A História pode não se repetir, fielmente, mas acaba sempre por ter muitas semelhanças em diversos períodos. Os romanos, por exemplo, eram fascinados pelos seus antepassados. E, muitos séculos depois, “nós também temos um fascínio semelhante pelos nossos antepassados romanos”, conforme explica quem, através de vários livros e de muitos anos de estudo, sabe realmente daquilo que fala: o canadiano Ross King, de 63 anos, que acaba de publicar em Portugal o livro Breve História da Roma Antiga (edições Presença). E tem uma explicação para isso: “Eles ajudam-nos a compreender de onde viemos.” Essa é, aliás, uma das funções dos historiadores e dos divulgadores da História: ajudar os seus contemporâneos a compreender melhor o mundo em que vivem, com base naquilo que fizeram os seus antepassados. No caso da Roma Antiga, como explica o também autor de livros sobre Maquiavel, Leonardo da Vinci e a cidade de Florença (onde promove, por vezes, passeios históricos e turísticos, como guia), há razões suplementares para o nosso fascínio acerca daquele que foi um dos maiores impérios sobre a Terra: “Grande parte do nosso mundo – as nossas instituições políticas, os nossos edifícios e, claro, a nossa língua – foi moldada pelos romanos.” Esta entrevista acaba, assim, por se tornar uma viagem ao passado com grandes repercussões no nosso presente – e, porventura, também no nosso futuro coletivo.
Qual é a maior dificuldade – mas também o desafio – de tentar condensar séculos de História numa narrativa breve, mas precisa? Quais são os principais factos e ideias que pretende transmitir ao leitor?

Breve História da Roma Antiga
Desde os mitos que contam a fundação de uma cidade que se tornaria lendária até ao dramático declínio do império, o livro de Ross King ajuda a explicar a história surpreendente da Roma Antiga – uma das civilizações mais fascinantes da História.
Condensar centenas de anos de História num livro curto é certamente um desafio. Em muitos aspetos, teria sido mais fácil escrever uma história “mais longa” da Roma Antiga, porque isso exigiria uma seleção e uma curadoria muito menos cuidadosas. Mas não teria sido mais fácil para o leitor! O que eu queria fazer era dar às pessoas uma noção de quem eram os romanos, por que tiveram sucesso e o que funcionou (ou não funcionou) para eles. Queria analisar o seu legado – por que razão é importante estudar os romanos se queremos compreender-nos a nós próprios, à nossa própria cultura e às nossas instituições. Mas também espero dar aos leitores descrições, tão vívidas quanto possível, das personalidades envolvidas – não apenas os imperadores, mas também as pessoas comuns, como escravos e mulheres.
Por que razão a Roma Antiga continua a fascinar leitores e historiadores ao longo dos tempos?
O historiador Políbio escreveu, no século II a.C., que era impossível não se interessar por um povo que havia conquistado a maior parte do mundo conhecido. O mais surpreendente é que ele escreveu isso mais de um século antes de os romanos fazerem conquistas ainda maiores. A proeza militar romana e a liderança inspirada (ou, nalguns casos, a liderança enlouquecida de imperadores como Calígula ou Nero) são algo que sempre nos fascinará. Mas também nos interessamos pelos romanos porque grande parte do nosso mundo – as nossas instituições políticas, os nossos edifícios e, claro, a nossa língua – foi moldada por eles. Os romanos eram fascinados pelos seus antepassados, cujos retratos mantinham nas suas casas. E nós temos um fascínio semelhante pelos nossos antepassados romanos. Eles ajudam-nos a compreender de onde viemos.
Para as superpotências modernas, Roma oferece uma parábola moral e política: os impérios caem quando a ambição supera os princípios e quando a cidadania deixa de inspirar sentimentos de responsabilidade mútua
Os muitos livros e filmes ficcionais sobre esse período ajudaram a explicar a História ou, em muitos casos, contribuíram para a perpetuação de mitos e falsidades?
Adoro filmes e romances sobre a Roma Antiga e, na maioria dos casos, os escritores fizeram uma pesquisa cuidadosa das fontes – os historiadores antigos que escreveram sobre Roma. O único problema é que muitos desses historiadores antigos eram terrivelmente tendenciosos, e é muito fácil acreditar que os seus relatos horríveis e escandalosos (sobre Calígula, Nero ou Cómodo, por exemplo) são a verdade nua e crua, em vez do que, em muitos casos, eram esses escritos: propaganda. Às vezes, eles fazem-me pensar na grande citação de Oscar Wilde: “Dar uma descrição precisa do que nunca aconteceu é a ocupação adequada do historiador.” Mas muitas dessas histórias são simplesmente boas demais – ou horríveis demais – para não serem contadas.
Na sua opinião, quais foram as chaves para o êxito de Roma na transição de cidade-Estado para império?
O sucesso de Roma na expansão baseou-se menos na conquista militar do que na genialidade da incorporação. Em vez de simplesmente subjugar os povos derrotados, Roma vinculou-os a si mesma, através de um sistema flexível de alianças e de cidadania graduada. As comunidades conquistadas mantiveram as suas instituições políticas e religiosas locais e, em troca, foram obrigadas a fornecer tropas e a pagar impostos. Com o tempo, a identidade romana tornou-se um privilégio político, em vez de algo relacionado com a etnia ou com o direito de nascença. Essa inclusão criou um vasto grupo de soldados e administradores pessoalmente interessados no sucesso romano. Antigos inimigos tornaram-se partes interessadas na sociedade romana.
O sistema jurídico romano, com os seus princípios de equidade, precedentes e direitos codificados, tornou-se a base do direito civil europeu e continua a moldar a jurisprudência moderna
Qual foi o papel da organização militar e da engenharia na consolidação do poder romano?
A ascensão de Roma era indissociável da sua organização militar e do seu génio de engenharia, ambos ligados entre si. A legião romana, por exemplo, não era apenas uma força de combate, mas funcionava como um sistema móvel de construção. As legiões eram capazes de construir estradas, pontes, fortificações e obras de cerco. A disciplina, o treino e a adaptabilidade permitiam-lhes operar durante todo o ano e manter os territórios conquistados em segurança. A Via Ápia, iniciada em 312 a.C., para ligar Roma a Cápua e, mais tarde, a Brindisi, exemplificou como as infraestruturas serviam tanto para controlo militar como administrativo: permitiam a rápida movimentação de tropas, abastecimentos e informações, unindo Itália sob o domínio romano. Redes semelhantes estenderam-se por todo o império, com marcos, aquedutos e acampamentos fortificados a perpetuar a impressão física da ordem romana. A engenharia e o exército trabalharam, assim, em conjunto, criando uma estrutura duradoura de comunicação e controlo que sustentava a unidade política e cultural de Roma.
Em que medida o pragmatismo político de Roma explica a sua longevidade?
Roma teve uma longevidade extraordinária, se considerarmos a data tradicional da fundação da República Romana como 509 a.C. e a queda de Roma como 476 d.C. Este extraordinário período deveu–se em grande parte à capacidade de adaptar as instituições às novas realidades sem abandonar as tradições reverenciadas. O sistema da república inicial de magistraturas partilhadas, travões e contrapesos e eleições anuais promoveu o compromisso e impediu a tirania, enquanto a autoridade do senado garantiu a continuidade durante as mudanças. Quando a expansão pressionou a velha ordem, Roma absorveu pragmaticamente novos povos através de alianças, colónias e extensão da cidadania. Até mesmo os conflitos civis produziram inovação: a criação do principado, por Augusto (em que o imperador detinha a autoridade suprema, mas mantinha as instituições da antiga República Romana, como o senado), preservou as formas republicanas, ao mesmo tempo que forjou a estabilidade imperial. Essa disposição para reformular instituições antigas sob novas formas permitiu que Roma sobrevivesse a mudanças que teriam destruído Estados mais rígidos. A estabilidade para os romanos não veio de ideais imutáveis, mas de instituições flexíveis o suficiente para se adaptarem e acomodarem.
Quais foram as contribuições mais duradouras da Roma Antiga para a nossa organização social, cultural, jurídica e política?
Quanto tempo temos? Há tantos legados… Mas talvez o legado mais duradouro de Roma resida nas suas instituições de direito, cidadania e ordem cívica. O sistema jurídico romano, com os seus princípios de equidade, precedentes e direitos codificados, tornou-se a base do direito civil europeu e continua a moldar a jurisprudência moderna. Politicamente, a constituição mista de Roma – combinando monarquia, aristocracia e democracia – influenciou profundamente pensadores posteriores, de Cícero a Maquiavel e Montesquieu, bem como os fundadores de repúblicas modernas, como os Estados Unidos da América. Depois, há a estrutura das nossas cidades. Os romanos introduziram instituições, como o fórum, os banhos públicos e o anfiteatro, que definiram a vida pública como uma esfera partilhada e regulamentada. Por fim, a língua. A grande maioria do vocabulário e da estrutura gramatical das línguas românicas, como o português e o espanhol, deriva do latim.
A Roma imperial forneceu o arquétipo para quase todos os impérios que se seguiram. A sua combinação de autoridade central, administração provincial e autonomia local ofereceu um modelo duradouro de controlo sobre vastos territórios
Que papel desempenharam as mulheres e as classes mais baixas na construção da Roma que conhecemos?
Infelizmente, os escravos estiveram envolvidos na construção de grande parte da Roma que conhecemos hoje. No século I a.C., na época da fundação do Império Romano, um terço de toda a população da península italiana era escrava. Trabalhavam em casas, quintas, minas e oficinas e eram essenciais para a construção de arquitetura monumental, como o Coliseu, os banhos e os aquedutos. Escravos qualificados podiam tornar-se arquitetos, professores ou secretários, e alguns, após a alforria, alcançaram prosperidade como livres. Mas a vida de muitos era mais do que hedionda.
As mulheres, tal como os escravos, eram indispensáveis para o funcionamento da sociedade romana, embora fossem em grande parte excluídas do poder formal. Apesar de lhes terem negado direitos políticos, as mulheres exerciam influência dentro da família e por meio da riqueza, do patrocínio e da religião. Matronas como Cornélia, mãe dos Gracos, Tibério e Caio, eram elogiadas pela sua virtude e pela sua educação, enquanto mulheres imperiais como Lívia, Agripina e Júlia Domna exerciam autoridade política genuína nos bastidores, moldando a sucessão dinástica e a imagem pública.
A organização da Roma imperial foi um modelo seguido por impérios posteriores?
A Roma imperial forneceu o arquétipo para quase todos os impérios que se seguiram. A sua combinação de autoridade central, administração provincial e autonomia local ofereceu um modelo duradouro de controlo sobre vastos territórios. Os governantes posteriores – de Carlos Magno e dos imperadores do Sacro Império Romano aos sultões otomanos – olharam para Roma em busca de legitimidade e governança prática. Os políticos e escritores britânicos dos séculos XVIII e XIX invocaram repetidamente Roma como o espelho histórico da Grã-Bretanha. O historiador Thomas Babington Macaulay elogiou a disciplina e o dever romanos como modelos para a virtude britânica. Nos Estados Unidos da América, Samuel Adams afirmou orgulhosamente que, ao lutar contra os britânicos, os americanos tinham descoberto “o espírito de Roma”. Na década de 1790, Jenkins Hill, em Washington DC, foi rebatizada Capitol Hill – uma ligação óbvia entre a nova república americana e a Roma Antiga.
Quais foram as principais razões para a queda do Império Romano?
Mais uma vez, quanto tempo temos? Um historiador alemão na década de 1980 contou 210 razões diferentes apresentadas em várias fontes – tudo, desde terramotos e pragas até gula e hedonismo. Não havia uma única razão, é claro. O declínio e a queda foram o resultado de múltiplas causas, entre as quais se destacam a ascensão do cristianismo, invasões de tribos como os ostrogodos e os vândalos e uma liderança deficiente. Recentemente, os historiadores têm-se interessado pelo papel desempenhado pelo clima. Estudos sobre glaciares, estalactites e sedimentos marinhos sugerem que o império cresceu e declinou de acordo com as condições climáticas. Certos eventos climáticos adversos e imprevisíveis levaram a uma série de problemas económicos e políticos incontroláveis.
Muitos observadores veem semelhanças entre o declínio romano e os desafios contemporâneos no Ocidente. Até que ponto essa comparação é válida?
Bem, as comparações entre o declínio de Roma e os desafios enfrentados pelo Ocidente moderno são tentadoras, mas devem ser tratadas com cautela. Frequentemente são traçados paralelos: recursos sobre-explorados, imigração em massa, polarização política, desigualdade económica e perda da virtude cívica. Tal como a Roma tardia, as sociedades contemporâneas podem parecer sobrecarregadas pela burocracia, distraídas pelo luxo e divididas por fações rivais. No entanto, as analogias resistem à simplificação excessiva. A queda de Roma foi precipitada pela fragilidade estrutural num mundo pré-industrial. O “declínio” atual desenrola-se num contexto global e tecnológico muito distante do que existia no antigo Mediterrâneo. Ainda assim, a lição moral permanece: o enfraquecimento do propósito comum e da cidadania em Roma oferece um aviso contra a complacência e a divisão. A comparação é válida menos como previsão histórica do que como metáfora cultural: a prosperidade e a estabilidade dependem, para nós como para os antigos romanos, da renovação da coesão cívica que sustenta sociedades complexas.
O estudo de Roma serve principalmente como um exemplo do que preservar ou corrigir na nossa civilização? E é uma lição para todas as superpotências?
As conquistas de Roma em direito, cidadania, engenharia e governança continuam a ser os alicerces estruturais da civilização ocidental. No entanto, Roma também ensina o que o poder descontrolado, a complacência e a desigualdade grosseira podem destruir. O declínio de Roma não resultou apenas da invasão, mas da erosão do propósito comum e do aumento do fosso entre ricos e pobres. Para as superpotências modernas, Roma não oferece um modelo simples, mas uma parábola moral e política: os impérios caem quando a ambição supera os princípios e quando a cidadania deixa de inspirar sentimentos de responsabilidade mútua. Estudar Roma é, em última análise, estudarmo-nos a nós próprios – aprender como uma civilização pode alcançar a grandeza e como a força do poder reside, em última análise, na renovação da virtude cívica.