Rosa Teixeira, conhecida na cidade do Porto como a Rosa da Fapobol, a Rosa do Barredo e a Rosa do Aleixo, é uma dessas mulheres raras cuja vida se confunde com a história do povo, da cidade e da própria democracia portuguesa.
Mulher, mãe, operária, sindicalista, desportista, associativista, voluntária, dirigente social e comendadora, Rosa dedicou a sua vida à luta pela igualdade de oportunidades, pela justiça social e pela dignidade dos mais pobres. É uma verdadeira mulher de Abril, uma voz da liberdade e da igualdade para todos.

Rosa nasceu a 28 de fevereiro de 1950, em Vila Nova de Gaia. Filha de mãe solteira e com pai desconhecido, perdeu a mãe muito cedo. Aos quatro anos foi viver para a Ribeira do Porto com uma tia, que a criou juntamente com uma prima.
A infância foi difícil, mas também feliz. Cresceu entre as vielas, escadas e recantos da Ribeira, num Porto antigo que ainda hoje guarda na memória.”Era mais feliz nessa altura do que agora”, recorda.
Brincava nas ruas, corria pelas escadas junto ao rio Douro, lavava roupa nas Escadas das Padeiras e frequentava a Escola de São Nicolau, onde concluiu a quarta classe.
A necessidade obrigou-a a trabalhar desde muito nova. Para ajudar a tia, lavava pratos no Restaurante Vitorino. Era tão pequena que precisava de subir para um banco para conseguir chegar à pia da loiça.
Numa época em que a pobreza fazia parte da vida de milhares de famílias, Rosa conheceu também a repressão da ditadura. Com apenas cinco anos foi levada para a esquadra por andar descalça na rua. “Era proibido brincar descalça e jogar à bola na rua. Não podia haver ajuntamentos.”
Estas experiências marcaram profundamente a sua visão do mundo e despertaram nela um forte sentido de justiça. Quando terminou a quarta classe, começou a trabalhar na Fapobol, com apenas doze anos. Mais tarde acumulou o trabalho na fábrica com o serviço no Restaurante Vitorino, onde continuou a servir às mesas até aos 32 anos. A vida era feita de longas jornadas. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Frequentou a Escola Industrial Infante D. Henrique, onde concluiu o 6.º ano do Curso de Química. Apesar das dificuldades, nunca desistiu de aprender.

Na fábrica conheceu Manuela Antunes, uma mulher politicamente consciente que a levou a participar em reuniões clandestinas. Foi através dela que conheceu figuras como Virgínia Moura e o arquiteto Fernando Távora. Rosa não tinha plena consciência dos riscos que corria. “Os colegas diziam: és maluca, o Salazar pode prender-te.” Mas ela continuava a participar porque sentia que aquelas pessoas lutavam por um mundo melhor, e onde aprendeu muito. “Gostava de aprender e já sentia vontade de mudar as coisas.” Ao mesmo tempo, destacava-se no desporto. Praticava ginástica, natação e participava nas atividades do Centro de Alegria no Trabalho. Chegou mesmo a receber uma medalha entregue pelo Presidente Américo Tomás durante a inauguração do INATEL. Diz a rir ” O presidente até me cumprimentou.“
No dia 25 de Abril de 1974, Rosa encontrava-se na fábrica. Nunca esqueceu aquele momento.”Os meus colegas diziam: ouve a rádio, estão a cantar a Grândola Vila Morena. Era a Revolução.” A liberdade entrou pela fábrica dentro. O muro que separava na cantina a administração dos operários foi derrubado. “Chamávamos-lhe o Muro de Berlim. Foi abaixo.”
A partir desse momento, Rosa assumiu um papel ativo na construção da democracia. Participou na Comissão de Trabalhadores, tornou-se delegada sindical dos químicos e denunciou as condições perigosas a que estavam sujeitos os operários. Anos mais tarde viria a reformar-se com doença profissional devido à exposição prolongada a produtos químicos.

Após a Revolução, Rosa envolveu-se no trabalho desenvolvido pelo CRUARB, entidade responsável pela recuperação da Ribeira e do Barredo. Participou em inquéritos, reuniões e processos de realojamento das famílias que viviam em condições extremamente precárias. Trabalhou ao lado de arquitetos e técnicos como Fernando Távora, Jorge Gigante e Rui Loza. Foi nesse período que começou a nascer o Bairro do Aleixo.
Muitas famílias da Ribeira, incluindo moradores das chamadas “colmeias” (quartos onde dormiam pessoas sem casa) foram transferidas para a torre do Aleixo. Rosa mudou-se para o Aleixo em 1975. E foi ali que encontrou a sua grande missão de vida. “A primeira revolução que fiz foi no Aleixo.”Tudo aquilo que aprendera na fábrica, nas reuniões clandestinas e nos movimentos populares passou a ser colocado ao serviço da comunidade. Durante mais de três décadas, Rosa tornou-se uma das principais referências do Bairro do Aleixo.
Participou na Comissão de Moradores e mais tarde na criação da Associação de Promoção Social da População do Bairro do Aleixo, uma IPSS que desenvolveu respostas sociais fundamentais para centenas de famílias. Foi vice-presidente e, posteriormente, presidente da instituição.
Sob a sua liderança nasceram projetos sociais, culturais e desportivos. Foram criados jardins de infância, ATL, um centro de dia, apoio domiciliário, atividades para jovens e idosos, parques infantis e inúmeras iniciativas comunitárias. Entre os projetos mais marcantes destaca-se o famoso” Grupo Latas”. Composto por crianças e jovens do bairro, utilizava latões como instrumentos musicais e tornou-se conhecido em todo o País. Para Rosa, o mais importante era garantir que nenhuma criança passasse fome.”Tinham almoço, jantar, transporte e lanche. Muitos deles ainda hoje dizem que fui a mãe deles.”

Era uma presença constante. Quando faltava água, quando surgiam problemas nos elevadores, quando havia conflitos ou dificuldades, todos batiam à sua porta. “Era a Rosa para todas as tarefas.” Durante décadas viveu praticamente vinte e quatro horas por dia ao serviço da comunidade. Com o passar dos anos, Rosa começou a assistir ao abandono progressivo do bairro.
Na sua opinião, a partir dos anos 90 o Aleixo deixou de receber a manutenção e os investimentos necessários. Os problemas agravaram-se e começou a crescer a ideia de demolir as torres. Rosa sempre acreditou que o bairro podia ser recuperado.
Defendia que o problema não estava apenas nos edifícios, mas sobretudo na falta de investimento social. Ao longo dos anos, denunciou aquilo que considerava uma injustiça. “O sítio era muito apetitoso. E repetia frequentemente: “Os pobres não têm direito a viver junto ao rio e ao mar.” Para Rosa, o valor dos terrenos junto à foz do Douro teve sempre um peso importante nas decisões tomadas sobre o futuro do Aleixo. Poucas pessoas podem dizer que participaram no nascimento de um bairro e assistiram ao seu desaparecimento. Rosa pode. Viu chegar as primeiras famílias. Viu crescer crianças que se tornaram pais e avós. Viu nascer associações, projetos, amizades e sonhos. Mas também viu tudo desaparecer.
Quando começaram as demolições, sentiu uma profunda tristeza. “Fiz o Aleixo e vi-o crescer e morrer.” Foi proibida de assistir à queda da sua torre (estava com depressão). Acabou por vê-la cair pela televisão, uma dor que ainda hoje transporta. Muitos moradores viveram ali mais de quarenta anos, construíram famílias, criaram laços e fizeram daquele lugar a sua casa.
Quinze anos após o início da demolição, os terrenos continuam a gerar polémica. Quando regressou ao local, Rosa emocionou-se ao ver que quase só as árvores que ajudou a plantar tinham crescido. As árvores permanecem como testemunhas silenciosas de uma comunidade que desapareceu.
Ao longo da sua vida, Rosa participou em movimentos políticos, sindicais e associativos. Foi militante do PCP, dirigente sindical, dirigente associativa, representante do movimento associativo do Porto e participante em iniciativas nacionais e internacionais de combate à pobreza, incluindo ações em Bruxelas.

No ano 2000 foi condecorada pelo Presidente Jorge Sampaio, reconhecimento de uma vida dedicada ao serviço público e à defesa dos mais vulneráveis. Hoje vive de forma simples, com a reforma de operária fabril. Mas continua a ser uma referência para todos aqueles que a conhecem.
A sua história é a história de uma menina órfã da Ribeira que enfrentou a pobreza, a ditadura e as desigualdades sociais sem nunca desistir. É a história de uma mulher que transformou a indignação em ação. Uma mulher que acreditou sempre que a liberdade só faz sentido quando é acompanhada de justiça social, que deu voz aos que não a tinham, que fez nascer um bairro, ajudou a construir uma comunidade e teve a coragem de assistir ao seu desaparecimento.
Acima de tudo, Rosa Teixeira é uma personalidade de Abril. Mulher do povo, da liberdade. Uma mulher que dedicou a sua vida aos outros.