Começou a fazer programas de rádio aos 9 anos, ambicionava ser professora de Inglês, mas acabou por enveredar pelo estudo da Ciência Política e das Ciências Internacionais. Quando ninguém ligava à Rússia, depois do término da Guerra Fria, Sónia Sénica arriscou fazer um curso em Moscovo e teve a oportunidade de, a partir daí, aprofundar o seu fascínio pelo maior país do mundo. Agora, a investigadora, de 47 anos, que o público conhece pelos seus comentários na CNN, acaba de lançar um livro em que propõe uma nova visão para se compreender o mundo de hoje. Chama-lhe Ordem Tripolar (ed. Planeta), uma designação que reconhece ser polémica, mas que, neste caso, funciona como pretexto para uma conversa sobre a sua carreira e o mundo em que vivemos.
Quando é que começou a olhar para o mundo na ótica das relações internacionais, da geopolítica? Houve algum acontecimento que tenha feito despertar o seu interesse ou foi apenas simples curiosidade?
Não estava a contar com estas questões pessoais, mas agradeço o interesse. Até porque é uma história engraçada, que começa quando estava a terminar o Secundário e a minha professora de História, Maria José, me deu um flyer, um folheto, sobre um novo curso de Ciência Política e Relações Internacionais, que ia abrir na Universidade Nova de Lisboa. Ela considerou que poderia ser o curso indicado para mim.
Mas nunca tinha pensado nisso?
Eu queria ser professora de Inglês. Era nisso que pensava. Ser teacher parecia-me uma atividade fenomenal. Mas sempre gostei muito dos assuntos internacionais. Em casa falávamos várias línguas, e havia muito interesse pela atualidade nacional, mas também internacional. Lembro-me de como me marcou a Guerra do Golfo, em 1991, que foi, de facto, um conflito muito mediatizado, que gerou muito debate, nomeadamente sobre a importância da profissão de jornalista.
Também se interessava pelo jornalismo, pela comunicação?
Sabe que eu, desde os 9 anos, já fazia rádio. Em jeito de brincadeira, sim, nada de profissional, mas participava nas emissões da Rádio Maré Alta, que depois passou a ser a Rádio Santiago.
Se dúvidas houvesse, neste momento há, claramente, uma articulação de agendas internacionais entre Moscovo, Pequim e Washington
Desde os 9 anos?!
Sim, até tenho fotografias que o comprovam. E, além de animadora de rádio, cheguei também a ajudar nas notícias. E isto para dizer o quê? Rapidamente percebi que não queria ser jornalista… com todo o respeito que tenho pela vossa profissão. Mas reconheço que essa experiência me ajudou muito a saber comunicar, na docência e agora como comentadora na CNN.
A verdade é que acabou mesmo por ir para o curso de Ciência Política e Relações Internacionais…
Sim, e foi muito gratificante. Era um curso novo e ali estávamos nós, cerca de 60 alunos, a enfrentar um mundo novo como universitários e perante uma série de assuntos entusiasmantes. Ainda por cima, com um corpo docente muito marcante.
Lembra-se dos nomes?
Tínhamos a velha guarda – uma designação que utilizo com imensa estima e admiração –, como os professores Sottomayor Cardia, Oliveira Marques, Esteves Pereira, Medeiros Ferreira. Mas depois também tínhamos uma geração nova, que são os nossos mentores, como os professores Severiano Teixeira, Carlos Gaspar, Pedro Tavares de Almeida, Vasco Rato. Foi esta confluência de experiências e de saber que contribuiu para nós abraçarmos a política internacional de uma maneira muito entusiasmante e, se calhar, também um bocadinho inocente na altura.
Essa formação foi feita num mundo diferente do de hoje, mais unipolar, que parecia dominado pelos EUA e a União Europeia, com a Rússia em declínio. Mas, curiosamente, decidiu estudar a Rússia. Porquê?
Vivíamos uma conjuntura internacional muito particular, com uma visão muito voltada para a importância dos EUA e com todo aquele otimismo em torno do projeto europeu e do Ocidente no seu todo. Mas eu, de facto, nunca escolhi trabalhar nessas áreas, ao contrário da esmagadora maioria dos meus colegas. O que mais me fascinava era a Rússia, a sua história, tanto imperial como soviética. De tal modo que, a certa altura, numa disciplina, ao me ser proposta uma série de tópicos de trabalho, eu escolhi o das guerras na Chechénia – que era um assunto completamente desconhecido para mim, como deve imaginar. Na altura, o prof. Severiano Teixeira ficou até intrigado com a minha escolha…
A Europa vive sempre, nos últimos anos, no mesmo dilema entre a ameaça russa e a pressão dos EUA, sobretudo agora com Trump. E continua sem ter uma voz única. Assim, não consegue projetar força
E o que lhe respondeu?
Eu disse-lhe: “Porque me desperta curiosidade. Porque eu não conheço.” E porque tem a ver com o meu fascínio pela Rússia, a sua História, as suas particularidades, o seu povo e, muitas vezes, também as suas lideranças – porque estudar as lideranças é fascinante, estejamos ou não de acordo com as suas opções e decisões.
E continuou fascinada com a Rússia depois de terminado o curso?
Sim, eu termino a licenciatura em 2000 e consigo um estágio no Ministério dos Negócios Estrangeiros, no Gabinete de Informação e Imprensa, onde procuravam pessoas de Relações Internacionais com apetência para a comunicação. E, passado um ano ou dois, o então diplomata que trabalhava comigo, o Jaime Leitão, que na época ainda não era embaixador, trouxe-me um flyer, um folheto de papel, a anunciar um curso de verão de quase dois meses em Moscovo, isto em 2003.
A vida definida por flyers…
Exatamente (Risos). A verdade é que, nesse dia, cheguei a casa e disse aos meus pais que ia fazer o curso. Ainda me lembro do ar perplexo da minha mãe, quando o anunciei. Mas passada a surpresa, eles ajudaram-me a arranjar o dinheiro para poder ir. E ainda contei com o apoio institucional do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Martins da Cruz. No final, o reitor da universidade onde estive enviou uma carta para Lisboa a assinalar que eu tinha sido a primeira portuguesa a frequentar aquele curso. E esse facto acabou por ser introduzido na minha ficha de funcionária do ministério. O que acabou por me conotar, a partir daí, à Rússia e ao seu estudo, a querer saber sempre mais e mais sobre o país.
Nesses tempos, a Rússia parecia longe, mas também uma potência do passado, que tinha sido ultrapassada pela História. Qual foi a sensação que teve quando lá chegou?
Em 2003, na primeira vez que lá estive, eu não conhecia ninguém e não falava russo. Fui completamente às escuras. Arrisquei bastante, mas senti-me aventureira como qualquer jovem daquela idade, não é?

E foi para Moscovo?
Sim. E, obviamente, tentei contactar alguém que pudesse ajudar-me. Foi o que fiz com o José Milhazes, que se revelou fundamental, não só no apoio, como a dar informações preciosas e até a encontrar-me um motorista russo que falasse português, o Benjamim. Senti logo um enorme fascínio por Moscovo. De repente, estava nos locais que apenas conhecia pelos livros de História, como a Praça Vermelha. Senti calafrios quando entrei no mausoléu do Lenine. Regressei completamente diferente e com a convicção de que era isto mesmo que queria fazer. E voltei lá muitas vezes.
Sentia-se bem em Moscovo?
Eu sentia-me em casa. Em 2017, com o apoio do então embaixador Godinho de Matos, consegui que a Rússia me desse acesso aos arquivos. E foi ótimo material que utilizei na minha tese de doutoramento. Era uma delícia estar a ler telegramas escritos por Vladimir Putin, assinados pelo próprio. Eu percebo que, muitas vezes, não seja compreensível este fascínio pela Rússia, mas quero sublinhar que não tem nada a ver com a liderança que esteja em funções.
Não deixa de ser um grande país…
É muito mais do que isso. E com uma História imensa. Quando estive a morar em Paris, tive a oportunidade de explorar também os arquivos diplomáticos do Quai d’Orsay, durante a investigação para a minha dissertação de mestrado, sobre as relações luso-russas, que também são fascinantes. É importante as pessoas perceberem que há toda uma História entre os dois países. Nós temos uma relação diplomática com a Rússia desde 1779, motivada por duas lideranças femininas, a de Catarina e a de Maria. É absolutamente fascinante e é um projeto que pretendo retomar, em breve, espero.
A realidade é que entre os seus estudos, tanto para mestrado como para doutoramento, a Rússia mudou muito. De que maneira?
É verdade, houve grandes mudanças, nesse período, relacionado com a liderança crescente de Vladimir Putin. Começou a haver todo um processo político em desenvolvimento, que nós só depois é que percebemos, quando ele se materializou, nomeadamente na invasão da Ucrânia, mas não só.
Mas um processo que foi sendo anunciado pelo próprio Putin…
Sim, sem dúvida. Aliás, é muito curioso, porque normalmente eu até falo disso com os meus alunos: como nós não demos importância à narrativa oficial, nomeadamente ao famoso discurso de Putin, em Munique, em 2007. Já lá estavam os avisos, as ameaças…
Lido hoje, esse discurso de Putin em 2007 provoca uma óbvia interrogação: porque é que ninguém percebeu o que ele estava a dizer? Foi por desconhecimento ou por culpa de uma evidente sobranceria ocidental?
Eu creio que houve uma subestimação da Rússia, sobretudo desde a liderança de Putin, mas que já tinha ocorrido, em certa medida, nos tempos de Ieltsin. Essa subestimação começa, desde logo, por não se ter percebido no Ocidente algo que Putin quis tornar claro: Moscovo não perdeu a Guerra Fria. O que aconteceu, na sua ótica, foi antes uma decisão interna, doméstica, de transição, que depois, obviamente, não foi necessariamente positiva, mas que foi decidida pelos russos, então soviéticos. Essa diferente perspetiva faz toda a diferença. Depois, a insistência em manter uma série de organizações que continuam a eleger a Rússia como maior ameaça, como é o caso da NATO, nunca foi bem-aceite pelos russos. Na Rússia, ainda custa a perceber porque é que o Pacto de Varsóvia terminou, mas a NATO continuou. E, ainda por cima, a alargar a sua influência até à fronteira russa. Daí o facto de Putin considerar que o que está em causa é esta guerra existencial, tanto para a sua sobrevivência política, como para o próprio país.
E, no meio disso tudo, a Europa ficou numa posição ambígua e desprevenida…
A Europa viveu num dilema: entre o engagement com a Rússia, por via da economia e da interdependência energética, e o receio de não afrontar o urso russo, com medo de que este tomasse posições mais assertivas e militarizadas. Angela Merkel, por exemplo, procurou apaziguar e promover uma relação de proximidade com Moscovo, mas sempre com algum receio e cautela. Emmanuel Macron defende há muito tempo, por outro lado, que o que deve existir é uma autonomia estratégica europeia, que possa conter quaisquer ameaças. Porque é que a Europa está no dilema atual? Precisamente porque não tinha uma estratégia política para abordar uma Rússia militarizada.
Mas por que razão a Europa foi apanhada desprevenida com a invasão russa?
Porque, na verdade, não tinha uma estratégia. A Europa nunca considerou, de forma clara, que Putin pudesse avançar para a decisão de invadir um país soberano e vizinho, como a Ucrânia. E, com isso, amedrontar toda a Europa e as instituições ditas de influência ocidental, seja a União Europeia, seja também a própria NATO, e acabar por gerar um momento muito disruptivo em relação àquilo que era o princípio do direito internacional e o respeito pelas Nações Unidas.
A Europa falhou na avaliação da Rússia?
Foi esse o erro. Houve uma relutância muito grande em perceber que poderia vir dali uma ameaça muito maior. Mas também temos de reconhecer que a União Europeia nunca pretendeu ser um projeto de projeção de poder com capacidade militar. O seu objetivo era o de uma concertação alargada, um entendimento entre várias lideranças europeias, promovendo a paz, a democracia, o desenvolvimento social.
Putin desvaloriza a Europa?
Claro, porque considera que a União Europeia não é um ator de poder, uma vez que não tem capacidade militar. Mas o perigo para Putin é o contágio da democracia no âmbito doméstico. Por outro lado, a invasão da Ucrânia não deve ser observada apenas como uma teimosia de Putin, de ele querer ficar na História como o líder que conseguiu recuperar o Grande Império Russo.
É mais do que isso?
Sim, é mais do que isso. Ele pretende, na dimensão externa, o reconhecimento da Rússia como grande poder – sem que isso implique, necessariamente, uma ambição territorial: pode passar apenas pelo estender da esfera de influência, sem precisar de invadir, como acontece com a Bielorrússia. Depois, na dimensão doméstica, o que ele pretende é defender e preservar o putinismo, a sua dita democracia soberana – que também promove, à sua maneira, eleições e processos eleitorais, mas que se caracteriza por uma liderança forte, centralizada, personalizada.
Que promove aquilo que a população considera fundamental, que é a grandeza russa?
A exaltação do etos russo, o orgulho, a honra nacional, o patriotismo, é esse o ponto. Os russos preferem um líder que os proteja de uma permanente ameaça externa, seja os EUA, a NATO ou a União Europeia, do que a defesa dos direitos, liberdades e garantias individuais. Isso é algo que eu pude constatar, até nas conversas com colegas da academia na Rússia. A perceção do mundo é diferente. As lentes com que se observa o mundo na Rússia não são as mesmas que usamos no Ocidente.
Em que é que se diferenciam?
São muito diferentes. A primeira coisa que eu digo aos meus alunos é que quando vão estudar um país, devem retirar as lentes ocidentais e olhar para o objeto de estudo como se este estivesse no centro do mundo. Vladimir Putin olha para o mapa-mundo e vê a Rússia no centro. E, a partir desse ponto de vista, ele desenha círculos concêntricos, que lhe permitem definir o seu espaço vital, que é o espaço pós-soviético. A Rússia é uma águia bicéfala que olha para os dois lados, europeu e asiático, dependendo dos seus interesses e pretensões.
E agora olha com mais insistência para a China?
Agora, tem desse lado, a dimensão de um parceiro fundamental, que foi, aliás, o que me fez suscitar este cenário de uma ordem tripolar, que apresento no meu livro. Putin não aceita a liderança internacional dos EUA. E procura, em todos os momentos, apresentar uma alternativa. Só que não o consegue sozinho. Por isso é que a China emerge como uma espécie de garantia dessa posição, apoiada também nos BRICS e no multilateralismo alternativo ao Ocidente.
Considera que todo esse movimento é mais liderado pela Rússia do que pela China?
Eu não tenho a menor dúvida de que a China tem todas as condições para ser considerada um grande poder. A Rússia quer ser um grande poder, mas tem uma fragilidade que é a sua economia.
E a demografia também…
Exatamente. Uma coisa que, curiosamente, não se aborda muito, é por que houve aquela pretensão de raptar, na Ucrânia, crianças eslavas para serem adotadas por famílias eslavas na Federação Russa. Isto acontece porque, de facto, entre as nacionalidades russas, a eslava é que está em franco declínio demográfico da Federação Russa. E esta é uma preocupação muito grande para Putin. Até porque precisa de efetivos militares. E, curiosamente, os primeiros a serem mobilizados para a linha da frente, no início da invasão russa da Ucrânia, foram os de outras etnias que não a eslava.
Em relação à tese do seu livro de uma ordem tripolar…
… É uma proposta de reflexão apenas, ressalvo. Até porque a política internacional é muito volátil.
Certamente, mas será que colocar a Rússia no mesmo patamar da China e dos EUA não terá sido fruto do seu interesse e do seu fascínio pela Rússia?
Não. Já falei da Rússia e da China, mas o momento decisivo para a minha argumentação está noutra latitude: o regresso de Donald Trump, com tudo o que isso provocou. Ele é muito mais disruptivo do que Xi Jinping ou Vladimir Putin, que são sempre muito mais previsíveis. Nós sabemos o que Xi quer, sabemos o que Putin quer, mas com Trump é sempre uma incógnita. Ninguém esperava, por exemplo, que ele iniciasse o seu discurso de tomada de posse a ser tão ameaçador com os seus parceiros e aliados, criando uma espécie de temor na Europa e o receio de uma tensão nos laços euroatlânticos. Depois, seguiu-se esta operação de charme a Moscovo, mais uma tentativa de consertar agendas internacionais com aqueles que Trump considera serem homens fortes. Portanto, para responder à sua questão, a Rússia projeta a imagem de grande poder, mas são os EUA e a China que, em certa medida, a colocam nessa posição, interpares. Basta lembrar, por exemplo, o primeiro encontro entre Biden e Putin, em 2021, ainda antes da invasão da Ucrânia. Nesse dia, Biden disse, publicamente, que a Rússia é um grande poder. O sorriso no semblante de Putin, que não é habitual, demonstrou que ele tinha alcançado o seu objetivo. O seu principal opositor estava a reconhecê-lo como grande poder.
Como olha para a relação entre Moscovo e Pequim?
Creio que Putin ganhou um novo fôlego, mas, claramente, a parada militar de Xi e o facto de ele ter sido anfitrião da Organização de Cooperação de Xangai num momento tão importante, com uma série de atores a serem atraídos para este multilateralismo de influência sino-russa, acaba por fazer emergir a liderança chinesa como um grande poder – neste momento, ao nível do dos EUA, mas sempre acompanhado do líder russo.
Na Guerra Fria, os EUA usaram a China para derrotar a Rússia. Será que a China vai agora usar a Rússia para derrotar os EUA?
Bom, eu diria que há aqui várias pretensões. A guerra na Ucrânia tem causado um desgaste, conjunto e mútuo, tanto para os EUA como para a Rússia. E isso acaba por dar boas ilações para Pequim, nomeadamente em relação à sua pretensão de reunificação com Taiwan, idealmente pela via pacífica, mas sem excluir o uso da força, até ao centenário da República Popular da China, em 2049…
… Acha que vai ser só em 2049?
Eu creio que o objetivo é mais célere.
Será ainda com Xi Jinping?
Eu creio que Xi Jinping tem a pretensão de ficar na História como o líder que conseguiu reunificar Taiwan à China continental. Essa ambição está lá em muitos momentos e em muitas decisões. Por isso é que também está a tirar aqui ilações sobre a resposta do Ocidente em relação à Ucrânia e como pode tentar capitalizar as fragilidades ocidentais a seu favor.
A posição dos EUA face à China alterou-se entre Biden e Trump?
Há linhas estruturantes de política externa norte-americana que nós conseguimos identificar e que perduram, exatamente porque, sendo um grande poder, tem de saber acautelar as dinâmicas de conflitualidade e de cooperação, de acordo com os seus objetivos e interesses nacionais. Mas o facto de Trump ser tão imprevisível e, em certa medida, disruptivo, tem suscitado muito temor em relação ao futuro dos EUA. Há o receio, nomeadamente, do revés democrático, num país que se projetou como a maior democracia do mundo e que tentou, muitas vezes e em momentos diferenciados, afirmar-se como um modelo a seguir. Há também o receio de que, depois de Trump 2.0, exista uma alteração substantiva, tanto na dimensão doméstica como externa. Mas não arrisco cenários. Acredito é que os EUA são um grande poder internacional – são há muito tempo e vão continuar a ser.
Como vê a Rússia depois de Putin?
Ao contrário do que talvez se espere no Ocidente, é muito difícil uma transição para a democracia…
Essa também não parece ser uma preocupação do povo russo…
A perspetiva dos cidadãos russos face às suas lideranças é a de que acautelem um nível de vida bom, a sua segurança, a promoção dos interesses do seu país, a defesa da sua cultura e da sua História. E, no fundo, isso tem sido bem gerido politicamente, em termos de criação narrativa, por Putin. E daí a enorme dificuldade que terá quem lhe suceder.
O desafio será elevado?
Quem suceder a Putin vai ser sempre comparado com a grandiosidade da sua liderança. Estamos a falar de 25 anos no poder. Só Estaline tinha ficado tanto tempo na liderança. Isto é uma enorme responsabilidade para qualquer sucessor. Há várias fações no Kremlin, como imagina, que já estão a trilhar caminhos possíveis, mas o que sabemos é que, até ao momento, todos os que tentaram alguma coisa acabaram por ser malsucedidos.
Outro caso paradigmático é a liderança de Xi Jinping, que já foi consagrado num terceiro mandato e que ainda não tem sucessor designado, como era a tradição…
E também não parece que esteja preocupado com essa questão da sucessão…
E também não sabemos se Trump não vai fazer mais um mandato, não é?
Pois, também já se fala nisso, em alterações da Constituição e tudo o mais para permitir um outro mandato. Mas, é como digo, são lideranças de senhores já com uma idade bastante avançada. Qualquer um deles com um projeto pessoal, com uma visão própria do que quer para o seu país, para a sua liderança, para a sua função e para o mundo…
Acha que Trump tem uma visão estratégica ou é só intuição…
Nesta segunda Administração, eu creio que ele tem uma estratégia. E a estratégia talvez colida com os objetivos dos seus tradicionais parceiros e aliados europeus: a primazia das relações bilaterais, a relevância das lideranças fortes, a projeção de poder. No fundo, o regresso do realismo às relações internacionais. E isto põe em causa o multilateralismo, o sistema onusiano, desde logo, a capacidade de pequenos poderes e de pequenas potências terem voz, terem palco, como sucede na Assembleia Geral das Nações Unidas, onde todos estão por igual.
Por isso é que eu digo que, depois de Putin ter sido o disruptivo, Xi ter sido o garante desta mudança de contestação ao Ocidente e aos EUA, Trump acaba por ser o impulsionador. Porque, se dúvidas houvesse, neste momento há claramente uma articulação de agendas internacionais entre Moscovo, Pequim e Washington, através das lideranças destes três grandes poderes. Vai ser, por isso, interessante acompanhar a maneira como vão evoluir: se para uma deriva de tensão e de conflitualidade ou por uma via de cooperação e articulação conjunta, porque existem pontos de confluência. Nós estamos a falar de grandes potências, de grandes poderes, com grande responsabilidade também, e nós temos, obviamente, desafios, ameaças e uma agenda securitária muito alargada que permite a articulação e a contestação entre posições políticas também destes grandes poderes e destas lideranças políticas.
Nesta ordem tripolar, que papel podem ter países como o Brasil, a Índia ou a Arábia Saudita?
Bem, eu creio que esses países, em certa medida, já escolheram o seu lado. O caminho do Brasil, por exemplo, já ficou muito claro. Lula refuta, claramente, a pretensão norte-americana de ser o líder do mundo e de impor a sua visão na América Latina ou noutras regiões. Lula escolheu claramente o lado dos BRICS. Acho que isto é inegável. E o Brasil é um importante país lusófono, com relevância em várias dimensões.
Diplomaticamente é um país importante, não é?
Eu lembro sempre a forma como o Brasil, nas negociações com a União Europeia, faz a defesa do Acordo do Mercosul sempre numa posição de finca-pé à posição francesa. Isso mostra que tem importância e relevância. Mas é também de um grande pragmatismo. Nesta conjuntura internacional, a melhor forma de o Brasil defender os seus interesses é ficar do lado dos BRICS. Sabe que precisa dos fertilizantes russos e, portanto, tem de apoiar, em alguns momentos, a posição da Federação Russa e contestar, muitas vezes, os EUA. Pelo menos, até agora, ficou claro e evidente que Lula segue muito esse caminho, e, portanto, advoga a reforma das Nações Unidas. É um dos países que mais defendem a reforma do Conselho de Segurança da ONU. De facto, o Brasil faz-se muito ouvir em termos internacionais. Quando o Lula toma uma posição em termos externos, é sempre ouvido, tem peso.
E a Europa ainda tem peso ou corre o risco de se tornar irrelevante?
Essa é uma questão muito difícil, exatamente porque nós somos europeus. Bom, mas a Europa vive sempre, nos últimos anos, no mesmo dilema entre a ameaça russa e a pressão dos EUA, sobretudo agora com Trump. E continua sem ter uma voz única. Assim, não consegue projetar força, porque as suas fragilidades continuam a ser identificadas e capitalizadas pelos principais adversários, nomeadamente o Kremlin. Portanto, a Europa precisa de ter uma concertação de facto que crie uma estratégia política e diplomática, mas também de defesa e segurança. E precisa também de coragem política das suas lideranças, para que expliquem aos cidadãos, aos seus eleitores, que vai ser preciso tomar decisões arrojadas para aumentar os orçamentos de defesa e segurança, em detrimento da justiça, da educação ou da saúde.
E não há alternativa a isso?
Se nós formos mapear até agora a posição da Europa, percebemos que ela está tão ou mais fragilizada do que a do país invadido. O futuro da Ucrânia também ditará o futuro da Europa. Portanto, a nova arquitetura de segurança europeia também sairá daquilo que for decidido neste processo de negociação. E também já percebemos que Trump só regressa às consultas com os aliados europeus quando percebe que, afinal, não tem assim tanta pressão ou ascendência sobre Putin. Este fascínio que Trump tem por Putin não é recíproco. É mais do lado de Trump do que do de Putin.
Olhando para os próximos tempos, para onde acha que se devia virar a atenção?
Para o Sul Global. É o gigante adormecido. Nós estamos aqui todos muito focados no dilema europeu, na ameaça russa, na posição dos EUA com Trump, mas não vemos o que se está a passar no Sul Global, onde muitas lideranças, nomeadamente africanas, dizem que a Ucrânia é uma guerra europeia. E essa é uma perceção que não costuma ser levada em conta. Essa subestimação já levou a que o Ocidente e sobretudo a Europa tenham perdido África.
Quais os sinais de esperança que identifica para o futuro? Acha que, como escreveu Amin Maalouf, estamos a viver o tempo mais perigoso da Humanidade?
Sinais de esperança é o que tento dar todos os dias aos meus alunos. Mas acho que a esperança tem de passar por voltar a dar relevância ao sistema assente nas Nações Unidas. Enquanto não houver outro, o sistema onusiano ainda é o melhor que temos. Obviamente que tem fragilidades, mas também tem força e consegue congregar, muitas vezes, posições no mesmo hemiciclo.