Depois das biografias de Vasco Santana, de Simone de Oliveira, de Maria Antónia Palla (escrita a quatro mãos com a biografada) e de Maria Teresa Horta (best-seller que arrecadou o Prémio Livreiros Bertrand para Autores Lusófonos 2024), Patrícia Reis publica agora uma entrevista de vida em forma de livro – A Última Lição de Álvaro Siza Vieira (ver caixa nestas páginas). A escritora e jornalista, 55 anos, desabafa nesta entrevista à VISÃO: “Não quero fazer mais biografias. É muito difícil.” Arriscamos a dúvida de que a entrevista de vida a Siza Vieira, um dos dois arquitetos portugueses que conquistaram o Pritzker, o maior prémio mundial da profissão (o outro foi Eduardo Souto Moura), seja a última incursão biográfica da autora. Isto porque também diz o seguinte: “Fico presa às histórias das outras pessoas, que me surpreendem sempre. Não há matéria mais rica do que outra pessoa. Não há, não existe.” É igualmente curioso que diga que não tem “disciplina nenhuma” na escrita, quando, em apenas quatro meses, pôs dois títulos no mercado – em janeiro passado publicou o seu 10º romance, O Lugar da Incerteza (ed. Companhia das Letras, 256 págs., €17,45). Mãe de Sebastião Bugalho, o cabeça de lista da AD nas últimas eleições europeias, Patrícia Reis é uma feminista de longa data e define-se politicamente como de centro-esquerda. “Há um lado humanista que a esquerda ainda tem e que a direita ignora – e esse, para mim, é fundamental”, diz.
Começou no jornalismo muito nova, aos 18 anos. À época, estava já convicta de que profissionalmente era por ali que queria ir?
Queria uma profissão na qual pudesse escrever. Isso para mim era a coisa mais clara do mundo. E sou naturalmente curiosa. É um problema dramático, porque interesso-me por tudo e gosto mesmo é de conversar. Na segunda edição de O Independente, em maio de 1988, vi um anúncio desenhado pelo designer Jorge Colombo, que dizia: “Repórteres absolutamente excelentes, precisam-se.” E eu candidatei-me. Acabei por ser a única pessoa que entrou n’O Independente por provas. Não era filha de ninguém e não vinha da Universidade Católica. Era só eu, uma miúda. Fiz provas escritas e uma entrevista com o Miguel Esteves Cardoso, à qual a Inês Pedrosa assistiu. E foi a Inês que insistiu para que eu ficasse.
Como correu a entrevista?
Estava nervosíssima e só dizia: “Já sei.”
“Já sei”?…
Era a única resposta que eu tinha, de tão nervosa que estava. Não foi assim um momento feliz na minha vida, mas a Inês conseguiu ver para lá disso. Depois comecei a trabalhar n’O Independente e foi como dizia o headline de promoção do jornal: “Não há amor como o primeiro.”
Esse gosto pela escrita já vinha muito de trás?
Sim, desde pequenina. E o gosto pelos jornais também. Havia sempre jornais em casa, que naquela altura eram coisas especiais. Agora estamos cheios de conteúdos, não estamos cheios de informação. Mas, naquela altura, um jornal era uma pequena preciosidade. Lia-os do princípio ao fim. Foi uma espécie de paixão que se manteve, e que se transformou no vício dos jornais e das revistas, porque sou jornalista. Acho que se é jornalista, não se está jornalista. São coisas diferentes.
Siza Vieira conta que, a determinada altura, quando já estava no 3º ano do curso, Carlos Ramos, que era o orientador daquela cadeira, passa por um trabalho que ele estava a fazer, um projeto para um laboratório de química, e diz: ‘Já percebi que não pesca nada disto. Só lhe dou um conselho – vá a uma livraria e compre uns livros e revistas de arquitetura.’ [Risos.] E ele assim fez
E também já escrevia ficção desde muito nova?
Sim. Na adolescência tive uma fase de poemas – muito maus, meu Deus do céu. Felizmente não se salvaram. Aliás, não guardo nada. Por mais extraordinário que possa parecer, estou nos jornais desde 1988 e não guardei um único artigo que tenha escrito, uma única entrevista, uma única reportagem. Não sou essa pessoa. É para isso que existem arquivos. Não tenho essa necessidade de manter a memória daquilo que fiz. Portanto, há muita coisa que fiz e de que já não me recordo. Desde 1988 até agora é uma eternidade. Mas, além do fascínio da escrita, há também o fascínio do jornalismo no sentido de ouvir o outro, o outro como possibilidade de encontro de uma outra história, de uma outra perspetiva, de uma outra opinião. A possibilidade de enriquecer à conta de entrevistar o outro, de conversar com o outro, de perceber outras realidades. Isso ainda hoje é um fascínio.
Tendo em conta a biógrafa que hoje também é, no jornalismo gostava de fazer perfis?
Fiz tudo o que se possa imaginar. Desde a breve com o boletim meteorológico até ao relato de futebol, coisa que odeio.
Relato de futebol?…
Por exemplo, diziam-me: “Patrícia, há um jogo muito importante. Vai fazer reportagem, ver o que é que as pessoas dizem umas às outras, o que se passa nas rulotes dos torresmos e pipis”, e por aí adiante. Fiz coisas muito diferentes umas das outras. Mas o que mais gosto de fazer é conversar.
Ainda assim, o seu gosto por fazer biografias tem raiz nos perfis jornalísticos que escreveu?
Não tenho gosto nenhum em fazer biografias.
Já fez cinco…
Mas não tenciono fazer mais nenhuma. É muito difícil.
É mais fácil a ficção?
Incomensuravelmente mais fácil. Só dependo de mim. Fazer uma biografia é um trabalho insano. É um trabalho de pesquisa atroz, de andar atrás das pessoas. Só fiz uma biografia fácil, que foi a de Vasco Santana, que estava morto. As outras todas foram biografias de mulheres fortíssimas, diferenciadíssimas – e todas vivas. A responsabilidade é outra. É toda uma outra conversa. A biografia da Maria Teresa Horta, por exemplo, foi um trabalho incrível, muito gratificante e muito enriquecedor, claro. Mas, caramba, não quero fazer mais biografias.
Sofreu com essa escrita?
Imenso. Também sofro com a pesquisa, sofro com as pessoas que me dizem: “Eu tinha uma história para contar, mas não posso – ela ainda é viva.” Também tive isso. Faz uma grande diferença ter-se um biografado que está vivo ou que está morto. Não tem nada a ver. E a Teresa, felizmente, estava viva. Digo felizmente porque queria muito que ela visse o livro. Ela teve o maior gesto de generosidade comigo, que foi dizer: “Não, não quero ler antes de ser publicado.” Assumiu a responsabilidade do que me disse e confiou no meu trabalho. Foi um alívio, porque acho que ela teria mudado tudo [Risos].
Já na escrita ficcional entra numa dimensão em que não há estados de alma?
Há sempre estados de alma. O meu mais recente romance, O Lugar da Incerteza, não foi escrito a partir de um lugar de sofrimento, foi escrito a partir de um lugar de profundo incómodo, uma observação ética do mundo, que é dizer: “Isto é o mundo no estado em que nós o praticamos neste momento. Será que isto é bom?” E eu acho que não é bom. Não é bom não estarmos a ouvir as pessoas, não é boa a polarização, nada disto é bom. Mas As Crianças Invisíveis, por exemplo, é um romance [de 2019] que partiu de um lugar de sofrimento, porque aí fui buscar a “Patrícia jornalista” para fazer pesquisa, fui a instituições de acolhimento, falei com crianças que foram adotadas, com jovens que estiveram em instituições até à maioridade, com assistentes sociais, com psicólogos, com magistrados de tribunais de menores… As histórias que ouvi foram, por vezes, avassaladoras. Lembro-me de estar a escrever esse romance e chorar baba e ranho. E não há nenhum decalque da realidade, excetuando a história de um miúdo que é devolvido à instituição, e a família que o adotou, ou que iria adotá-lo, deixa dentro da mala uma fotografia dele com a família toda. “Devolvo-te, mas mando-te uma fotografia de todos nós felizes e sorridentes.” Achei aquilo uma maldade tão grande, uma violência tão grande, que é, no romance, a única história decalcada da realidade.
O seu lado de jornalista continua a ser-lhe útil…
Sirvo-me muito dele para fazer pesquisa para os livros. Agora, os livros dão o trabalho que se quiser ter com eles. Dão o trabalho que a nossa cabeça e que a nossa criatividade pedem que se tenha. É muito diferente de uma biografia. Imagine-se o caso da Maria Teresa Horta, que nasceu em 1937. Há muita coisa para contar, ainda por cima sobre aquela mulher. É que, depois, só escolhi mulheres que têm vidas loucas e difíceis. Mulheres incríveis, é um privilégio. Ainda assim…
Tenho um filho na política [Sebastião Bugalho, cabeça de lista da AD nas últimas europeias] e, por isso, reservo-me o direito de manter a minha opinião para mim própria [sobre assuntos de política nacional], para que não haja mais confusão, além da que já existe. As pessoas têm tendência para confundir. Mas, na verdade, acredito que a literatura também é um gesto político e que é também nos temas que abordamos que nos interrogamos politicamente
É uma escritora diurna ou noturna?
Sou uma escritora que acumula e coleciona mentalmente. Não escrevo todos os dias, nunca serei essa pessoa. Essa coisa do escritor profissional que acorda de manhã, bebe o copo de sumo e depois está seis horas a escrever não será nunca para mim, nunca conseguirei fazer isso. Até porque estou na vida, tenho de fazer mais coisas, tenho de ganhar dinheiro, ninguém ganha dinheiro com os livros de ficção. Portanto, vou colecionando e, depois, há um momento em que já não dá mais: então sento-me e escrevo.
Não dá mais como?
A minha cabeça já não consegue acumular mais, e tenho de me sentar e escrever. Tenho de roubar horas de vida à vida para escrever. Não tenho disciplina nenhuma. Zero. Posso estar meses sem escrever uma linha.
Ninguém diria – nos últimos quatro meses pôs dois títulos no mercado…
É uma coincidência temporal. O meu trabalho enquanto jornalista e o meu trabalho como escritora são duas coisas diferentes, que irei sempre fazer. Neste momento, coincidiu a publicação do romance e da entrevista biográfica a Siza Vieira. Entreguei também um livro sobre menopausa à Fundação Francisco Manuel dos Santos, que igualmente sairá, algures no tempo. É a vida. Uma pessoa precisa de trabalhar, não é?
Tira algum prazer da procrastinação?
Não. Nunca fui uma pessoa da preguiça. Gosto de fazer coisas. Preciso que a minha vida seja um bocadinho caótica e que as coisas se sobreponham umas às outras. Seria muito infeliz se só fizesse uma coisa. Também por isso, ser jornalista é perfeito, porque nunca se faz só uma coisa, fazem-se várias. Está-se sempre a aprender, tem-se sempre de estudar, e adoro estudar. Há sempre a ideia do “não sei, mas vou saber”. Apesar de viver agora nas crises todas que se conhecem, é a melhor profissão do mundo.
Antes de começar a conversar com os seus biografados, já os tem, como disse, muito bem estudados. Mesmo assim, surpreendem-na?
Sempre. Ainda há bocado estava ali numa mercearia, fui lá buscar um pacote de natas, e estava lá uma senhora a contar uma história. E eu fico presa às histórias das outras pessoas, que me surpreendem sempre. Não há matéria mais rica do que outra pessoa. Não há, não existe. Parto sempre para as conversas com a ideia de que vou descobrir qualquer coisa que não sei. E vai ser bom. Por exemplo, no caso da Maria Teresa Horta percebi muito rapidamente que era fundamental entender a infância e a adolescência dela, porque isso justificaria a mulher em que se tornou, de facto. Se não se perceber a Teresinha, não se consegue perceber a Maria Teresa. Muita gente não a percebeu, porque não tinha contexto, e eu, de repente, tive acesso a histórias incríveis que ela contava e que, porventura, serão a verdade dela, que terá autoficcionado, mas estava no seu direito. Quem sou eu para questionar isso? Para muitas das coisas que ela contou, eu não tinha testemunhas para corroborar nada. Era a memória dela. E, a partir do momento em que isso ficou claro, no meu texto de introdução, acho que estava tudo certo.
E que surpresas lhe reservou o arquiteto Siza Vieira nas conversas que teve com ele e que resultaram no seu mais recente livro?
O Siza surpreende muito. Este não é o primeiro livro que faço com ele. Fiz um, há muitos anos, no âmbito da Expo’98, por causa do Pavilhão de Portugal. Era um homem no seu auge. Já era “o Siza”. Mas a coisa que mais me surpreende nele é a sua total curiosidade juvenil. É uma pessoa que se interessa pelas coisas, pelo mundo. E é da comunicação. Aceita um projeto, mas vai querer saber a quem se destina. É para uma comunidade e é uma igreja? Então embora lá conhecer a comunidade. Acho isto maravilhoso. As conversas que ele relata que teve com os velhinhos para a igreja de Marco de Canaveses, que teve com o padre, que teve com um teólogo… Tudo isto é o princípio, que acho fascinante, de estudar para saber, e fazer para estudar para saber. E o talento é uma coisa que me deslumbra. Estava a entrevistá-lo e ele desenhava. Três traços e está um homem feito. Uma casa, uma árvore. Tenho uma admiração profunda por artistas.
Em termos arquitetónicos, aprecia a obra de Siza Vieira?
Muito. Sobretudo, aprecio a forma como ele trata a luz indiretamente. É um homem extraordinário que tem essa coisa da luz.
Afinal, provém da chamada “Escola do Porto”…
Devíamos encher a boca de orgulho com a Escola de Arquitetura do Porto. A forma como foi reformulada por Carlos Ramos [nos anos 1950/60], os professores incríveis que teve, a aposta numa arquitetura de excelência, mas também num conhecimento de excelência… O Siza conta que, a determinada altura, quando já estava no 3º ano do curso, Carlos Ramos, que era o orientador daquela cadeira, passa por um trabalho que ele estava a fazer, um projeto para um laboratório de química, e diz: “Já percebi que não pesca nada disto. Só lhe dou um conselho – vá a uma livraria e compre uns livros e revistas de arquitetura.” [Risos.] E ele assim fez. Tem uma caixa cheia de livros e de revistas, e não consegue desfazer-se de nada, porque, de repente, pode sentir falta do conhecimento que sabe que está ali.
Não é dada a intervenções políticas públicas. Porquê?
Nunca estive propriamente calada. Sou dada a manifestações públicas relacionadas com a política quando têm a ver com questões de género e com o que acredito, piamente, que é a causa feminista, no sentido de as mulheres terem os mesmos direitos e as mesmas oportunidades que os homens. Ando há anos a escrever sobre isto, e não há nenhum gesto a este nível que não seja político – sobretudo agora, com a extrema-direita tão forte e com tanta vontade de reverter direitos adquiridos. Sempre assumi que tenho uma voz pública e, nas minhas crónicas, também já escrevi muito sobre Trump, sobre Israel e a Palestina, e por aí fora. Já quanto a assuntos gerais da política nacional, tenho um filho na política [Sebastião Bugalho, cabeça de lista da AD nas últimas eleições europeias] e, por isso, reservo-me o direito de manter a minha opinião para mim própria, para que não haja mais confusão, além da que já existe. As pessoas têm tendência para confundir. Não vale a pena. Mas, na verdade, acredito que a literatura também é um gesto político e que é também nos temas que abordamos que nos interrogamos politicamente.
Diria que é uma pessoa de esquerda?
De centro-esquerda, claramente. Acho que há um lado humanista que a esquerda ainda tem e que a direita ignora. E esse, para mim, é fundamental.