Se bateste com a cabeça e te dói o galo, bate outra vez, agora do outro lado: “Dá-lhe outra, para passar essa….”. Era, pelo menos, o que me recomendavam os mais velhos da família, quando, em criança, me queixava de que “me doía aqui”. Não havia pieguices. Ora, as crises são como os hematomas: acabam por sarar, até que venha outra, que faça esquecer a anterior. Por isso, as “contas certas”, o “controlo do défice” e a “redução da dívida”, até há pouco tempo música para os ouvidos dos eleitores, traumatizados pelos anos da troika, é uma conversa que já não está a render. Com uma inflação a esbarrar nos dois dígitos, um custo de habitação impossível e a degradação progressiva dos padrões de vida, os eleitores não querem saber do crescimento recorde do PIB, em 2022, para uns estratosféricos 6,7%, quase o dobro da média europeia; nem da redução da dívida para 114% do PIB, uns 13 pontos abaixo do período do início da geringonça; muito menos, do défice de 1,3%, um número “espetacularmente” baixo, tendo em conta o histórico e o contexto. Não: esse paleio das contas certas, com que o PS esvaziou, nos últimos sete anos, o discurso da direita, deixando-a sem bandeiras, já não convence ninguém. Sim, “o País está melhor, mas as pessoas estão pior”: a frase de Luís Montenegro, extraída dos paleolíticos tempos em que ele ainda não era oposição e o PSD estava no poder, é a mesma que, por outras palavras, e quase sem se dar conta, o Governo vai repetindo, implicitamente, todos os dias, em declarações, entrevistas ou debates parlamentares. Longe da época neolítica das “posições conjuntas”, firmadas à esquerda, a CGTP convocou, para hoje, um Dia Nacional de Indignação, Protesto e Luta.
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