João Martins chamou um Uber para ir com a mulher e o enteado jantar ao Chiado. A viver habitualmente no Brasil, quando planeou a noite, o português nem sabia que havia uma greve geral e uma manifestação. Ia no carro a descer a Calçada da Estrela quando viu manifestantes a fugir rua acima, perseguidos pela polícia, alguns deles a serem agredidos. Quando viu agentes atirarem-se sobre uma jovem rapariga que tinha caído ao chão na fuga, resolveu abrir o vidro do automóvel e começar a gritar “cobardes!”, na esperança de que isso detivesse a violência. “Não aguentei. Tinha de fazer alguma coisa. Pensei que pudessem parar”, conta à VISÃO. Continuou a gritar à medida que ia descendo em direção à Avenida D. Carlos I, até o carro onde seguia ser parado por uma viatura da Polícia de Trânsito. Em vídeos feitos com telemóveis por ele e pelo enteado que seguia no banco da frente, a que a VISÃO teve acesso, é possível ver um agente dessa polícia a bater no vidro, a abrir a porta e a retirar João do carro à força, enquanto este perguntava insistentemente por que razão estavam a fazer-lhe aquilo, sem oferecer qualquer resistência violenta à detenção.
Na cena seguinte, um agente torce os braços de João Martins atrás das costas e algema-o, enquanto a mulher e o enteado tentam entender os motivos da ação policial. João foi levado para uma esquadra da Alta de Lisboa, onde esperou cerca de meia hora até que lhe retirassem as algemas, e de onde saiu sem saber ao certo de que é acusado. “Ainda tenho os pulsos inchados”, mostra, dizendo que está neste momento não só a preparar a defesa, mas a ponderar uma queixa contra a forma como foi tratado pela polícia.

