Há 100 anos, o Império Austro-Húngaro desfazia-se. A Áustria viu as fronteiras encolherem e acabaria mesmo por ser anexada pela Alemanha de Hitler e ocupada pelos Aliados após a II Guerra Mundial. A independência chegaria em 1955. Mas, apesar de ter apenas 64 anos, o tesouro austríaco não tem tido problemas em pedir dinheiro aos investidores com a promessa de pagar só no próximo século. Há dois anos, lançou uma obrigação a 100 anos com uma taxa de 2,11%, numa operação com recurso a um sindicato bancário. No passado mês de junho, reabriu essa linha encaixando mais 1,25 mil milhões com um juro de apenas 1,17% numa operação em que a procura mais do que triplicou a oferta.
A História mostra que, em 100 anos, a ordem das coisas pode mudar de forma radical. Basta relembrar o último século. Mas a incerteza tremenda do que acontecerá no muito longo prazo não parece desmotivar investidores sedentos de algum rendimento, numa era em que os juros da dívida europeia estão em 0% ou bem abaixo disso. As emissões centenárias como as da Áustria não são a regra, mas há um apetite do mercado por dívida com prazos cada vez mais alargados. Tradicionalmente, quando um Estado emitia dívida a 30 anos, já era considerado um prazo ultralongo. Mas esse conceito está a mudar, apesar de em Portugal o Tesouro mostrar relutância em navegar o mercado de dívida com prazos muito alargados.
Muitas pessoas que estão agora nos seus 50 sentem-se como quando os pais estavam nos seus 30. À medida que as pessoas vivem durante mais tempo, é natural que invistam também por mais tempo e, com as taxas de rentabilidade estruturalmente mais baixas, esta tendência tem vindo a ganhar tração
Commerzbank
“Muitas pessoas que estão agora nos seus 50 sentem-se como quando os pais estavam nos seus 30. À medida que as pessoas vivem durante mais tempo, é natural que invistam também por mais tempo e, com as taxas de rentabilidade estruturalmente mais baixas, esta tendência tem vindo a ganhar tração”, explicam Christoph Rieger e Michael Leister, analistas do Commerzbank, numa nota de investimento a que a EXAME teve acesso. Os principais clientes da dívida de maturidade ultralonga são seguradoras do ramo vida e fundos de pensões que, tradicionalmente, fazem uma gestão dos riscos de taxas de juro para que exista um “casamento” entre a duração dos ativos e dos passivos. Terá sido o interesse deste tipo de entidades que fez que a Irlanda e a Bélgica fizessem colocações privadas, junto de poucos investidores, de dívida a 100 anos. Os valores foram relativamente baixos (entre 50 e 100 milhões de euros).
Mas a história da obrigação austríaca é diferente. Os títulos centenários foram emitidos de forma normal e para todo o tipo de investidores. E, nos últimos meses, tem havido uma corrida no mercado secundário a este ativo, o que levou a uma valorização muito pouco comum nestas obrigações. Quase chegaram a duplicar de valor, o que foi visto como mais um sinal extravagante da era da ausência de retornos criada pelas políticas de compras de ativos e de taxas de juro negativas do Banco Central Europeu (BCE). “Para os investidores, o único upside que vejo é assegurar uma taxa de rentabilidade mais elevada numa obrigação com uma duração longa e um bom rating, permitindo-lhes correr mais risco em títulos com prazos mais curtos sem prejudicar os seus rácios de risco”, explica Jean-Christophe Machado, analista do Natixis, à EXAME. Os hedge funds também têm sido atraídos para a dívida ultralonga, para tentarem explorar o diferencial entre as yields destes títulos e os futuros e derivados de taxas de juro de longo prazo.
Antes da Áustria, e fora da Zona Euro, já outros países a tinham testado as emissões a 100 anos, mas com juros bem mais elevados. Em 2017, a Argentina, após o longo período em que esteve afastada dos mercados financeiros, convenceu investidores a dançarem o tango com a sua dívida durante 100 anos com uma taxa de 7,9% em títulos em dólares. Quem acorreu a essa operação enfrenta menos-valias potenciais significativas devido à frágil situação financeira do país e à eleição recente de Alberto Fernández para a presidência, um herdeiro do kirchnerismo e que promete políticas menos amigas do mercado. Antes da incursão do tesouro argentino na dívida ultralonga, também já o México havia recorrido a obrigações a 100 anos. Fez emissões em dólares, libras e euros.
Portugal fora da corrida à dívida de muito longo prazo
O ambiente de taxas de juro baixas faz que cada vez mais Estados ponderem emitir dívida a mais de 30 anos. Nos EUA, o Tesouro tem estudado a opção de lançar obrigações a 50 ou a 100 anos para trancar os atuais juros baixos por muito tempo. E na Zona Euro também é previsível que mais países lancem operações, ainda que não centenárias, pelo menos a mais de 30 anos.
“Apesar de existirem poucas contas com responsabilidades a mais de 100 anos, o aumento da necessidade de rendimento, de duração e convexidade num ambiente de taxas estruturalmente baixas é argumento para um crescimento continuado do tradicional segmento de mercado a mais de 30 anos”, realçam os analistas do Commerzbank. O banco alemão prevê que França e Espanha possam voltar ao mercado buscar financiamento a 50 anos, depois de terem realizado operações semelhantes em 2016. Para quem emite dívida, as atuais condições de mercado são favoráveis para lançar títulos de muito longo prazo, afirma Ciaran O’Hagan, responsável pela estratégia de taxa fixa do Société Générale.
Mas Portugal não tem feito grandes incursões na dívida com maturidades muito longas. A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) não tem ultrapassado os 30 anos nas emissões de dívida. E mesmo nesse segmento tem existido relutância, já que desde 2015 que não lança obrigações nesse prazo. Apesar dos juros perto de mínimos históricos, Jens Peter Sørensen, analista chefe do Danske Markets, refere à EXAME que “a grande questão é se haveria apoio para uma obrigação a 100 anos de mil milhões de euros, por exemplo”. E dá a resposta: “Provavelmente, o rating de Portugal teria de ser um pouco mais elevado.” Mesmo com as subidas dos últimos anos, a notação portuguesa está apenas entre um e dois níveis acima da categoria vista como “lixo” pelos mercados. Já a Áustria dispõe de um rating muito perto do máximo de AAA.
É uma boa solução para os soberanos ancorarem os custos de financiamento baixos. Mas isso apenas funciona para países com um rating muito elevado.
Jean-Christophe Machado
A dívida a 100 anos até “é uma boa solução para os soberanos ancorarem custos de financiamento baixos”, afirma Jean-Christophe Machado. Mas o analista do Natixis considera que “isso apenas funciona para países com um rating de nível muito elevado”, explica que “Portugal teria de oferecer uma taxa bastante melhorada para atrair procura para uma obrigação centenária e mesmo títulos a 50 anos seriam um desafio”. Além de os investidores geralmente exigirem juros mais altos em função do prazo, há outro fator a complicar uma emissão deste tipo. No seu programa de compras, o BCE não inclui títulos soberanos com prazos superiores a 30 anos. Sem o apoio do banco central, as taxas seriam ainda mais elevadas. Por outro lado, Portugal, que se debateu com o problema de não ter dívida elegível para que o BCE cumprisse a meta das compras, estaria a emitir títulos que não entrariam no radar do banco central.
Ainda assim, a opção de financiamento a 30 anos é vista como positiva pelos analistas, apesar de Portugal ter já desperdiçado oportunidades para o fazer. “Penso que haveria bastante procura para uma obrigação a 30 anos”, considera Jens Peter Sørensen. Também Jean-Christophe Machado afirma que uma nova operação nesse prazo “seria um bom primeiro passo”. Mas considera que “o melhor timing para o fazer teria sido em agosto ou no início de setembro”. Nessa altura, o mercado especulava sobre quão longe nas compras e nos juros negativos o BCE iria na reunião de 14 de setembro. Essa espécie de pânico de que a política do banco central dificultaria ainda mais a tarefa de encontrar rendimento levou a uma corrida a ativos que oferecessem algum tipo de retorno. Nem que, para isso, tivessem de arriscar em títulos, como os austríacos, que têm o reembolso previsto apenas em… 2117.
Artigo publicado originalmente em dezembro na edição n.º 428 da EXAME