Cinco anos depois, os Moonspell estão de regresso aos discos de originais com Far From God, editado a 4 de julho. O novo álbum nasce de uma crise criativa e de identidade, mas também de uma vontade de reafirmar o lugar da banda no metal gótico.
Depois de Hermitage, gravado em 2020 e editado em 2021, a banda manteve uma atividade intensa, entre digressões, concertos comemorativos, o projeto sinfónico com a Sinfonietta de Lisboa e a edição de Opus Diabolicum. Mas faltava-lhe, segundo o vocalista, Fernando Ribeiro, a proximidade criativa necessária para construir um novo álbum. Havia também o receio de que os Moonspell se tornassem uma espécie de tributo a si próprios, presos à celebração de discos fundamentais como Wolfheart ou Irreligious, ambos já com três décadas de história.
O novo Far From God surge como resposta a esse impasse. Produzido por Jaime Gomez Arellano, o disco assume deliberadamente a matriz do metal gótico, num regresso ao lado mais romântico, sombrio e pesado da banda. Não se trata, porém, de nostalgia, defende Ribeiro, mas de uma procura de identidade feita através de um gesto aparentemente simples: experimentar menos para chegar mais perto daquilo que os Moonspell reconhecem como seu.
O título abre também um campo de leitura mais amplo. Em Far From God, Deus pode ser entendido como religião, mas também como Humanidade, comunidade ou potencial ético. O disco atravessa referências ao amor trágico, à culpa, à redenção e à falência empática de um tempo marcado pela polarização, pelo pensamento rápido e pela violência das redes sociais. Ribeiro rejeita a ideia de um álbum político em sentido estrito, mas reconhece que hoje dificilmente a arte escapa às interpretações do presente.
Nesta entrevista, o vocalista fala da crise que antecedeu o disco, da necessidade de resistir à saudade como destino português e da forma como a banda continua a procurar futuro sem renegar o passado.
Foram cerca de cinco anos sem editar um álbum, o que andaram a fazer nesse tempo?
O Hermitage saiu em 2021, mas foi gravado em 2020, pelo que foram seis anos sem fazer música nova, mas não estivemos propriamente parados. Não só não parámos como estivemos sempre a arranjar coisas para fazer, porque temos de continuar a estar no radar dos fãs. A cena metal é bastante mais competitiva hoje em dia e não podemos dar-nos ao luxo de ter crises existenciais, embora estas surjam de vez em quando. Aliás, a dada altura senti que muito do que andámos a fazer durante esse período, como o concerto com a Sinfonietta de Lisboa, o lançamento do DVD, as tournées que fizemos e continuamos a fazer, os concertos de celebração dos 30 anos do Wolfheart, etc., foram de certa forma expedientes para mantermos a banda unida e ativa. Porque sentia que a banda, naquilo que é necessário para fazer um álbum, em termos de proximidade, ideias, direção, estava a demorar um pouco a chegar lá.
Por que razão isso aconteceu?
Talvez porque eu, que tenho esse papel, não estava a cumpri-lo assim tão bem. O Pedro e o Ricardo foram sempre fazendo músicas e algumas delas, depois de muita transformação, chegaram ao formato final de serem músicas do álbum, mas eu continuava a achar-nos um pouco perdidos. Talvez fosse só na minha cabeça, mas estava com muito receio de estarmos a tornar-nos apenas uma espécie de banda tributo aos Moonspell, que se limitava a celebrar o passado. O Wolfheart fez 30 anos, agora é o Irreligious a fazer outros tantos. São álbuns grandes, é verdade, que têm de ser celebrados, mas não queremos passar o resto da vida a fazer isso.
Mas esse é sempre o risco que as bandas com uma grande carreira correm, não é? Até mesmo por aquilo que o público quer ouvir quando vai a um concerto vosso.
Talvez, mas, por outro lado, nunca fomos uma banda muito comum no que às nossas decisões diz respeito. Para já, a nossa direção musical sempre foi um bocado zeitgeist. Por exemplo, em 1999 tínhamos o Y2K, o apocalipse estava a chegar, havia o terceiro segredo de Fátima, a bolsa a crachar e fizemos um álbum sobre isso, que é o Butterfly Effect. Não foi muito bem recebido na altura, mas depois até acabou por não correr mal. E agora quando editamos mil vinis desse álbum, esgotam de imediato. E as pessoas querem ouvir essas músicas ao vivo. Portanto, esse desafio de nunca sermos completamente consensuais acabou por se tornar uma vantagem. Respondendo à pergunta, esse foi um risco que nunca corremos e temo-nos aguentado, apesar das crises todas, existenciais ou não. E também nunca fizemos aquele exercício, que hoje em dia já nem tem assim tanta credibilidade, de acabar, depois voltar, anunciar um último concerto que nunca o é, mais uma última tournée que se prolonga para sempre. Com todo o respeito por quem o faz, nós nunca fomos por aí.
Portanto, acho que foi mais uma crise artística e de identidade, em que precisávamos de alguém que chegasse e dissesse: “Vamos fazer isto!” E quando finalmente assumi que íamos fazer um álbum de metal gótico clássico, as peças começaram finalmente a encaixar-se.
Nós precisamos de um conceito para começar a trabalhar e isso leva tempo. E estivemos a comprar tempo com todas as coisas que andámos a fazer. Mesmo assim e apesar de termos feito um disco que é evidentemente Moonspell, ainda há pessoas que estavam à espera que fizéssemos outra coisa, não sei muito bem o quê, é incrível [Risos].
Se calhar, não estavam à espera de um álbum tão clássico, sem a experimentação que tem sido a norma dos últimos discos da banda… De um álbum tão óbvio, talvez.
É engraçado porque até acho que nós experimentámos bastante com este disco pelo simples facto de não experimentarmos tanto. Se calhar, era exatamente isso que nunca tínhamos feito. O próprio conceito de termos feito um som mais óbvio me agrada. Este hiato sem lançar álbuns acabou por ser um bocado fruto disso, não é? Dessa procura de nós próprios. Fomos em busca dessa identidade e o resultado foi este disco. Não nos faltavam caminhos e quando há caminhos, há encruzilhadas, mas, ao contrário dos discos anteriores, que tinham todo um conceito, este é muito mais espontâneo por causa do caos mental em que eu estava. O Pedro e o Ricardo são pessoas mais organizadas porque são compositores, mas eu estava completamente à procura de algo que tardava em surgir e o resultado final também acabou por ser fruto disso.
E este título, Far From God, também tem a ver com os tempos que vivemos atualmente?
Eu estou sempre a ver muita coisa. Sempre a ouvir música. E nesse processo entrei numa espécie de revivalismo gótico, nem tanto do metal. Depois comecei a ver uns filmes mais góticos, tipo o Nosferatu, do Robert Eggers, que é um filme incrível e muito importante para a estética deste álbum. Também ouvi uma banda sueca que são os Tribulation, que fizeram um álbum de metal gótico fantástico em 2024. E o título Far From God começou um bocado como uma piada nossa, em relação a certas atitudes que víamos na sociedade. Género, “epá, aquela pessoa está bué longe de Deus”.
A maioria das pessoas de direita que conheço estão sempre a dizer-mepara não me meter em política. Pelo contrário, as pessoas de esquerda, estão sempre a dizer-me que tenho de ser mais militante em termos políticos
Em que sentido?
Não é bem uma crítica, é algo mais nietzschiano, no sentido em que determinada pessoa não está a cumprir o seu potencial, que é algo hoje muito presente nas redes sociais. Foi até publicada uma reportagem muito interessante na VISÃO sobre este assunto, em que se falava do fast thinking, quando as pessoas retiram do contexto uma citação de um filósofo ou de um psicólogo que esteja na moda, para a adequar às suas próprias crenças ou convicções. O que até serve para afirmar, por exemplo, que a Terra é quadrada. Isso foi algo que influenciou muito o nosso disco. As pessoas estão cada vez mais a disparar primeiro e a perguntar depois. E apesar de ser um disco ultrarromântico e não pretender ser político, há aqui toda uma componente religiosa. Hoje discute-se em demasia a política, quando se calhar deveria estar a discutir-se a religião. Até porque muita da política hoje em dia está muito misturada com a religião. Parece que há uma constante violenta nas três principais religiões monoteístas e as pessoas que as representam estão completamente desfasadas, ainda mais do que o Nietzsche um dia imaginou, dos ensinamentos e intenções originais destas religiões. Ou seja, estão Far From God. E o que são as religiões, afinal? Apenas um conjunto de regras tornadas dogmas morais pelos homens. Mas as religiões primitivas serviam apenas para entender o mundo. O cristianismo, o islamismo e o judaísmo também tiveram a sua fase primitiva. O objetivo final de qualquer religião é levar-nos a cumprir o nosso potencial, como dizia o Nietzsche, que é o potencial de sermos bons.
Porquê é que há essa distância de Deus?
Neste caso, Deus podem ser os nossos amigos, a nossa família, as pessoas no geral. Se calhar, até podemos falar em estar longe da Humanidade, se quisermos tirar um pouco do conceito religioso do far from God. Porque muitas das ações e atitudes que temos hoje em dia, enquanto sociedade, são de facto completamente contraproducentes do ponto de vista humano. Se calhar, a expressão será um bocadinho mais inteligível assim.
Isso acontece porquê? Terá a ver com a rapidez das redes sociais, como disse há pouco, com essa necessidade de pensamento rápido, de satisfação rápida?
Sinceramente não consigo ser meigo em relação a isso. Trata-se de uma escolha. Nunca, como agora, tivemos tanta informação, tantas fontes, tanta bagagem cultural. Temos livros, temos arte, temos dinheiro e escolhemos a ignorância e a má divisão dos lucros, por exemplo. Não consigo deixar de pensar que há aqui uma escolha consciente, quase ao nível de um Maquiavel. As pessoas poderiam ser esclarecidas, mas não querem sê-lo. E isso resultou numa total polarização do mundo. Essa falência humana, essa falência empática, é uma escolha. Só pode ser uma escolha.
Como é que os Moonspell, enquanto banda e figuras públicas, lidam com o ódio, cada vez mais presente nas redes sociais?
Faz parte das regras do jogo. Agora, por causa deste álbum, temos dado muitas e boas entrevistas. Os jornalistas fazem um bom trabalho, mas depois também é difícil do vosso lado porque se não tiverem um clickbait as pessoas nem sequer pegam. É um bocado como aquele velho princípio de que qualquer propaganda é boa propaganda, mas há uma grande falta de critério nisso. Se anunciar nas redes que temos um novo álbum, OK, temos já uma boa tração. Mas se escrever que a comida portuguesa não presta, ui, esquece. Tive uma cena assim agora na entrevista que dei à Blitz/Expresso, quando disse que um dos aspetos que mais contribuíram para o sucesso internacional dos Moonspell foi o facto de nós não sermos reféns da saudade. Nunca fomos. Saudade é um sentimento muito bonito, mas por vezes muito despropositado. Temos muito orgulho dessa palavra, que achamos que nos faz especiais, quando na verdade nos torna cobardes.
Em que sentido?
Lembro-me de muitas bandas que começaram na mesma altura, que também queriam ir lá para fora, mas não conseguiam estar muito tempo longe de Portugal, deste nosso confortozinho do bitoque, da mini, que também adoramos. Aquele instinto tão português de estares em Berlim à procura de um restaurante português para matar as saudades da comida de casa. Nós também passámos por isso, mas não foi isso que nos fez desistir, até porque sabíamos que era importante ir lá para fora e não podíamos estar sempre a pensar nas mães, nas namoradas ou nos amigos. Agora chama-se resiliência, mas eu prefiro dizer que foi precisamente essa resistência à saudade que nos fez ir lá para fora. Mas voltando à pergunta sobre o ódio nas redes sociais, creio que é consequência de um movimento muito estranho, que passa por esta nova obrigação de autocentrismo, de sermos sempre nós em primeiro, de sermos constantemente a melhor versão de nós próprios, esquecendo tudo e todos os que nos rodeiam.
Esses filósofos todos, como o Feuerbach, o Espinoza ou o Nietzsche, hoje em dia dava-lhes o badagaio, porque não conseguiriam competir com esta escolha tão decisiva e orgulhosa pela ignorância
Mas isso também é humano.
Mas atualmente é demais porque as pessoas sempre foram muito mais altruístas do que são hoje. Historicamente, a espécie humana prevaleceu por ser gregária. O que nos desenvolveu, até intelectualmente, foi a comunicação entre uns e outros. Somos uma espécie que depende do outro. Um homem não é uma ilha, OK, mas agora comportamo-nos um bocado como um arquipélago de ilhas isoladas. Por isso é que para mim não é nada surpreendente a ascensão da extrema-direita, porque são pessoas que não pensam no bem comum, mas antes no bem de uma elite, digamos assim, à qual querem pertencer. E para isso é necessário bloquear qualquer sentido comunitário, um conceito que hoje em dia está em risco devido à tal filosofia individual do eu primeiro, que até pode ter começado como uma boa intenção, mas acabou por envenenar por completo a Humanidade e a sociedade. O Feuerbach, que é o fundador do ateísmo hermenêutico, defende que Deus é apenas uma projeção das nossas maiores qualidades e como tal tem uma raiz humana. Esses filósofos todos, como o Feuerbach, o Espinosa ou o Nietzsche, hoje em dia dava-lhes o badagaio, porque não conseguiriam competir com esta escolha tão decisiva e orgulhosa pela ignorância.
As redes sociais acabam por validar a ignorância de uma forma aparentemente intelectual, é isso?
Sim, eu não a valido e acho que as pessoas também não devem validá-la, porque têm ferramentas para isso. Não deixam, no entanto, de existir virtudes nas redes sociais. Há um livro muito bom que é O Arrependimento de Prometeu, de um filósofo alemão chamado Peter Sloterdijk, no qual ele compara as redes sociais ao fogo de Prometeu, que permitiu à Humanidade aquecer a comida, construir ferramentas e avançar a civilização. Mas também as armas e com elas as guerras. E ele compara essa utilização em vida do fogo, desde os seus primórdios até à modernidade, com a era da internet, que não deixa de ser uma oportunidade incrível de conhecimento. E a Humanidade, no seu grosso modo e com raras exceções, está mais uma vez a perder a oportunidade do fogo. Estamos a utilizar isso como justificação para as nossas parvoíces, os nossos tédios e especialmente para as nossas vinganças pessoais. Hoje em dia, se eu chamar filho da puta ao Marilyn Manson, ele talvez vá saber que o fiz. Antigamente isso não acontecia e essa distância, essa hierarquia entre o artista e o público, faz imensa falta.
A arte ou a música, no caso dos Moonspell, deve ser política?
Essa pergunta é engraçada, porque a maioria das pessoas de direita que conheço estão sempre a dizer-me para não me meter em política. Pelo contrário, as pessoas de esquerda, estão sempre a dizer-me que tenho de ser mais militante em termos políticos [Risos]. No caso dos Moonspell, posso dizer que não somos uma banda política, como o são, por exemplo, A Garota Não, os Linda Martini ou a Capicua. Por outro lado, hoje em dia tudo é político. Mas no nosso caso seria especulativo, pelo menos em relação a este álbum. Temos estado aqui muito focados no ódio existente nas redes sociais e este álbum fala muito mais sobre amor.
Mas não pode o amor ser uma resposta política ao ódio?
Poderá sempre haver uma especulação política que se pode fazer, mas não temos de todo um álbum político, nem somos sequer uma banda política. Acima de tudo, não é isso que vai validar-nos enquanto banda. Ou seja, a política não é uma causa para os Moonspell, mas não deixa de ser uma consequência. Por outro lado, parece haver cada vez mais um movimento a apelar para que toda a arte seja política, o que acaba por ser muito divisivo, até porque de vez em quando os Moonspell podem querer fazer só um álbum sobre amor baudelairiano, como é o caso deste. Se isso é política ou não, já depende da interpretação de cada um.
E que amor é este que os Moonspell tocam neste álbum?
É um conceito de amor extremamente baudelariano, extremamente shakespeariano. É uma tragédia pessoal e porque o amor é dor. Para amarmos, temos de sair de nós próprios. Por isso é que acho que o amor está tão fora de moda, porque o ódio permite-te seres tu próprio. Odeias, tens a tua convicção e até arranjas bastantes parceiros que pensam da mesma forma. O ódio é fácil. Pelo contrário, o amor é difícil, porque para se amar alguém temos de abdicar de partes da nossa personalidade, é como ser pai, senão não dá. Nós, enquanto banda, somos herdeiros desse humor trágico.
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