“É preciso uma situação tão catastrófica como esta para nós termos mesmo de parar e de pensar em tudo o que estamos a fazer nas nossas vidas?”

Foto: José Carlos Carvalho

“É preciso uma situação tão catastrófica como esta para nós termos mesmo de parar e de pensar em tudo o que estamos a fazer nas nossas vidas?”

É o livro certo para se ler nestes dias difíceis. Chama-se Um Tempo Sem Idades/The Age of no age (uma edição bilingue da Tinta da China) e, nele, Maria João Valente Rosa, sociológa, demógrafa e antiga diretora do projeto Pordata (Fundação Francisco Manuel dos Santos), defende que temos de repensar o modo como as sociedades olham para o envelhecimento. Desde logo, deixarmos de pensar na data de nascimento como um dos fatores que nos caracteriza. Temos antes de olhar para os anos de vida que temos pela frente. Por isso, em vez de dizermos que a entrevistada tem 58 anos, devemos dizer que a entrevistada tem 27,6 anos de idade (mulher, habitante na Área Metropolitana de Lisboa). Uma jovem, portanto.

Por que razão envelhecer é tão difícil?
Do ponto de vista dos indivíduos, julgo que essa dificuldade tem que ver com o facto de, ao envelhecermos, nos aproximarmos de um momento que não desejamos, a morte. Talvez seja por isso que as pessoas reagem de forma tão negativa a este processo. Mas a questão é que não tem de ser necessariamente assim: a nossa esperança de vida permite-nos perceber que estamos mais distantes da morte do que estávamos há dez anos.

E, por isso, propõe que pensemos não em função dos anos que estamos a acumular mas dos anos que ainda vamos viver, isto é, na nossa idade prospetiva?
Exatamente. Se pensarmos no cenário da esperança de vida aos 65 anos, em 2030, poderemos acrescentar um ano à esperança de vida aos 65 anos que temos hoje. Se isto se verificar, significa que, todos os dias, teremos um bónus de cerca de 2,4 horas por dia. É como se ganhássemos 2,4 horas por dia, todos os dias! E, se vamos acrescentando horas aos dias, é importante perceber como essas horas vão sendo preenchidas. Claro que a vida tem um limite, não é infinita, mas não é por estarmos mais velhos que temos logo de começar a pensar numa lógica de fim de vida. O problema é: como é que esta vida se vai prolongando? Como é que encontramos a melhor forma de a aproveitar? Devíamos estar todos conscientes da importância que isto pode ter.

Como fazer isso nas sociedades em que vivemos, cheias de estereótipos, incluindo os associados ao envelhecimento?
De uma perspetiva individual, o problema de as pessoas estarem a envelhecer não é um problema bem real, uma vez que não é por estarmos um, dois ou três anos mais velhos que estamos necessariamente mais próximos do nosso momento final. De uma perspetiva social, a questão é a de os outros olharem para nós de forma diferente, a de passarmos a ter uma outra maneira de sermos percebidos por quem nos rodeia. Também há uma carga muito negativa associada às rugas e a alguns traços que as pessoas manifestam com o envelhecer. Quando alguém nos diz “nem parece que tens a idades que tens” ou “cada vez pareces mais jovem”, isso é tomado como um elogio, mas o que significa? Que a pessoa está a rodar contra os ponteiros do relógio?

Mas usar a idade cronológica para definir uma pessoa – por exemplo, dizer que alguém tem 50 anos – não é fazer uso de um facto?
A idade cronológica, relacionada com o ano do nascimento, é aquela idade que nós utilizamos com frequência para nos posicionarmos do ponto de vista social e também individual. Tem que ver com um passado. Ora, o passado tem cada vez menos que ver com o presente. E vai ter cada vez menos que ver com o futuro. A idade cronológica diz pouco sobre cada um, porque as pessoas envelhecem de formas diferentes, consoante a sociedade, o país e a época em que vivem. Na minha opinião, a idade cronológica é usada de uma forma muito abusiva para se classificar alguém. Não vejo que o seu uso possa trazer alguma mais-valia, traz apenas um dado individual de uma pessoa.

Não é a partir de uma determinada altura que faz sentido dizer às pessoas que, agora, vão passar a frequentar o ginásio ou a fazer uma outra atividade. É claro que fazer exercício faz bem, é claro que faz bem a pessoa participar em redes. Mas se a pessoa nunca fez ginástica na vida, porque vai fazer agora?

Além disso, a vida é um contínuo, como argumenta.
Sim, claro. A vida é um contínuo. Interromper e fazer um salto de um dia para o outro é contranatura. Quando digo que uma pessoa tem 65 anos e está reformada, estou a dizer dois factos reais. A questão é porque é que eu entendo que, aos 65 anos, a pessoa deixa de ter interesse? No caso dos funcionários públicos, a pessoa adormece interessante aos 69 anos, os outros continuam a esperar dela qualquer coisa e, depois, no dia em que faz 70 anos, acorda com um estatuto completamente diferente. Os outros deixam de esperar dela o que quer que seja. Esta desvalorização tem muitos efeitos, individuais, sociais e económicos.

Nada do que defende tem que ver com a ideia de envelhecimento ativo, pois não?
Não, de todo. Não é a partir de uma determinada altura que faz sentido dizer às pessoas que, agora, vão passar a frequentar o ginásio ou a fazer uma outra atividade. Estas iniciativas são feitas sempre numa lógica de um certo entretenimento. É claro que fazer exercício faz bem, é claro que faz bem a pessoa participar em redes. Mas se a pessoa nunca fez ginástica na vida, porque vai fazer agora? Do meu ponto de vista, o envelhecimento ativo é nós sabermos que estamos a envelhecer em todas as fases da nossa vida, é irmos planeando este nosso mapa de vida. E eu defendo que isto seja feito a partir da escola!

O trabalho ocupa demasiado tempo nas nossas vidas. Há que repensar este paradigma socioeconómico?
Exatamente, a parte central da nossa vida é o trabalho. Ou seja, quando somos mais jovens, preparamo-nos para o trabalho; quando somos mais velhos, libertamo-nos do trabalho. O trabalho é sempre o foco. Quando se fala com alguém mais velho, já reformado, a pergunta habitual é “o que é que tu fazias?”, em vez de “o que é que vais fazer agora?”. Quando se fala com uma criança, a pergunta é: “O que queres ser quando fores grande?”Claro que as pessoas precisam de trabalho, que as sociedades precisam de trabalho, mas o trabalho está a esvaziar a capacidade de nos enriquecermos por outras vias, retira tempo à formação e ao lazer, retira tempo para estarmos com os outros… O que temos é uma estrutura fundada em critérios cronológicos, que foram criados em sociedades completamente diferentes das nossas. Se agora temos vidas longas, é importante cruzarmos estas várias dimensões ao longo da nossa vida, de uma vez por todas.

Há quem receie que isso signifique menores níveis de produtividade.
Não necessariamente. Já há algumas experiências como a da semana de quatro dias implementada pela Microsoft no Japão. Temos de ter capacidade de avaliar as pessoas não em função do tempo que elas estão a trabalhar mas em função do resultado do seu trabalho. As pessoas precisam de ter tempo para fazer formação, para poderem pensar se aquilo que estão a fazer é aquilo de que mais gostam, se é aquilo que mais gostariam de fazer, se é aquilo que se ajusta às capacidades que têm naquela fase. E, neste momento, as pessoas, pura e simplesmente, não têm tempo para o fazer.

As sociedades (as ocidentais, pelo menos) não estão a conseguir reagir à mudança?
Não, e continuam a não reagir. Ninguém é feliz assim. E eu olho para a sociedade como um todo e vejo que somos todos infelizes. É uma angústia permanente. Se estamos tão angustiados, tão infelizes, se estamos todos tão preocupados, então, por que razão prorrogamos este sistema? Continuamos a colocar o foco no envelhecimento demográfico, que aconteceu por causa daquilo que todos desejamos: o termos conseguido conquistar anos de vida à morte prematura.

É claro que as sociedades precisam de trabalho, mas o trabalho está a esvaziar a capacidade de nos enriquecermos por outras vias, retira tempo à formação e ao lazer, retira tempo para estarmos com os outros

O tema da fecundidade continua a estar muito presente no discurso político, quando é evidente que não vamos voltar a ter tantos filhos como nos anos 50 do século XX.
Exatamente. O nosso grande contracetivo é o desenvolvimento: as mulheres e os homens desejam ter menos filhos agora do que desejavam no passado porque isso decorre do desenvolvimento, não queremos voltar a ser uma sociedade pobre, pouco instruída e sem condições de vida. E, por isso, esta é a altura de descongelarmos aquilo que continuamos a perpetuar no tempo: avaliarmos as pessoas em função da idade, o modo como organizamos o ciclo de vida, o sistema de segurança social. Do ponto de vista individual, tudo isto conduz a que as pessoas não se sintam particularmente felizes. Do ponto de vista da sociedade, passarmos a ter problemas cada vez mais graves e a única estratégia que temos é a de ir adotando uns paliativos aqui e acolá: hoje é assim, amanhã aumentamos um bocadinho a idade de reforma, baixamos um bocadinho as pensões ou aumentamos um bocadinho as contribuições. Andamos nisto de ano para ano, sem ver o essencial: esta arquitetura já não serve a ninguém.

A pergunta impõe-se: um momento de crise como este que atravessamos com o novo coronavírus é o momento ideal para o fazermos?
Estas alturas podem ser muito interessantes para o fazermos. Percebemos que, de um dia para o outro, um foco como este nos obrigou a mudar muita coisa, a repensar muita coisa. Acredito que, passado este momento, algumas dessas alterações perdurem. É preciso uma situação tão catastrófica como esta para nós termos mesmo de parar e de pensar em tudo o que estamos a fazer nas nossas vidas? A forma como consumimos, como viajamos, as emissões de carbono… Em nome do nosso bem-estar coletivo, seria bom que entendêssemos tudo isto como um momento de mudarmos tudo nas nossas vidas.

Aplicando o indicador que propõe, o MEDE, Portugal está menos velho do que julgamos?
Com o indicador que proponho, e tendo em linha de conta a nossa esperança de vida e as nossas percentagens de idosos e de jovens, a conclusão a que chegamos é que Portugal não está tão envelhecido assim. Por outras palavras, está dentro dos parâmetros que seriam razoáveis para aquela esperança de vida. Ou seja, a mudança tem de começar por nós, cientistas. Temos de mudar as nossas lentes, as nossas formas de medição. Tal como os economistas encontraram no deflator um modo adequado para comparar preços de épocas diferentes, de resto.

Foto: José Carlos Carvalho

O livro intitula-se Um Tempo Sem Idades/The Age of no age. Que novo paradigma é este?
Pensar na vida como um todo, não por partes, por idades, por gavetas. A capa do livro, com aquela cadeira [a Eames Lounge Chair, desenhada por Charles e Ray Eames em 1956], tenta transmitir essa perspetiva. A cadeira pode ter múltiplas finalidades: estudo, trabalho, lazer. A cadeira pode ser a nossa vida, podemos ter um pouco de tudo num mesmo momento. E todos temos de mudar.

A quem se destina este livro, aos que já estão mais à frente nessa vida longa?
Não, este livro foi pensado não tanto para as pessoas que já estão na situação de reforma mas mais para as pessoas que estão em curso. Por exemplo: uma pessoa com 40 anos. Neste momento, essa pessoa tem o dobro (ou mais) do seu tempo de vida. São esses que devem começar a pensar nos seus planos. Quais são os planos dessas pessoas para o futuro? Porque o plano dessas pessoas não pode ser continuar a fazer o que fazem para depois se reformarem. Se eu, aos 40 anos, já não gosto daquilo que faço, aos 50, ainda vou gostar muito menos! Por isso defendo que se devia começar a falar nisto nas escolas, desde logo.

É uma utopia?
É preciso lembrar que as utopias têm imenso valor [risos]. Temos algumas microestruturas que apoiam os jovens (a decidir o que querem ser, a obter bolsas de formação…), mas não temos nada para pessoas que estão noutras idades cronológicas. Todos nós podemos ter um plano para nós próprios, mas a questão é que isso não nos vale de muito se os outros não aceitarem os nossos próprios planos. É importante que os outros reconheçam os nossos planos. É por isso que o Japão criou um conselho para desenhar as vidas longas.

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