Naquela manhã de 1975, o calor na Praia era uma presença física, densa como a bruma seca. No silêncio de uma independência que ainda cheirava a festa, o motor a gasolina de uma carrinha das Nações Unidas rugiu ao subir a Avenida Amílcar Cabral até parar em frente ao Palácio do Governo. Lá dentro, técnicos do Programa Alimentar Mundial desdobravam gráficos que traziam o peso de uma sentença: Cabo Verde não era viável. Pedro Pires, o então primeiro-ministro, não desviou o olhar dos números impessoais do relatório. “A independência, já a tomámos”, respondeu, com uma calma que cortava o ar pesado da sala. “Este país tem de ser viável… porque nós já decidimos que somos.” O relatório foi para a gaveta. A teimosia ficou. Cabo Verde inventou-se.
A história é hoje contada pela jurista Ana Gommel, numa conversa ao ar livre, num jardim entre o Parlamento e o Banco de Cabo Verde. Uma história que circula em várias bocas, em várias ilhas. Uns dizem que Pedro Pires bateu com a mão na mesa. Outros juram que nem pestanejou. Todos concordam num ponto: o relatório foi arquivado. A determinação ficou.