“Se a nossa vida for acordar e trabalhar, fazer algo que detestamos e só viver ao fim de semana, as probabilidades de singrarmos serão escassas”

“Se a nossa vida for acordar e trabalhar, fazer algo que detestamos e só viver ao fim de semana, as probabilidades de singrarmos serão escassas”

Tem 38 anos, trabalhou durante dez no Serviço Nacional de Saúde britânico e exerce agora a prática clínica no setor privado, em Hampshire, no Reino Unido. Ao dar-se conta de que nem todos podem pagar os custos de uma terapia, e de que parte dela é pedagogia, a mãe de três filhos decidiu fazer vídeos curtos com conselhos para navegar pelos altos e baixos da vida e publicou-os nas redes sociais, onde tem já mais de seis milhões de seguidores. O seu livro Porque É Que Ninguém Me Disse Isto Antes? (Editorial Presença, 312 págs., €17,90) é um bestseller e, tal como os vídeos, tem a meta de fazer chegar a todos a saúde mental. Embora admita que não tem respostas para tudo, está convicta de que a partilha de conteúdos de autoconhecimento, assentes em evidências científicas e numa linguagem simples, podem ajudar muita gente a encontrar o seu rumo.

Alcançou a fama nas redes sociais. Como tudo começou?
Tinha filhos pequenos e queria usufruir de um equilíbrio entre trabalho e família, então passei a trabalhar em casa. As pessoas imaginam que uma sessão é para falar e ser ouvido, mas também recebem informação sobre o funcionamento do cérebro e de como a Psicologia tem impacto no seu estado emocional e relacionamentos. Isso empodera-as e torna-as mais confiantes para gerirem melhor as suas vidas. Então, pensei: Porque não tornar esse conhecimento acessível a todos? Falei com o meu marido e ele sugeriu-me que publicasse alguns vídeos nas redes sociais para ver se havia interesse. Comecei pelo TikTok, que estava a ser um sucesso nessa altura. Depois, surgiram a pandemia e o confinamento e, em poucas semanas, as visualizações aumentaram de uma forma que eu não previa.

Quem procura os seus conteúdos e o que lhe perguntam mais, online?
A maior audiência é juvenil. No Instagram, as idades variam entre os 20 e os 40 e tal anos. No YouTube não sei ao certo. Desde que o livro foi publicado, são mais de seis milhões de seguidores, por esta ordem: TikTok, YouTube, Instagram e outras plataformas, como o LinkedIn e o Snapchat. As questões são diversas, mas há temas comuns: stresse, novos relacionamentos, perdas. Tenho uma lista em que vou registando os tópicos que recebo e nos quais procuro refletir também para criar novos conteúdos.

Ser uma figura mediática, ou um modelo para quem a segue online, interfere na sua prática clínica?
Tenho o cuidado de não expor dados da minha vida privada ou falar da minha saúde mental, seja online seja em iniciativas públicas. Preservar esses limites é essencial.  

Tem três filhos. Como gere o volume de solicitações, preservando o tempo para a família e para si?
O processo de adaptação foi difícil. Costumava estar no meu gabinete a dar consultas, com algum sossego, enquanto os meus filhos estavam na escola. Não ambicionava falar para o público nem imaginava que os vídeos se convertessem num fenómeno. Tive o impulso de parar de os fazer, mas recebi muitas mensagens de gratidão, como “obrigada, aprendi isto e aquilo, e mudei para melhor” ou “inspirou-me a procurar terapia e está a ser muito útil”. Por isso continuei, mas está a ser desafiador. Sempre que sinto que a balança está a desnivelar-se, paro e avalio a minha vida, se ela se alinha com aquilo que é prioritário para mim. Se não estou a dar o meu melhor ou a afastar-me dos meus valores, então faço ajustes ou reservo um dia para estar com o meu filho mais novo, por exemplo. 

O que entende por maus momentos, o ponto de partida do livro?
Na versão inglesa chamo-lhes “lugares sombrios”. São aquelas alturas em que tudo nos custa ou que é mais difícil por nos sentirmos mais em baixo do que gostaríamos. Isso é normal, não deve ser patologizado, porém não se deve ficar refém desse registo.

Conteúdos de autoajuda, como “eu não sou aquilo que penso” ou “não há decisões perfeitas”, por exemplo, têm um impacto real nas pessoas? 
Os conceitos e as competências que partilho baseiam-se na minha formação enquanto psicóloga e partem de casos clínicos, que são úteis a todos. Por exemplo: quando alguém fica com o pensamento enviesado e olha para as coisas de um prisma mais negativo, ou fica mais ansioso e tende a imaginar o pior cenário, basta que tenha consciência disso para poder responder de maneira diferente e mudar dramaticamente a sua experiência.

Por que razão a autoconfiança só cresce quando se está disposto a abdicar dela, como diz no livro?
É uma variável que está ligada às situações e que tende a ser posta à prova em momentos específicos. No pós-pandemia, posso sentir-me confiante em casa, mas, quando saio à rua, afasto-me desse lugar em que me sinto à vontade. Construir e expandir a autoconfiança implica abdicar temporariamente do sentimento de conforto e ir aonde não se vai tê-lo, com a convicção de que se terá ajuda, se algo não correr bem.

É possível combater problemas como a adição às redes sociais no “local do crime”?
Não foi fácil e explico-lhe porquê. Houve uma altura em que me dei conta de que era um tanto ou quanto idealista da minha parte estar sentada no consultório a lamentar-me com o volume de desinformação que havia na internet sobre o assunto, a qual só contribuía para as pessoas se sentirem ainda pior, em vez de fazerem terapia. Olhando para a questão de forma realista, não vamos livrar-nos das redes sociais, que são as novas estradas: elas podem ser tão úteis que, no limite, não chegam a lado nenhum. Da mesma forma que não deixamos os nossos filhos brincar na rua, a menos que o façam de forma segura, também precisamos de orientá-los a andar nas estradas virtuais.

Faz sentido, embora seja um pouco paradoxal. Sentiu isso?
Há pessoas que passam demasiado tempo online e ficam vulneráveis a tudo o que lá encontram. Tenho plena consciência de que não posso alterar essa realidade, mas os meus vídeos sim: quem os vê tem hipóteses acrescidas de aceder a informações decentes e profissionais. Assim, em vez de estar da parte de fora da arena a lamentar os comportamentos de dependência da internet e das redes sociais, achei melhor entrar nesse universo e fazer o que estava ao meu alcance para ajudar e marcar a diferença.

Como responde aos adolescentes que lhe pedem ajuda online por se sentirem ansiosos ou deprimidos? 
Faço uma distinção clara entre os pacientes, que acompanho de forma personalizada, e os seguidores, a quem forneço conteúdos pedagógicos online, como não podia deixar de ser.

Independentemente da idade ou das circunstâncias de vida, persegue-se o ideal da felicidade. Essa crença pode aumentar os sentimentos de frustração e de mal-estar?
Essa idealização já existia antes da pandemia. Se perguntar a alguém o que quer da vida, a resposta mais óbvia é: “Eu só quero ser feliz.” Contudo, quando se pergunta o que isso quer dizer, a maioria não sabe responder. A felicidade pode ser vista de duas maneiras: por um lado, é um sentimento passageiro de alegria ou de prazer, é o caso de quando tenho o meu filho ao colo e sinto amor por ele, que me faz feliz; por outro, é um sentimento duradouro, a pessoa sente que a sua vida faz sentido e está satisfeita com aquilo que tem, sem querer mais do que isso. A maioria das pessoas persegue o prazer numa lógica de curto prazo: compra-se um par de botas e fica-se feliz, mas depois a satisfação desaparece. Quando há um propósito de vida, tudo é diferente. Se decidir escalar uma montanha com fins solidários, isso até pode ser uma experiência dolorosa e desconfortável, mas não é importante, porque vou ficar contente com aquilo que fiz.

Há pessoas que passam demasiado tempo online e ficam vulneráveis a tudo o que lá encontram

Apesar de haver mais informação, ainda é comum atribuir as causas do mal-estar próprio aos outros?
Não se trata de atribuir culpas, mas de ter a consciência de estar num lugar onde não se deseja estar e de se responsabilizar. Nesses casos, o importante é dar a entender que, na hora de resolver problemas, cada um deve fazer a sua parte, até porque é dessa forma que pode mudar alguma coisa na sua realidade, tornando-a mais satisfatória. 

A prescrição de antidepressivos nos países da OCDE mais do que duplicou. O que mudou na forma de encarar o que nos acontece?
Vendem-se muitos fármacos como se estes fossem a resposta para todos os nossos males, quando não passam de um penso rápido para se anestesiar sentimentos dolorosos no imediato. A cura passa por deixar sarar a ferida, e isso pode demorar algum tempo. No Reino Unido, os serviços de saúde estão política e economicamente organizados para dar respostas com base no princípio do custo-benefício. Fazem-se muitas consultas de psiquiatria e, aparentemente, resolvem-se muitos problemas, com menos encargos financeiros, mas há um desinvestimento nos psicólogos porque o processo é mais demorado, embora deva ser esse o caminho, se quisermos que as pessoas consigam conduzir melhor as suas vidas.

A pedagogia e as dicas de autoajuda correm o risco de passar normas sociais implícitas, acerca da melhor forma de se comportar ou de se ser?
Um terapeuta qualificado nunca diz ao paciente quais as escolhas que ele pode fazer. O seu papel é aumentar a autoconsciência para que a pessoa consiga decidir o que é melhor para ela. Do ponto de vista pedagógico, aborda-se a maneira como o corpo e a mente funcionam, e o foco está na forma como se usa esse conhecimento para se promover o bem-estar. O meu livro tem essa função, a de educar. 

Muitos jovens estão desencantados com a sociedade e o trabalho. O que não está a correr bem?
Não creio que as novas gerações estejam erradas, que tenham problemas ou sejam fracas, como por vezes há quem as descreva. Quando não estão bem ou se mostram infelizes no mundo do trabalho e procuram alternativas, os jovens estão a expressar mal-estar, que deve ser interpretado como um sintoma e não como uma causa. O stresse não parte dos indivíduos, mas de como se espera que eles vivam. Se a sua vida for acordar e trabalhar até à noite, fazer algo que detestam e só ter vida e ver o Sol ao fim de semana, as probabilidades de singrarem são escassas.

No início da sua carreira trabalhou em intervenção na crise e em cuidados intensivos. O que significou esta fase para si?
Foi uma experiência marcante. A ideia era especializar-me numa unidade do Ministério da Defesa, que acompanhava militares após o seu regresso de missões no Afeganistão e no Iraque. O trabalho era tão envolvente que fiquei lá mais um ano do que o previsto, mas, como era longe de casa e eu planeava ser mãe, acabei por sair, também para preservar a minha saúde mental: é muito duro lidar com traumas de guerra. 

Ainda existem mitos sobre a terapia: o que é e o que não é?
[Pausa.] Começo por aquilo que não é: dizer aos pacientes o que devem fazer, dar-lhes uma cura ou deixá-los num sofá ou numa poltrona a divagar. O que é: um espaço seguro onde duas pessoas sabem o que pretendem alcançar, e o terapeuta está na retaguarda com uma caixa de ferramentas. Se a pessoa precisar de uma nova ferramenta, ele pode facultá-la; se ela precisar de saber como usá-la, ele pode mostrar-lhe como fazê-lo. Umas vezes funciona, outras vezes não. O que quer que aconteça, o terapeuta está lá, a acompanhar o processo. Muitas pessoas vão nervosas e cheias de equívocos para a consulta. Na segunda ou na terceira sessão, é frequente começarem a ver o consultório como um santuário, por ser o único sítio onde podem estar e falar abertamente dos seus problemas, sem receio de serem julgadas.

Fazer terapia é necessário para ter uma vida boa?
Não. Há pessoas que sabem como querem viver e passam bem sem ela. Depois, nem todos têm a disposição ou a capacidade de refletirem sobre si mesmos, e pressioná-los nesse sentido não é útil. Por fim, é possível estar vários anos num processo terapêutico e continuar a ter dificuldades nos relacionamentos.

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