“O problema de todos os sistemas é a preparação dos herdeiros. Perceber quando e como entregar o poder. Os políticos, os reis, os líderes são terrivelmente maus nisso”

“O problema de todos os sistemas é a preparação dos herdeiros. Perceber quando e como entregar o poder. Os políticos, os reis, os líderes são terrivelmente maus nisso”

Fez questão de partilhar uma playlist do Spotify com todos os jornalistas que o entrevistaram durante a sua passagem por Portugal. Mais do que uma lista de canções associadas à História e aos seus momentos decisivos (diversos e inesperados), a música é parte integrante do seu método de trabalho. Acordar cedo, som muito alto e parar quando o corpo não aguenta mais. Só assim Simon Sebag Montefiore, um dos historiadores ingleses mais destacados da atualidade, foi capaz de escrever, durante a pandemia, O Mundo – Uma História da Humanidade (Crítica, 1 296 págs., €34,90), uma visão global, da Idade do Ferro aos nossos dias. E fê-lo recorrendo a uma abordagem original: a família. Foi a partir desse núcleo-base, comum a todas as pessoas, mesmo na era da fragmentação social, que encadeou a sucessão de dinastias, impérios e génios que foram moldando o curso da História. São biografias de muitas pessoas que mostram como somos todos diferentes e iguais, próximos e distantes. Face aos tempos conturbados que atravessamos na política internacional, o agora naturalizado português (é descendente de judeus sefarditas) defende uma visão da História rigorosa e livre de ideologias, como a que pratica. Nascido em 1965, Simon Sebag Montefiore é ainda autor de, entre outros, Estaline – A Corte do Czar Vermelho, Jerusalém, Os Romanov ou Os Titãs da História. Tão cedo, garante, não volta a escrever um livro de História. Talvez um romance. De ficção científica.

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, diz a célebre abertura de Anna Karenina, de Tolstoi. O que poderá um historiador acrescentar a esta verdade tão universal?
[Risos.] O meu livro é seguramente a melhor resposta à sua pergunta. Mas talvez se possa dizer, como sugere Samuel Johnson, que cito nas epígrafes, que todos os reinos são uma família e que todas as famílias são um pequeno reino. Se são felizes ou infelizes, já é outra conversa.

Mas na frase de Tolstoi poderíamos mudar a felicidade ou infelicidade por poder ou falta dele. Serão todas as famílias poderosas, cada uma à sua maneira?
Sim, claro, até porque todas as famílias poderosas são infelizes à sua maneira, mesmo quando são bem-sucedidas [Risos]. Têm de fazer compromissos e sacrifícios especiais para manter o poder. O que torna tão apelativo escrever uma história do mundo a partir da ideia de família é que todos nós temos uma. A família ainda é a unidade essencial da existência humana. São biografias de muitas pessoas, de todas as geografias, que se entrelaçam para contar o impulso da História.

Já disse que se mostrou surpreendido por ninguém ter tido esta abordagem antes. É uma espécie de ovo de Colombo, ver o que sempre esteve lá: a família, a dinastia, a consanguinidade?
Totalmente. E essa tem sido a minha vontade em todos os livros que escrevi até agora. Encontrar uma abordagem nova. As histórias do mundo são muito populares hoje em dia, seguramente porque estamos a viver tempos perigosos. Com a agitação vem a necessidade de visões globais, mais amplas.

Deixámos para trás o campo da especialização, em que cada historiador escrevia sobre assuntos muito específicos?
Sim, embora como todas as universidades têm o seu departamento ou instituto ou professor de História Global, esta tornou-se uma especialização não especializada, curiosa e contraditória.

O que se ganha numa História do Mundo escrita por uma única pessoa?
A História também é um exercício pessoal. Reflete a vida e os interesses de cada historiador, o que mais valoriza, o que considera central ou decisivo. Eu, por exemplo, tenho uma atração especial pelo Médio Oriente. Nesse sentido, este é um livro cheio de figuras que as pessoas conhecem, mas também de outras que não sabem quem são mas que deviam saber.

A História é suficientemente plástica ou poliédrica para permitir tantas narrativas diferentes?
Claro. Isso é verdade para a História, como para o nosso quarto, a sala da nossa casa… Tudo muda consoante a lente a partir da qual se vê o mundo. Este livro foi concebido para mostrar muito mais de África, Ásia e Américas. E também para dar um maior relevo ao papel das mulheres e das crianças.

Hoje já não podemos defender, como em tempos fez Niall Ferguson, que é O Ocidente e os Outros?
Quis dar a ver um quadro maior, com tempos e geografias muito diferentes. Não se trata de negar os momentos em que a Europa liderou uma série de movimentos ou ideias, mas de mostrar que isso também aconteceu, à sua escala, noutros países, com outras famílias. Veja-se o caso de Portugal, não se pode apagar o seu lugar na História. É por isso que não sigo nenhuma ideologia, tento até ser neutro e pós-progressista. Não vejo a História como uma sequência de causas e efeitos únicos, mas antes como um processo complexo. Procurei esquecer o resultado (aonde chegámos) e avançar, passo a passo, pelas muitas encruzilhadas que se abriram ao longo do caminho.

Estamos então na casa da família. Olhando a História por essa lente, poderemos dizer que as famílias cuidam mais dos seus interesses do que dos do coletivo?
Em muitos casos, isso é uma inevitabilidade histórica. A partir de certa altura, os políticos tendem a identificar-se com o Estado, o reino ou o império. Começam a pensar que são uma e a mesma coisa. Mas o mais curioso é que as famílias estão presentes nas grandes dinastias da monarquia, mas também existem nas democracias. Não faltam exemplos nos Estados Unidos da América. Há muito mais de hereditário nas nossas sociedades do que estamos dispostos a admitir. Médicos que são filhos de médicos, advogados que descendem de famílias ligadas às leis, professores que educavam novos professores. Já para não falar de políticos. Tem sido um património que se preserva na família. E no livro também falo de artistas, romancistas, músicos, até verdugos.

Ao colocar geografias tão distantes lado a lado, espera que o leitor chegue à conclusão de que, apesar de tudo, somos mais iguais do que diferentes ou justamente o contrário?
Muito mais parecidos. Há temas e dimensões da vida humana que são constantes em todo o lado. Mas também é preciso ter humildade para perceber que há diferenças enormes, sobretudo quando nos colocamos diante da História. Por verem tantos filmes sobre Roma antiga, as pessoas podem pensar que somos parecidos com os romanos. Mas a mentalidade era completamente diferente, estranha e maravilhosa. É preciso reconhecer estas duas dimensões.

E o que faz a diferença em cada época? Por que razão uma família, um país, uma dinastia, sobressai? É possível percebê-lo ao percorrer os caminhos da História?
Os fatores mudam muito, mas talvez o denominador comum seja a capacidade que determinadas famílias têm de recrutar gente muito talentosa. E sempre que falamos em longas dinastias, como a dos Romanov, por exemplo, uma das mais longas e bem-sucedidas de todos os tempos, encontramos pessoas muito capazes. O problema – de todas as famílias e de todos os sistemas – é a sucessão ou a preparação dos herdeiros. No fundo, perceber quando e como entregar o poder. Os políticos, os reis, os líderes são terrivelmente maus nisso. Nunca encontram sucessores satisfatórios. Ou tão bons como eles se consideram. Margaret Thatcher é um bom exemplo. Ou Estaline, que destruiu todos os sucessores.

Fala muito de Portugal e há pouco já referiu a nossa importância na História. Como a avalia?
Portugal aparece muito no livro porque é uma porta para muitas geografias. Por Portugal acede-se ao Brasil, que é enorme e importantíssimo, e a um mundo que se encontrou pela primeira vez global. Embora nem sempre positivo, teve um papel decisivo e extraordinário. Portugal permitiu-me ainda abordar esta característica da História: a mistura entre um pequeno país e uma ferocidade agressiva e sagrada. É fascinante ver como conseguiram reunir a capacidade técnica e científica para construir navios e fazê-los atravessar oceanos.

Diz-se muitas vezes que a História se repete. Poderão os responsáveis do mundo contemporâneo aprender a não incorrer nos mesmos erros lendo o seu livro?
Espero bem que sim, mas o problema é que nunca nada é exatamente igual. Os dilemas assemelham-se, mas mudam de forma, colocam-se de outra maneira. E muitas vezes só nos apercebemos das semelhanças mais tarde. Estamos condenados a errar e a aprender, errar e aprender.

Mas, como historiador, como vê esta recusa crescente em aceitar os factos, esta crença nas fake news ou em informação por vezes descaradamente falsa?
Sempre houve teorias da conspiração. A internet só veio acentuá-las, num frenesim histérico e imparável. Antigamente, esses boatos apenas abarcavam uma cidade ou só duravam um dia, com as devidas exceções, claro. As cruzadas, de 1095 a 1099, são um bom exemplo de uma onda cheia de preconceitos que varreu a Europa, com os resultados que se conhecem.

Mas hoje em dia a informação está disponível, é possível confirmar. As pessoas querem mesmo acreditar nessa desinformação?
Isso acontece porque, para muitas pessoas, a História tornou-se uma extensão da religião, da virtude, da retidão, de ideias preconcebidas, muito mais do que a procura do que realmente aconteceu.

A atual guerra na Ucrânia também passa pela interpretação da História?
Sim, completamente, o que só sublinha a importância de uma História rigorosa. Na verdade, os dois lados do conflito estão a promover uma imagem errada do passado. Sabemos muito pouco do que foi Kiev e [condado de] Rus, mas ambos reclamam essas entidades como versões antigas e iniciais de si próprios.

Também foi apanhado de surpresa pela invasão russa ou de alguma forma foi capaz de a prever, tendo em conta os seus estudos relacionados com a História russa?
Fui apanhado de surpresa no que diz respeito ao momento em que tudo começou. Mas, na verdade, durante algum tempo pensei que se Putin tivesse encurralado a Ucrânia em 2014, talvez tivesse sido bem-sucedido. E uma invasão terrestre não era inesperada. Mas a escala da guerra, os protagonistas envolvidos, a força da resistência ou a combinação entre tecnologia de ponta e antiga, isso, sim, surpreendeu-me.

E vê esta guerra mais como vinda do passado ou como anunciadora do que poderá estar para vir?
Sinto-a mais como um novo tipo de guerra. Tanto a Guerra das Estrelas quanto a I Guerra Mundial estão presentes no conflito da Ucrânia. Enviam-se milhares de soldados para a frente e, ao mesmo tempo, recorre-se à mais sofisticada tecnologia. É por isso que o meu livro está cheio de guerra e violência. Ambas aceleram a tecnologia.

Esse novo tipo de guerra pode ser feito para não acabar, para ser um contínuo?
Isso pode acontecer, mas esta, da Ucrânia, vai acabar um dia. As guerras acabam quando os exércitos estão exaustos e assentes em sangue. E aí as negociações vão chegar. Será difícil e duro, mas esse processo terá de ser enfrentado.

Como duro é agora o conflito na Faixa de Gaza?
Sim. Mas a guerra da Ucrânia é mais parecida com as guerras anteriores de Israel com os países árabes ou o conflito entre o Paquistão e a Índia. Criará novas fronteiras.

Para um país com as fronteiras mais antigas do mundo, essa é uma realidade um pouco estranha.
Claro, numa parte da Europa esse conceito faz menos sentido. Mas a Europa do Leste mudou bastante nas últimas décadas. É preciso não esquecer que as fronteiras criadas no mundo colonial são impraticáveis. Foram mal desenhadas. E a esse problema junta-se outro: a ideia de que o Estado-nação é a melhor forma de gerir os Estados. Mas um Estado-nação exclui sempre qualquer coisa. Estas contradições estão sempre a ressurgir.

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