O artista plástico português Bordalo II disfarçou-se de trabalhador das obras para chegar junto do palco-altar da Jornada Mundial da Juventude, no Parque Tejo, em Lisboa, e desenrolar na sua escadaria um longo tapete de 30 metros com notas de 500 euros estampadas.
A ação, rápida, clandestina e efémera, como costumam ser todas as suas ações de crítica social no espaço público, foi partilhada ao final de quinta-feira, na sua conta oficial no Instagram com o título Walk of Shame (caminhada da vergonha, em inglês) e acompanhada por emojis de notas a voar e uma explicação:
“Num estado laico, num momento em que muitas pessoas lutam para manter as suas casas, o seu trabalho e a sua dignidade, decide investir-se milhões do dinheiro público para patrocinar a tour da multinacional italiana”, escreve Bordalo II, terminando com um irónico “Habemus Pasta”, numa alusão direta à expressão “Habemus Papa”, utilizada quando se anuncia a eleição de mais um Papa.
Em poucas horas, esta sua publicação no Instagram teve milhares de gostos e de comentários – e antes da uma da tarde de sexta-feira já ia em mais 128 mil coraçõezinhos (and counting…) e em quase 5 mil observações, nem todas a aplaudirem a ação.
CRÍTICAS E RESPOSTAS
Às críticas, João Sobral, artista conhecido como Terrible kid que trabalha como assistente de Bordallo II, desde 2014, respondeu: “O que aconteceu ontem não foi vandalismo nem invasão”, mas antes “uma peça de arte, um tapete amovível que foi transportado até um local público que tinha os acessos abertos a qualquer um”.
E, comentando o retorno financeiro esperado com as JMJ, o estilista de celebridades Mário de Carvalho escreveu: “Ok pessoas, a vossa matemática está incrível e super em dia. É verdade que o retorno é incrível se cada pessoa gastar 100€, dos 1,5 milhões de pessoas que Portugal espera. Mas vamos a factos: vocês vão ver esse retorno financeiro onde? No bolso do mesmo Estado que expulsa sem-abrigos das ruas para as mesmas parecerem ‘limpas’ durante a visita do Papa? Vamos ver um abate nos nossos descontos porque o dinheiro dos peregrinos vai cobrir essa fatia dos nossos ordenados? Vamos ver o Estado ou a Igreja a cobrir o tratamento psicológico e judicial dos 4 800 casos de pedofilia que ficaram provados este ano?”
A todas estas questões, Mário de Carvalho responde: “não”. E explica porquê:
“Vamos continuar a limpar pessoas das ruas para que a sua santidade ache que Lisboa não tem sem-abrigos. Vamos abrir estações de metro para dar guarida a peregrinos, as mesmas que fecham no inverno para as pessoas que vivem na rua. Vamos meter para debaixo do tapete e bajular uma classe social – que se entenda, o clero – que nos últimos anos se tornou no nojo da sociedade pelas práticas muito pouco católicas que foram tornadas públicas.”
No final, o estilista lembra que esta ação não é um ataque à igreja. “É a função da arte. Despertar para realidades. Sempre foi assim, mesmo quando a corrente artística que prevalecia era a arte sacra.”
‘TEMOS DE USAR A NOSSA VOZ’
Esta não é a primeira ação de crítica social por parte de Bordallo II no espaço público. Desde sempre que o artista usa lixo nas suas esculturas para alertar consciências, e há vários anos que recorre à rua para intervir socialmente, deixando mensagens efémeras que partilha nas redes sociais.
Há cerca de um mês, vimos o seu “S.O.S. Mundo” pintado num sinal de trânsito. E, em maio, colocou um caixote de lixo com um microfone frente a Assembleia da República, em Lisboa, a que chamou de Trash Talk, traduzível por conversa fiada ou conversa de chacha, mas ali num trocadilho com a palavra trash, que significa lixo, em inglês.
Também em maio pintou a grelha de uma sarjeta com o logotipo da TAP, deu-lhe o título Tamos A Perder e escreveu: “Menos dinheiro nos poços sem fundo e mais investimento e interesse naquilo que realmente importa: Saúde, Educação, Segurança, Habitação e Cultura. Não se cansem de repetir.”
Em outubro do ano passado, chamou a atenção para os abusos sexuais de crianças na Igreja Católica, através da instalação efémera Cruzes, Credo, Canhoto, com sinais de trânsito de alerta para menores na proximidade de igrejas, uma cruz coberta com dezenas de peluches e outra com um Nenuco com uma coroa de arame farpado na cabeça.
“Quantos predadores sexuais e molestadores de crianças haverá escondidos atrás de cortinas douradas?”, perguntava nessa publicação, logo respondendo: “Aparentemente, nunca os suficientes para fazer a Igreja e os seus crentes tomar uma posição séria.”
E terminava justificando o seu ativismo, de forma clara: “À semelhança do que acredito ser o dever da sociedade, também nós artistas temos que usar a nossa voz para defendermos aquilo que está certo e aqueles que não se conseguem defender. Temos que adotar uma atitude critica, principalmente em temas tabu como este e ser parte ativa da mudança.”