Enquanto o presidente da COP30 encerrava uma sessão caótica sob chuva torrencial — quase simbólica da crise climática que se agrava — as vozes da sociedade civil e de vários países críticos ao processo convergiam numa conclusão comum: não houve liderança, não houve transparência e não houve coragem suficiente para enfrentar os combustíveis fósseis, a principal causa da emergência climática.
Esta Conferência das Partes “destacou-se por ser especialmente obscura e pouco transparente”, como denunciou Sofía Fernández Álvarez, dos Ecologistas en Acción. Durante toda a segunda semana, sociedade civil e observadores foram afastados das salas de negociação, impedidos de acompanhar a evolução dos textos e sem acesso a reuniões-chave.
“É impossível que a COP seja um processo verdadeiramente participativo quando as decisões se tomam à porta fechada”, denunciou a ativista espanhola.
O último rascunho apresentado também não trouxe alívio. Embora inclua um mecanismo para implementar a transição justa, continua sem uma rota clara para abandonar os combustíveis fósseis — uma exigência repetida ano após ano pela comunidade científica e pelos movimentos sociais.
A crítica estende-se também à falta de medidas para proteger ecossistemas essenciais. “Sendo esta a COP realizada no coração da Amazónia”, explicou Pedro Zorrilla Miras, coordenador da área de Alterações Climáticas da Greenpeace, “esperávamos compromissos concretos para travar a destruição das florestas até 2030. Isso não aconteceu. É um falhanço grave.” Sobre financiamento, a crítica é clara: o dinheiro existe mas falta vontade política. O ativista defende o “aumento de impostos sobre a indústria fóssil, os grandes poluidores e as grandes fortunas”, porque “é aí que está o dinheiro necessário para enfrentar a crise climática e transformar o sistema”.
Durante a leitura do que seria o texto final, o presidente da COP anunciou que iria incluir um plano para a eliminação progressiva dos fósseis e para travar a desflorestação. A Colômbia levantou imediatamente uma objeção formal, exigindo que essa inclusão constasse no texto, e não apenas em ata. O Equador apoiou a posição, argumentando que se tratava de uma objeção e não de um simples “ponto de ordem”. O resultado: os trabalhos foram interrompidos até que a referência aos fósseis fosse considerada. No entanto, horas depois, o texto final manteve o padrão desta COP: vago, diluído e sem compromissos reais para abandonar os fósseis, mantendo a TAF (Transition Away From Fossil Fuels) fora do documento. O financiamento para adaptação continua dependente de empréstimos privados, e os países mais poluentes não são responsabilizados.
A CAN Internacional voltou a nomear a Colômbia como âncora da luta anti-fóssil, abrindo espaço para que a Conferência Mundial para a Saída dos Fósseis e uma Transição Justa, marcada para 28 e 29 de abril de 2026, em Santa Marta, se torne o ponto de viragem que Belém não foi. A Turquia foi anunciada como anfitriã da COP31.
A pergunta que fica é simples e urgente: quantas COP mais pode o planeta aguentar sem decisões à altura da crise?
Imagens: Abel Rodrigues, Pedro Moura e Sílvia Moutinho | Direção Editorial: Joana Guerra Tadeu | Produção em parceria com Don’t Skip Humanity.