“Nunca será o Estado a dizer a um filho meu o que ele pode fazer”, disparou o deputado João Almeida, do CDS, na Assembleia da República, arrancando aplausos das bancadas do Chega e da Iniciativa Liberal. Paulo Marcelo, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, que também tem filhos, sabe perfeitamente que o Estado já diz às crianças o que fazer em quase tudo, desde a obrigatoriedade de frequentarem o ensino à proibição da compra de tabaco e álcool. E é justamente este tipo de argumentação que não leva a lado nenhum na questão que o País está agora a discutir: como se protegem as crianças e os adolescentes dos conteúdos nefastos e criminosos das redes sociais? Mais: como se protegem os nossos filhos de um vício que, demonstra a Ciência de forma clara, é altamente prejudicial ao desenvolvimento dos seus cérebros?
Colocada a questão onde ela deve estar, nada é simples na legislação que foi aprovada no Parlamento, limitando o uso de redes sociais a menores de 16 anos. A iniciativa não é pioneira e já existe noutros países, mas trata-se de uma proibição ainda muito recente. No ano passado, a Austrália tornou-se o primeiro país do mundo a interditar as redes sociais a menores de 16 anos. Tudo começou depois de Annabel Malinauskas, mulher do primeiro-ministro da Austrália do Sul, Peter Malinauskas, ter lido o livro A Geração Ansiosa, do psicólogo Jonathan Haidt. Aqui se demonstra que a infância está a atravessar uma verdadeira epidemia de problemas mentais – como a depressão, a ansiedade, a automutilação e o suicídio – com o declínio da brincadeira e a ascensão do telemóvel. Os efeitos desta mudança de paradigma são devastadores.