“Esta semana, fizemos história.” A frase, difundida pela Iniciativa do Tratado sobre Combustíveis Fósseis, resume o tom que marcou o encerramento da Conferência de Santa Marta e resume o tom de celebração que marcou o encerramento do encontro. Num olhar superficial, tudo aponta para um avanço: novas alianças, novos instrumentos, uma retórica mais assertiva do que a que costuma sair das conferências climáticas tradicionais. Mas quando se olha para além das declarações, o cenário torna-se mais ambíguo — e mais próximo da realidade que tem marcado a ação climática internacional nas últimas décadas.
A conferência nasceu da frustração com esse sistema. A incapacidade das COP, no âmbito da UNFCCC, para produzir resultados proporcionais à escala da crise levou à tentativa de construir um espaço mais ágil, menos capturado por interesses fósseis e mais orientado para a ação. A promessa era clara: sair da lógica das declarações vagas e avançar para um plano concreto de transição. No entanto, o resultado final mostra que o bloqueio não está apenas no formato das negociações, mas na própria estrutura política e económica que sustenta o sistema energético global.
Na conferência de imprensa de encerramento, as ministras dos dois países organizadores, Colômbia e Holanda, apresentaram os principais resultados como um primeiro passo de um processo mais amplo. Entre eles, destacou-se a criação de um novo painel científico para a transição energética global, com sede na Universidade de São Paulo, reunindo dezenas de especialistas para apoiar governos. A iniciativa surge com ambição, mas levanta uma questão inevitável: o problema é mesmo a falta de conhecimento? Num contexto em que já existe o IPCC, que há décadas fornece evidência científica robusta e detalhada, a lacuna parece estar menos na produção de dados e mais na capacidade política de os traduzir em decisões vinculativas.
A pressão do tempo
Outro dos anúncios centrais foi a continuidade do processo, com uma segunda conferência já prevista, a ser organizada por Tuvalu e Irlanda. A leitura pode ser feita de duas formas. Por um lado, há um esforço claro de consolidação de uma nova plataforma diplomática. Por outro, prolonga-se o tempo de discussão num momento em que o tempo climático já não acompanha o ritmo da negociação política. A ciência é clara: a redução da produção e do consumo de combustíveis fósseis tem de ocorrer nesta década. Qualquer processo que dependa de ciclos longos de negociação arrisca-se a chegar tarde.
Os eixos de trabalho definidos pela conferência apontam para problemas reais. A proposta de rever a forma como se contabilizam as emissões, indo além dos compromissos nacionais (NDCs), tenta responder a uma distorção conhecida: os países produtores de combustíveis fósseis não são responsabilizados pelas emissões geradas pelo consumo das suas exportações. A intenção é relevante, mas permanece no plano analítico. Sem mecanismos vinculativos, a alteração metodológica dificilmente se traduzirá em redução efetiva de emissões.
O mesmo se aplica à ideia de descarbonizar as balanças comerciais, particularmente para países do Sul Global fortemente dependentes da exportação de petróleo, gás e carvão. Embora com diagnóstico correto, a proposta enferma de um problema real: não existe, até agora, um modelo económico alternativo que permita substituir essas receitas no curto prazo. Sem essa substituição, a transição entra em conflito direto com a estabilidade fiscal e social desses países e, nesse cenário, o recuo político tende a ser a resposta dominante.
Desfasamento entre ambição e viabilidade
A questão financeira surge, aliás, como um dos pontos centrais da conferência. Fala-se da necessidade de reformar o sistema fiscal, a arquitetura da dívida e os subsídios que continuam a favorecer os combustíveis fósseis. Mas esta transformação depende de alterações profundas no sistema financeiro internacional, historicamente lentas e marcadas por forte resistência política. Mais uma vez, o desfasamento entre ambição e viabilidade torna-se evidente.

Um dos elementos mais inovadores de Santa Marta foi o processo participativo que decorreu nos dias anteriores à conferência de alto nível. Comunidades afetadas, organizações da sociedade civil e representantes de territórios diretamente impactados pelo extrativismo trouxeram propostas concretas e, em muitos casos, mais alinhadas com a urgência climática do que as decisões finais. Defendeu-se o fim do financiamento aos combustíveis fósseis, o abandono progressivo de contratos existentes, a proibição de novas explorações e a rejeição de mecanismos considerados “falsas soluções”, como mercados de carbono. Reforçou-se também a necessidade de proteger territórios livres de extrativismo e garantir o direito das comunidades à consulta prévia, livre e informada, e em todo o lado se ouviu o pedido de que qualquer acordo fosse vinculativo.
No entanto, este processo revelou fragilidades na sua própria organização. A existência de dois espaços paralelos de debate, promovidos por diferentes atores, sem articulação clara, gerou fragmentação e reduziu a capacidade de transformar essas propostas em posições políticas consolidadas. A participação existiu, mas a sua tradução em decisão ficou aquém das expectativas criadas. O que acontece fora da sala de negociações: no dia seguinte ao encerramento de Santa Marta, o Equador avançou com exploração de petróleo através de fracking na Amazónia. O contraste é imediato e difícil de ignorar. Enquanto se discutem caminhos para a transição, a expansão fóssil continua no terreno. A Amazónia, frequentemente evocada como território a proteger, é vítima recorrente.
A própria Colômbia, anfitriã da conferência, ilustra essa tensão. O Governo posiciona-se como liderança na transição energética, mas a economia continua dependente de receitas fósseis. No contexto político interno, propostas de expansão petrolífera continuam a fazer parte do debate. Esta é a regra num sistema onde os incentivos económicos permanecem alinhados com o modelo que se pretende transformar.
Diagnóstico claro, mas faltou o resto
Santa Marta tentou afirmar-se como alternativa ao modelo tradicional das COP e avançar com aqueles que estão conscientes da urgência da transição energética longe da pressão do lobby dos fósseis. Trouxe um diagnóstico mais claro, abriu espaço a novos atores e reconheceu bloqueios estruturais que há muito são evidentes. Mas falhou no ponto decisivo: transformar essa clareza em mecanismos concretos de mudança.
Num momento em que a ciência climática exige reduções rápidas e profundas nesta década, o desfasamento entre discurso e execução torna-se cada vez mais difícil de sustentar. A questão já não é se o mundo precisa de sair dos combustíveis fósseis. É se existe, de facto, vontade política e capacidade institucional para o fazer ao ritmo necessário. Pode o sistema que criou esta crise resolvê-la?
A economia global continua assente num modelo profundamente dependente de combustíveis fósseis. Não apenas ao nível energético, mas como base de cadeias de valor, comércio internacional, receitas fiscais e estabilidade financeira. O crescimento económico, tal como está estruturado, continua ligado à extração e ao consumo de energia fóssil. Esperar que esse mesmo sistema lidere a sua própria descarbonização rápida implica assumir que será capaz de contrariar os seus próprios incentivos estruturais.
A história recente não sustenta esse otimismo. Transformações profundas como o fim da escravatura, o desmantelamento do apartheid ou a conquista do direito de voto pelas mulheres não foram resultado de uma adaptação voluntária dos sistemas de poder existentes. Foram o resultado de conflito político, mobilização social prolongada e pressão externa sobre estruturas que resistiam à mudança. O padrão repete-se: sistemas não se reformam a si próprios quando essa reforma implica perda de poder, de controlo ou de rentabilidade.
A indústria fóssil continua integrada no núcleo das economias nacionais e da geopolítica global. Estados dependem dessas receitas, empresas dependem desses ativos e sociedades inteiras foram organizadas em torno desse modelo. A ideia de uma transição rápida, liderada por esse mesmo sistema, sem rutura significativa, aproxima-se mais de uma narrativa política do que de uma trajetória plausível.
Por um lado, prolonga-se a ilusão de que a transição está em curso a um ritmo suficiente, quando os dados mostram o contrário. Por outro, adia-se a preparação social e económica para mudanças inevitáveis, aumentando o custo humano quando essas mudanças deixarem de poder ser adiadas.
A ciência climática não opera com essa margem de manobra. Os cenários compatíveis com 1,5°C exigem reduções rápidas e profundas nesta década. E, no entanto, o sistema político continua a produzir calendários que empurram decisões difíceis para o futuro.
Entretanto, os sinais físicos do colapso acumulam-se. O atual ciclo de El Niño, apontado como potencialmente um dos mais intensos já registados, surge num contexto de aquecimento global já elevado. Não se trata de projeções distantes, mas de impactos já observáveis, com consequências diretas sobre segurança alimentar, acesso à água e estabilidade social.

Continuar a apresentar a transição como um processo gradual, gerido dentro dos equilíbrios atuais, é ignorar esta realidade física. E mais do que isso, é alimentar uma narrativa que desarma a sociedade perante a dimensão do desafio.
A questão central é política e social: quem assume o custo da transição, quem perde poder e quem decide o ritmo da mudança.
Santa Marta trouxe esta tensão para o centro do debate, mas não a resolveu. E dificilmente o poderia fazer. Porque resolver esta questão implica mais do que novas plataformas de diálogo ou novos painéis científicos. Implica confrontar diretamente os interesses que sustentam o modelo atual e aceitar que uma transição à escala exigida pela ciência dificilmente será compatível com a manutenção intacta desse modelo.
A alternativa não é simples nem está isenta de risco. Mas a continuidade do caminho atual também não está. Num contexto de aceleração da crise climática, a maior ameaça é a persistência em adiar as decisões que essas soluções implicam.