Luís Rochartre Álvares, de 55 anos, vai assumir a presidência do Forest Solutions Group, um organismo que integra o WBCSD – Conselho Económico Mundial para o Desenvolvimento Sustentado, constituído por conselhos empresariais de diversos países e mais de 200 das maiores multinacionais ligadas à floresta. Engenheiro florestal, formado pela Universidade de Trás- -os-Montes e Alto Douro, exerceu, ao longo de 20 anos, cargos em quase todas as áreas ligadas à floresta. “Costumo dizer que, enquanto profissional, tenho diferentes encarnações.” Há cerca de seis anos e meio, foi convidado para gestor da Empordef, empresa do Estado que gere a indústria de Defesa. “Quando entrei, o Estado e as empresas públicas estavam falidos e, digamos, não foi a melhor altura para ter uma experiência como gestor público”, graceja o homem que se considera um “otimista patológico”. Antes de partir para o seu novo cargo, em Genebra, acedeu falar com a VISÃO sobre este desafio que tem pela frente: consciencializar as empresas a adotarem práticas mais sustentáveis e passar essa mensagem para a sociedade.
Quais os desafios que irá enfrentar nestes primeiros tempos como presidente do Forest Solutions Group?
Vou chegar numa altura importante. Durante mais de um ano, este conjunto de empresas desenvolveu, juntamente com o Boston Consulting Group, uma estratégia que realinhou os objetivos da organização. Por exemplo, antes, as empresas estavam muito focadas na questão dos recursos naturais e na certificação da gestão florestal sustentável. Mas, em termos práticos, há que dar um passo em frente. E serei eu a concretizar esta nova estratégia.
Pode dar exemplos?
Passa, primeiro, por olhar para qual é o papel das empresas em toda a cadeia de valor da floresta, desde os produtores às grandes empresas que utilizam produtos florestais, como a 3M ou o IKEA. Depois, iremos trabalhar a forma de incrementar a bioeconomia (utilização do papel, da madeira e de outros produtos florestais). Trabalhamos com base num recurso natural. Temos de estudar como é que podemos trabalhá-lo de uma forma mais sustentada e integrada, ou seja, desenvolver práticas cada vez mais próximas da forma como a Natureza funciona. Iremos incrementar a economia circular, a reutilização e uma aproximação cada vez maior aos processos naturais. O futuro passa por mimetizar esses processos, regenerativos, em que nós não precisamos de introduzir tantas coisas externas que acabam por ter impactos negativos nos ecossistemas.
O que fazer perante o facto de a indústria florestal não gozar de muita popularidade?
Esse é outro desafio. É muito importante que seja estabelecido um diálogo entre a indústria dos produtos florestais e a sociedade em geral. Vivemos numa sociedade que, por um lado, continua a consumir e a não prescindir de produtos florestais e, por outro, tem uma rejeição social às atividades económicas ligadas à floresta. E um dos meus objetivos será gerar uma nova narrativa de comunicação entre as duas partes. Acho que as explicações técnicas não são suficientes. É preciso apelar ao lado emocional das pessoas. Esse será um grande desafio.
Como o caso do eucalipto em Portugal?
Existe alguma eucaliptofobia que tem que ver com um mau entendimento de qual é o seu papel na economia. Não estou a dizer com isto que o eucalipto é bom ou que o pinheiro é mau. Não. O que estou a dizer é que a sociedade pede um determinado tipo de produtos; consome-o e depois não valoriza a forma como eles são produzidos ou as atividades relacionadas com essa produção.
Como é que se cria essa narrativa, sobretudo quando o tema toma grandes proporções? Após os fogos do ano passado, a crítica aos eucaliptos subiu de tom e, de facto, a área de eucalipto é cada vez maior no País…
É muito mais fácil encontrar a bala de prata do que entender processos complicados. A eucaliptofobia em Portugal foi sendo construída ao longo de 40 ou 50 anos. Se eu for aqui ao mercado e fizer um inquérito aos clientes e vendedores sobre o eucalipto, de certeza que vou ter mais de 90% das pessoas a dizer mal. Mas ninguém saberá dizer-me porquê. Com base em alguns factos reais e outros que não são reais, criou-se uma espiral de sensação ou de conhecimento generalizado que leva a que, hoje, a posição “normal” seja ser contra o eucalipto, sem que haja uma explicação racional.
Os fogos, por exemplo, são uma boa explicação…
O problema dos fogos é muito mais complexo. Se a floresta arde, é porque há combustível. Fizeram-se as grandes florestações do Estado Novo, em que passámos a ter horror ao vazio, e plantámos árvores em todas as serras e cabeços que até aí não nunca tinham sido florestados. Mas nunca foi feito um modelo de gestão para aquilo que estávamos a criar. Basicamente, criámos fogueiras.
Mas como é que acontecem as ignições?
Há, e sempre houve, as naturais. Estamos num ecossistema em que o fogo é uma presença constante há milhões de anos, embora hoje tenhamos mais ignições do que era normal. Mas, se formos ver as estatísticas, estas dizem-nos que o problema é cultural. É desleixo. Lembro-me perfeitamente, até porque estava ligado a isso na Empordef, que nos fogos de outubro foram ativados meios de vigilância noturna da Força Aérea, os aviões C295 – cuja atividade eu geria diretamente – com câmaras de infravermelhos. Nos dias dos fogos, 15 e 16 de outubro, as câmaras dos aviões mostravam pessoas a fazer queimadas durante a noite e a madrugada. Com o País a arder! Depois, há aquela pressa de legislar e proibir tudo. Proibir e criminalizar o que poderia ser uma prática natural de queimar em determinado tipo de alturas do ano. As pessoas vão fazê-lo à noite, às escondidas. E este ano já morreram seis pessoas devido às queimadas.
Como é que se resolve o problema?
É uma coisa muito complexa de resolver porque é social, tem que ver com o modelo económico de desenvolvimento. Temos combustível que deixámos acumular e um conjunto de práticas de ignição. É muito mais fácil dizer que os culpados são os incendiários ou os eucaliptos. Evidentemente que há culpas, mas a questão não pode ser tão simplista. Temos de olhar para a nossa consciência e perguntar: “Qual é a minha parte de culpa?” Dizemos sempre: “Eles.” São sempre os outros, mas nunca questionamos a nossa parte de culpa. E há coisas tão simples como as mudanças culturais. Bastava que consumíssemos mais cabrito, logo teríamos mais rebanhos nos campos e menos combustível para arder nas florestas. E essa atitude iria induzir um conjunto de consequências, umas atrás das outras.
Voltando à sustentabilidade. Como é que se garante um planeta com uma floresta sustentável?
A sustentabilidade, enquanto conceito, é um processo em construção. Há uma evolução contínua e, por isso, é uma área em que ainda se procura encontrar novos caminhos e novas formas de garanti–la. Na verdade, existe uma discussão sobre dois pontos: um é combater a insustentabilidade, mitigando os efeitos das práticas atuais; outro é construir a sustentabilidade de raiz com processos disruptivos…
Mas podem fazer-se as duas em simultâneo?
Evidentemente. No entanto, nós, enquanto sociedade, temos trabalhado mais no combate à insustentabilidade, ao diminuir a poluição, ao dar atenção ao equilíbrio social das diversas regiões, etc. Não temos estado tão apostados em construir a sustentabilidade. Este é um dilema que ainda hoje continuamos a viver: melhorar os processos atuais, fazendo todos os dias um pouco melhor, ou desconstruir o que existe e partir para uma nova realidade?
Há assim uma diferença tão grande entre os dois métodos?
O exemplo da Tesla é bom para se perceber essa diferença. As marcas tradicionais de automóveis fabricam carros topo de gama com consumos elevados e, aos poucos, estão a reduzir as emissões. Ou seja, estão a combater a insustentabilidade. Depois aparece um empresário que quer entrar neste mercado e, em vez de seguir o padrão dos outros, faz uma disrupção e decide só fazer carros totalmente elétricos. Ele construiu a sustentabilidade.
Consumimos mais floresta do que aquela que produzimos?
Infelizmente, em Portugal, devido ao problema dos fogos, a área de floresta tem diminuído. Portugal era um dos países onde a floresta crescia de uma forma acentuada. A nível mundial, a área florestal tem crescido. Agora, o problema é que a área que diminuiu é a de ecossistemas mais frágeis e com um grande impacto a nível global, como a Amazónia, a Mata Atlântica ou as florestas africanas. As áreas das plantações feitas para a indústria não só têm crescido mas também são geridas de uma forma cada vez mais sustentável.
A desflorestação da Amazónia e das florestas africanas deve ser um dos temas que mais irão ocupá-lo neste novo cargo?
Não, porque vou dirigir o departamento florestal industrial, as working forests, ou seja, florestas que são criadas unicamente para produzir um determinado bem. As áreas de floresta natural são geridas por outro departamento. Mas evidentemente que essa é uma luta global de todos nós, enquanto cidadãos. Quanto mais protegermos estes ecossistemas naturais, que têm um funcionamento autónomo de milhões de anos, mais temos a ganhar.
Mas poderá trabalhar com empresas do setor que usam a desflorestação…
Essas já deixaram a prática da desflorestação de áreas naturais. Estamos a falar de empresas que têm um negócio montado em cima da fibra natural produzida na floresta e que fabricam um conjunto matérias-primas para as quais ainda hoje não encontramos alternativas como, por exemplo, o papel, quer seja de escrita quer de impressão, de higiene pessoal ou de embalagem.
Em termos de sustentabilidade, ainda existe um enorme espaço de manobra nas embalagens?
Há ainda muito a fazer. Há muito material utilizado que vem de fontes insustentáveis que poderia ser substituído. E esse é outro dos objetivos da estratégia que vou tentar implementar. Há já muitas empresas que estão a estudar formas de acabar com os plásticos, substituindo-os por produtos naturais.
Ao promover as árvores de que necessitamos para a economia, estamos a estragar os ecossistemas e a condenar determinadas espécies, como está a acontecer com variedades de árvores de fruto que, praticamente, já não existem no planeta?
A intensificação e a industrialização trazem a simplificação dos processos, e essa simplificação reduz alguma da qualidade. Nas florestas industriais, temos processos cada vez mais próximos da Natureza, tal como, por exemplo, nos vinhos. Veja a quantidade de produtores que estão a aderir à produção biológica e que adotaram práticas mais próximas da Natureza. Deixam de usar pesticidas e herbicidas. E não estamos a falar de pequenos produtores. Há grandes casas vinícolas que já têm toda a área de vinha com certificação biológica. Na floresta estamos a chegar às mesmas conclusões e vamos romper com determinados tipos de práticas. O WBCSD tem de liderar essa luta.