Salazar justificava a tortura por parte da PIDE, a polícia política que criou em 1933, com um conceito quase cómico, para lá de falso: “Meia dúzia de safanões a tempo para impedir outros males.” A referência está na nova obra do jornalista e escritor José Pedro Castanheira, 73 anos, Histórias da PIDE – Quando Salazar Mandava Vol. 1 (ed. Tinta da China, 320 págs., €19,90), já nas livrarias. Foram 29 510 as prisões políticas feitas pela PIDE. E, no entanto, ocorre agora “uma tentativa de leitura da ditadura do Estado Novo, e do salazarismo, muito própria, como se não tivesse havido polícia política, censura, um único partido político autorizado, repressão, prisões, assassínios políticos, proibição das mais elementares liberdades que temos hoje em dia, uma repressão feroz ao sindicalismo, aos direitos à greve, de manifestação, aos mais básicos direitos laborais”, diz o autor nesta entrevista à VISÃO. A inicial PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), que depois da II Guerra Mundial passou a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), “batia em tudo o que mexia”, acrescenta José Pedro Castanheira, que neste livro reúne seis grandes reportagens que publicou no semanário Expresso entre 1998 e 2025, com algum trabalho de reescrita para as tornar “mais completas, mais acessíveis, mais claras e mais didáticas”, sobretudo para as novas gerações. Calouste Gulbenkian, Rosa Casaco, Craveiro Lopes e Eurico Dias Nogueira são as figuras de que se fala nesta entrevista. O jornalista e escritor já prepara para publicação no próximo ano o segundo volume, aí “quando Marcelo Caetano mandava” e, numa operação de cosmética, a PIDE passou a chamar-se DGS (Direção-Geral de Segurança). “Com a Guerra Colonial, o braço da PIDE chegou a África e foi muito mais brutal”, antecipa.
Tinha em mente o projeto deste livro há muito, ou diria que foi mais desencadeado e agora concretizado por causa da amplificação do discurso, associada ao crescimento da extrema-direita entre nós, de branqueamento da ditadura salazarista do Estado Novo?
Este livro resulta da confluência de dois fatores, e um deles tem que ver com a atualidade política e cultural. O primeiro fator é o resultado da consciência que fui tomando nos últimos anos, muito por influência de amigos meus, sobretudo historiadores, investigadores e jornalistas, que me chamaram a atenção para o facto de eu, na minha carreira profissional, sobretudo no Expresso, ter feito muita investigação sobre o Estado Novo – e não só, mas para o caso é o que interessa. E que essas reportagens estavam relativamente “desaparecidas”, no sentido em que os trabalhos jornalísticos têm um período de vida muito reduzido. Surgiu então a ideia de reunir em livro vários trabalhos que fui publicando ao longo dos anos. Em 2023, publiquei um livro a que dei o nome de Os Últimos do Estado Novo, também na Tinta da China, que tem que ver igualmente com a ditadura, e que reuniu grandes reportagens que fui publicando sobre acontecimentos e personagens, e em que o traço comum é a sua datação – a fase final do regime. Por exemplo, o último diretor do campo de concentração do Tarrafal, que fui entrevistar aos EUA, um cabo-verdiano chamado Vieira Fontes. Depois desse livro, fiquei com a sensação de que tinha também muita matéria, suscetível de ser reunida em livro, sobre a PIDE.
Mas nas páginas de apresentação deste livro, e até na badana, sublinha um branqueamento em curso do aparelho repressivo da ditadura do Estado Novo…
Esse é o segundo fator, que tem que ver com a atualidade. O País está a conhecer uma nova realidade política, que é inquestionável, muito ditada até por influências internacionais, mas também por uma tentativa de leitura, de interpretação, de abordagem da nossa História recente, e em particular da ditadura do Estado Novo, e do salazarismo, muito própria. Há de facto gente, e cada vez mais, o que é muito preocupante, que tem “saudade” do antigo regime, do Estado Novo, a partir de uma visão que chega a ser falseadora da realidade. Como se não tivesse havido polícia política, censura, um único partido político autorizado, repressão, prisões, assassínios políticos, proibição das mais elementares liberdades que temos hoje em dia, uma repressão feroz ao sindicalismo, aos direitos à greve, de manifestação, aos mais básicos direitos laborais, e por aí adiante. É uma leitura absolutamente falsa dos 48 anos de ditadura que nós vivemos, e que eu próprio ainda vivi: no 25 de Abril de 1974, tinha 21 anos. E, sobretudo, como se não tivéssemos tido uma Guerra Colonial, ou melhor, três guerras coloniais, brutais, violentas, e completamente à margem da evolução natural histórica quanto aos direitos dos povos à autodeterminação e à independência. Essa leitura levou-nos, a mim e à editora, a perceber que livros deste género, como Os Últimos do Estado Novo, mas agora também, em particular, este sobre a PIDE, ganham uma atualidade insuspeitada. Importa que tenhamos consciência do que, de facto, era o antigo regime e, em particular, neste caso, do que era a sua polícia política. A determinada altura, faço no livro uma referência à forma como Salazar justificou, por exemplo, a tortura por parte da PIDE. Falava em “meia dúzia de safanões a tempo para impedir outros males”. Isto, de facto, é uma leitura quase que diria cómica, além de falsa. A PIDE – e penso que este livro é muito claro nessa matéria – batia em tudo o que mexia. O objetivo da polícia política não se resumia apenas aos movimentos, ou aos partidos, ou às figuras da oposição comunista ou anarquista, considerados “terroristas”. O primeiro capítulo deste livro relata a prisão de um homem chamado Calouste Gulbenkian…
A esse propósito, ainda nas páginas de apresentação do livro, adjetiva a então PVDE como “burgessa”. E, no entanto, escreve mais à frente, já nas diversas reportagens que o livro apresenta, que a polícia política tinha uma “máquina bem oleada”, desde informadores à repressão física, propriamente dita…
O episódio da detenção de Calouste Gulbenkian é completamente absurdo. A PIDE já era uma instituição grande – nessa altura, em 1942, existia há quase uma década – e foi sempre crescendo, engordando. Mas também se foi aperfeiçoando, modernizando, de acordo até com influências de serviços de informações de outros países, na sua formação, na sua cultura própria de polícia política. A PIDE foi-se adaptando aos novos tempos, a novas técnicas, a novas formas de acesso à informação, e aperfeiçoando-se no seu objetivo principal, que era reprimir e assegurar a sobrevivência do Estado Novo. Mas na origem é uma polícia muito brutamontes. Por exemplo, Rosa Casaco, que chefiou a brigada que assassinou Humberto Delgado, não tinha sequer a instrução primária, era um self-made man. Grande parte dos quadros iniciais da polícia política, da PVDE, era gente que não tinha qualificações, recrutada sabe-se lá como.
E que sorte o País teve, quando Calouste Gulbenkian, que então ainda estava há poucos meses em Portugal, decidiu “perdoar” a humilhação que a PVDE lhe infligiu, e continuar a residir em Lisboa. Senão, lá se ia a Fundação com o seu nome, que tão importante foi e é…
É verdade. A gente mais clarividente e lúcida do Estado Novo percebeu esse erro brutal, essa humilhação cometida perante Gulbenkian, e tratou de tentar apagar esse episódio. Da prisão de Gulbenkian não há qualquer pista nos arquivos portugueses: nem no de Salazar, nem no da PIDE, nem no do Ministério dos Negócios Estrangeiros [MNE], nem nos vários arquivos das cadeias nacionais. Mas, logo a seguir à prisão, Gulbenkian escreveu uma longa carta de três páginas ao então diretor da PVDE, o capitão Agostinho Lourenço, e guardou uma cópia dessa carta nos seus arquivos pessoais. Desconhecia-se a existência dessa carta, que está neste momento no arquivo da Fundação Gulbenkian, e que foi referenciada aquando da publicação, em 2018, de uma biografia autorizada de Gulbenkian. Depois, fiz uma investigação que desenvolveu bastante o assunto, e publiquei a reportagem 76 anos após o episódio ter ocorrido.
O “apagão” ainda durou quase 80 anos, mas soçobrou…
É inacreditável esse episódio. Gulbenkian foi levado por agentes da PVDE como se tivesse sido um ladrão. Foi transportado num carro celular para o que designou de “Prison Centrale” de Lisboa [provavelmente a Penitenciária], coagiram-no a assinar um documento, ele que não sabia português, que só estava escrito em português, recusaram-lhe que telefonasse à família, ao seu advogado, Azeredo Perdigão, ao seu médico pessoal, Fernando Fonseca, recusaram que, sendo ele cônsul do Irão, telefonasse a outros diplomatas, tiraram-lhe as fotografias convencionais, puseram-no num sítio absolutamente miserável… E apesar de tudo, Gulbenkian foi capaz de perdoar, esquecer, e continuou instalado em Portugal.
Isso há de ter durado um dia inteiro?
Não, foram algumas horas. Entretanto, como é contado no livro, houve um diplomata do Egito que soube desse episódio, que foi a correr ao MNE, e que teve a sorte de ser recebido pelo então jovem estagiário – mais tarde, um dos grandes diplomatas portugueses – Calvet de Magalhães, que estava a trabalhar nessa noite na secção da Cifra, e que percebeu que era um crime de lesa-pátria, no sentido de afrontar os interesses de Portugal. Gulbenkian era, na altura, o homem mais rico do mundo, estava em Lisboa há meia dúzia de meses, fugido da guerra, da vaga nazi que invadia toda a Europa. Veio de França diretamente para Portugal, instalou-se no Hotel Aviz, o melhor de Lisboa à época, tinha reservado uma série de quartos, porque tinha o seu staff, e foi quase que despejado para instalar uns diplomatas espanhóis que tinham vindo a acompanhar o ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Franco numa visita importante a Portugal. Gulbenkian foi tratado dessa forma execrável, e para mim é inexplicável como tolerou isso e continuou a viver em Portugal.
Gulbenkian foi levado por agentes da PVDE como se tivesse sido um ladrão. Foi tratado de uma forma execrável, e para mimé inexplicável como tolerou isso e continuou a viverem Portugal
Além de que também não recolhia a simpatia de Salazar…
Salazar nunca o recebeu. Nos seus diários, nas várias entradas em que se refere a Gulbenkian, trata-o sempre com um manifesto desdém, como “o Gulbenkian”, nunca o trata pelo nome pessoal, Calouste Gulbenkian. Além de nunca o ter recebido, nunca manifestou qualquer empatia, e, uma vez mais, apesar disso, Gulbenkian continuou a viver em Lisboa, e investiu em Portugal quase toda a sua fabulosa riqueza financeira e patrimonial – já tinha uma coleção de arte vastíssima. Isso deve-se a uma figura que vale a pena ser elogiada, que é Azeredo Perdigão, o advogado de Gulbenkian. Foi Azeredo Perdigão quem conseguiu, com toda a sua capacidade de influência e de empatia, convencer Gulbenkian a ficar e a investir em Portugal. Azeredo Perdigão que era um republicano, um homem da oposição.
Até que ponto lhe custou criar com Rosa Casaco uma relação suficientemente empática para que conseguisse a maior “cacha” da sua carreira profissional, que foi a entrevista que lhe fez em 1998?
Acho que não houve nenhuma relação empática entre nós. Conheci-o apenas na entrevista. Consegui foi encontrar uma fonte que me deu acesso a Rosa Casaco. Nem sabia onde é que ele vivia. Rosa Casaco estava fugido do País, tinha sido julgado à revelia e condenado a oito anos de prisão, era procurado pelas autoridades portuguesas e não só – havia um mandado de captura emitido pela Interpol. Imaginava que ele viveria no Brasil. Na verdade, tinha vivido em vários países, desde que tinha saído de Portugal, logo a seguir ao 25 de Abril. Fugiu do País a 27 de abril de 1974. Estava no Porto, na delegação da já então DGS, e os militares deram a possibilidade aos membros da PIDE que ali estavam de fugir. Ao contrário do que aconteceu na sede, em Lisboa, onde foram todos presos, no Porto houve instruções para permitir que saíssem das instalações da PIDE e Rosa Casaco aproveitou esse ensejo para fugir para Espanha. Depois andou por aí, na República Dominicana, no Brasil, em Espanha, não sei se noutros países. Consegui falar com ele, e que desse uma entrevista ao Expresso. Conheci-o em Espanha, no dia da entrevista, em Zafra, uma pequena cidade ao sul de Badajoz, portanto, perto do local em que Humberto Delgado e a sua secretária, Arajaryr Campos, foram assassinados a tiro, em fevereiro de 1965, pela brigada da PIDE chefiada por Rosa Casaco. A reportagem demorou um fim de semana, sexta, sábado e domingo. E, nesse domingo, ele e o fotógrafo, Luiz Carvalho, combinaram uma sessão de fotografias, que decorreu no dia seguinte, segunda-feira. Estamos a falar em janeiro de 1998, e essa sessão foi feita em Lisboa, junto à Torre de Belém.
Se não houve empatia, como conseguiu levar avante a entrevista?
O que houve foi uma grande confiança de Rosa Casaco no meu profissionalismo. Depois, fui criticado por muita gente, designadamente por jornalistas, com alegações de que, em vez de lhe fazer a entrevista, devia tê-lo entregado às autoridades. Houve jornalistas que o disseram e que até o escreveram, que teria feito melhor se o tivesse denunciado, se, quando fui ao encontro de Rosa Casaco, tivesse sido acompanhado pela Polícia Judiciária ou por quem quer que seja. Isso para mim é impensável, é o tipo de crítica com a qual prefiro não perder tempo a refutar. São profissões, missões, papéis completamente diferentes. Sou jornalista, não sou polícia, juiz ou padre. Como jornalistas, o nosso papel é dar informação e essa informação estava ali à minha frente. E Rosa Casaco achou que podia confiar em mim do ponto de vista profissional, que eu iria respeitar as regras deontológicas da profissão, que não iria entregá-lo às autoridades. Percebeu que eu não era bufo.
Na missa do sétimo dia de Craveiro Lopes não há ninguém presente do Estado, do governo, da Assembleia, da Legião. É como se, sete dias depois de morrer, já não existisse. É impressionante a capacidade de Salazar de apagar e de eliminar as figuras que não suportava
Mas também houve situações em que a PIDE nem precisou de exercer qualquer coação física – como no caso, por exemplo, do ex-Presidente da República Craveiro Lopes. Bastou a chantagem para o deixar em pânico e o calar…
Esse episódio de chantagem ao Presidente Craveiro Lopes é, para mim, muito revelador. É talvez dos episódios mais interessantes do livro, porque comprova o que no texto da apresentação procuro demonstrar: ninguém escapava ao raio de ação da PIDE. Muitas vezes somos tentados a ver a PIDE como estando quase exclusivamente atenta a quem era da oposição, política, cultural e sindical. Aqui temos um ex-Presidente da República, que, como todos no Estado Novo, era militar e da escolha pessoal de Salazar. Craveiro Lopes tinha sido o comandante da Legião Portuguesa, foi Presidente durante sete anos sem nunca ter levantado qualquer problema, objeção, crítica, nada. Era um homem cinzento, obediente, disciplinado, leal. No final do mandato começou a, digamos, demarcar-se do regime que servira durante tantos anos, mas muito levemente. Demarca-se em torno de duas áreas essenciais. Uma tem que ver com a censura. Já como ex-Presidente, dá uma entrevista ao Diário de Lisboa, em que defende que a censura estava a ser excessiva. Não põe em causa a existência da censura, mas diz que deve haver alguma liberdade para discutir os problemas do País, que é uma forma, naquele contexto, de criticar a ausência de liberdade de informação e de expressão. O segundo ponto tem que ver com a Guerra Colonial. Craveiro Lopes percebe que o futuro das colónias está em causa e que a Guerra Colonial, se calhar, não é a melhor forma de resolver o problema. Demarca-se da política colonial e defende que o problema do Ultramar, como ele dizia, precisaria de um outro tipo de abordagem. Essas duas críticas acabam por acentuar a vigilância que a PIDE já lhe movia e que irá desembocar num caso impressionante de chantagem de carácter sexual ao ex-Presidente, que tudo indica que virá a custar-lhe a vida, em 1964. Com um problema cardíaco, acabará por morrer no meio desse drama pessoal. Era viúvo e apaixonou-se por uma rapariga que era casada. É normal, é da vida. Houve um namoro às escondidas e, mais uma vez, entra em ação Rosa Casaco, que está presente em vários momentos do livro. Casaco é chamado a fotografar um encontro do ex-Presidente Craveiro Lopes com a sua amiga. E é espantoso como um ex-Presidente, com o passado e o contributo que dera ao regime, é absolutamente humilhado.
Recebe cartas anónimas, provavelmente com as fotos tiradas pelo paparazzo Rosa Casaco…
Pois. A fonte é Manuel José Homem de Mello, que era uma pessoa da confiança pessoal do ex-Presidente. Após a morte de Craveiro Lopes, a vingança de Salazar é impressionante. Recusa-se a conferir-lhe um funeral de Estado. Como se um ex-Presidente da República não tivesse direito, na sua despedida final, a que o Estado o honrasse e lhe agradecesse os serviços prestados. O regime até obriga a família a custear todas as despesas do funeral…
No entanto, Salazar está presente no funeral…
Sim, era especialista em gestos simbólicos. Mas na missa do sétimo dia não há ninguém presente na Igreja da Basílica da Estrela. Nem das Forças Armadas, nem do Estado, nem do governo, nem da Assembleia Nacional, nem da Legião. É como se Craveiro Lopes, sete dias depois de morrer, já não existisse. É impressionante a capacidade de Salazar de apagar e de eliminar as figuras que não suportava.
Surpreendente é a vigilância apertada que a PIDE exerceu sobre D. Eurico Dias Nogueira, que conheceríamos, a partir de 1977, enquanto arcebispo de Braga, como um clérigo muito conservador e da ala mais direitista da Igreja…
O D. Eurico Dias Nogueira que nós conhecemos é talvez das figuras mais conservadoras, para não dizer mesmo reacionárias, da hierarquia religiosa. Basta fazer, por exemplo, uma contraposição face ao então bispo de Setúbal, D. Manuel Martins. Eram o verso e o reverso. E de repente aparece-nos um homem que durante o Estado Novo não dá um passo sem que a polícia não o acompanhe. É extraordinário. Em Moçambique, em Niassa, a PIDE fazia-lhe uma marcação cerradíssima. Mas, antes disso, o ainda jovem padre Eurico Dias Nogueira cai no raio de ação da PIDE devido a uma carta pessoal que escreveu ao então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que tinha escrito na altura, em 1958, a famosa carta a Salazar, depois das eleições em que Humberto Delgado desafiara o regime, em que criticava o estado a que o País tinha chegado. Era uma carta particular a Salazar, que se tornaria famosíssima porque alguém se encarregou, e ainda bem, de a divulgar. E o jovem sacerdote Eurico Dias Nogueira gostou da carta, leu-a, apreciou-a e entendeu que devia escrever uma carta pessoal ao bispo, apoiando-o, elogiando-o, estimulando-o e agradecendo o gesto de coragem que D. António Ferreira Gomes tinha tido. A PIDE, que estava em cima do bispo do Porto, detetou e apanhou essa carta, e, a partir desse momento, Eurico Dias Nogueira nunca mais foi deixado em paz. Sobretudo quando, em 1964, é nomeado bispo, mas para Moçambique, onde vai abrir uma nova diocese em Vila Cabral [atual Lichinga], passando mais tarde por Sá da Bandeira [hoje Lubango], em Angola. Não havia carta que o bispo escrevesse ou recebesse que não fosse vigiada e fiscalizada pela PIDE. Cartas para o Núncio Apostólico, o representante do Vaticano em Portugal, até para Salazar, para o cardeal patriarca de Lisboa, que na altura era D. Gonçalves Cerejeira, para o seu amigo D. António Ribeiro, que viria a ser também cardeal patriarca de Lisboa… É impressionante como a PIDE levava ao extremo esse cuidado de vigiar, de controlar e de policiar, a ponto de detetar e fotocopiar, para depois transcrever, cartas de D. Eurico Dias Nogueira ao próprio Salazar. Há até uma carta ao Núncio Apostólico que a PIDE apanhou e ficou com o original. Mas aí a PIDE volta a ser burgessa, incompetente, excessiva nesse seu cuidado de tudo controlar, impedir e policiar.
Há notícia de que D. Eurico Dias Nogueira protestou contra o cerco que a PIDE lhe montou?
Sim, porque a vigilância é de tal forma incómoda que o bispo está sempre a protestar – e com toda a razão. Havia cartas que demoravam dois e três meses a chegar aos seus destinatários. E, quando chegavam, qualquer pessoa minimamente inteligente percebia que tinham sido abertas. Porque estavam mal coladas, por exemplo. Havia sinais visíveis de manuseamento, de manipulação da correspondência. O bispo percebeu isso e estava sempre a protestar. Aí temos o D. Eurico que depois conheceríamos – a bater com a mão na mesa e a protestar com voz vigorosa. Embora sem efeitos visíveis, porque continuou sempre a ser vigiado. E, no entanto, estava longe de ser um revolucionário.
Supõe-se que até fosse um defensor do império e da manutenção das colónias…
Ele pronuncia-se contra a violência da guerra, contra a pobreza, a miséria em que as populações viviam e contra os excessos cometidos pelos dois lados. Mas critica com vigor a violência praticada pelos militares portugueses, de quem esperaria um comportamento diferente, até devido à cultura, à religiosidade e ao catolicismo das autoridades. No entanto, não lhe encontrei nenhuma posição favorável ou desfavorável à independência ou à autodeterminação de Moçambique e de Angola, neste caso. Portanto, não manifesta uma posição contrária à lógica colonial. Há uma posição crítica da guerra e, sobretudo, do comportamento dos militares portugueses. E, no contexto da guerra, tenta amenizá-la e chega a ter encontros com dirigentes da Frelimo. Mas é insuportável para o regime que um bispo atue dessa maneira. Isso aconteceu também com outros dois bispos, pelo menos em Moçambique: D. Sebastião Soares de Resende, da Beira, e D. Manuel Vieira Pinto, de Nampula, que tinham em relação às colónias uma posição muito mais crítica do que a de D. Eurico Dias Nogueira. Mas a PIDE era implacável com quem ousasse criticar o que quer que fosse. Sobretudo gente saída do próprio regime, como eram os casos de Craveiro Lopes e de Eurico Dias Nogueira.
Fez alguma reescrita das reportagens que estão incluídas neste livro?
Sim. Todas estas reportagens foram trabalhadas, e algumas delas ampliadas, porque tive acesso a mais documentação, como aconteceu, por exemplo, no caso de Gulbenkian. E porque o leitor dos anos 90 não é o leitor dos anos 20 – o atual leitor é menos informado, tem memória mais deficiente –, achei que devia contextualizar, simplificar e completar muita informação. Desse ponto de vista, há um certo trabalho de reescrita – não no sentido de adulterar, alterar ou branquear o que quer que fosse, mas de tornar as reportagens mais completas, mais acessíveis, mais claras e mais didáticas. Gostaria muito que este livro fosse lido, sobretudo, pelas novas gerações.