receitas e influência. Mas talvez o traço mais comum para a queda dos impérios seja a inércia e a complacência. As potências bem-sucedidas muitas vezes assumem que o mundo continuará a mover-se na sua direção, e depois são surpreendidas quando os rivais inovam mais rapidamente ou se adaptam de forma mais eficaz do que elas à mudança. É como um medicamento: se não o tomar, morre. Se tomar decisões difíceis, passa por momentos difíceis, mas pode recuperar. Olhem para Portugal e para a Grécia hoje: a crise financeira foi devastadora para vocês e para os gregos, mas obrigou a reformas que agora estão a dar frutos.
Num mundo em que o centro de gravidade está a deslocar-se para países com governos autocráticos, receia um declínio ainda mais acentuado dos ideais democráticos europeus?
Depende do que se entende por ideais democráticos. Quando as pessoas falam dos ideais democráticos europeus, geralmente referem-se a coisas boas que nos fazem sentirmo-nos bem connosco próprios – respeito, igualdade e coisas do género. Mas os ideais democráticos europeus estão por trás do Holocausto: Hitler foi eleito para o poder, 99,7% dos austríacos votaram a favor da união com a Alemanha nazi. Os “ideais democráticos europeus” escondem o facto de que a homossexualidade era ilegal em Portugal até 1982. O direito ao divórcio tem apenas pouco mais de cem anos. A questão da igualdade das mulheres – que representam metade da população – é mais recente do que o ano em que eu nasci. É muito fácil sentirmo-nos satisfeitos connosco mesmos e pensarmos que fazemos as coisas certas, e que as autocracias não. Eu aconselho a sermos um pouco mais modestos sobre como pensamos sobre nós mesmos e um pouco mais generosos acerca do que pensamos sobre os outros.
Ao longo dos séculos, as ideias e o conhecimento foram transportados pelas mesmas rotas utilizadas para o comércio. Acha que isso continua a ser verdade na era da internet e da Inteligência Artificial, ou veremos, pelo contrário, um maior encerramento do debate e do fluxo de ideias por parte daqueles que controlam as empresas de tecnologia?
As ideias sempre pulsaram ao longo das rotas e conexões esculpidas pelo comércio e pelo poder, e em muitos aspetos isso continua a ser verdade hoje em dia. A internet e a Inteligência Artificial amplificam a velocidade e a escala do intercâmbio de maneiras inimagináveis, há apenas uma geração. Mas as mesmas tecnologias que nos conectam também podem restringir-nos. O controlo sobre plataformas, algoritmos e dados dá uma influência extraordinária a um pequeno número de empresas e governos, com a capacidade de beneficiar algumas vozes enquanto suprime outras.
Escrevi muito sobre patógenos e pandemias. Acho interessante que, mesmo com computadores, falemos de “vírus” – e percebamos que a forma como estamos conectados nos permite partilhar fotos de família uns com os outros ou trabalhar a partir de casa. Mas também permite o crime cibernético e a fraude. Compreender a conectividade é realmente importante. Essa é uma das razões pelas quais estou a trabalhar muito neste momento em redes digitais e vulnerabilidades. Sem energia nem dados, a IA não funciona, posso garantir.
Termina o seu livro afirmando que, nestes tempos de sucessivas revoluções e grande turbulência em que vivemos, saber identificar os desafios é extremamente importante. Quais são os desafios que identifica como prioritários?
Muitos dos desafios atuais estão interligados. As alterações climáticas são o mais óbvio: não se trata apenas de uma crise ambiental, mas de um fator que impulsiona a migração, a insegurança alimentar, a instabilidade política e a perturbação económica. A tecnologia é outro desafio, remodelando tudo, desde a guerra ao emprego, mais rapidamente do que as sociedades conseguem adaptar-se. As pressões demográficas, incluindo o envelhecimento nalgumas regiões, mais o rápido crescimento populacional noutras, significam que diferentes povos e lugares têm diferentes questões a responder. E por trás de tudo isso está uma questão mais profunda de confiança: confiança nas instituições, na expertise e uns nos outros. Isso também é algo que me preocupa hoje.
Se pudesse dar a um político português uma lição da História que fosse importante para o futuro, qual escolheria?
Vou sugerir duas. Abdique de umas horas de trabalho para ler livros e pensar. O tempo é precioso, mas o tempo para pensar é ainda mais valioso. E, segundo: procure pessoas que tenham perspetivas e habilidades diferentes e crie uma maneira, formal ou semiformal, de ser bombardeado com ideias. Fiz isso nalguns lugares e tem sido incrível ver os resultados que produziu. Ou talvez não seja incrível: a História tem, de facto, tantas lições a ensinar. Mas é preciso estar interessado – e disponível para as ouvir.