“A cidade é agora de porcelana branca.”
Eugénio de Andrade
O nevoeiro regressou ao Porto durante alguns dias seguidos, algo a que já não estávamos habituados. Vai sempre aparecendo ao longo do ano, mas de pouca duração- surge tímido e logo desaparece. Este inverno, porém, veio afirmar-se como quem diz: “aqui estou”. Instalou-se nas manhãs frias, desceu sobre o Douro e envolveu a Ribeira numa bruma cerrada, devolvendo à cidade aquele ar misterioso que tantas vezes inspira poetas.
O nevoeiro no Porto é um tema frequente na poesia, evocando introspeção e uma atmosfera única junto ao rio. Sophia de Mello Breyner Andresen fala dessa “estranha bruma” que brota silenciosamente e nos suspende no tempo. Miguel Torga escreve como “se o próprio viver fosse nevoeiro nascer e morrer nessa névoa que tudo envolve”. E mesmo Fernando Pessoa, em Mensagem, transforma o nevoeiro numa imagem simbólica de Portugal: “Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”
Na cidade invicta, a bruma calada traz silêncio ao centro histórico, Há um frio matinal que se entranha, um ar desconfiado que cobre as ruas na Baixa. O Porto, assim envolto, ganha um encanto diferente mais recolhido, mais poético, mais profundo.
O nevoeiro voltou e com ele regressou também essa sensação de mistério que faz do Porto uma cidade de emoções suspensas na névoa.